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Terça-Feira, 7 de Abril de 2020
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Publicado em 10/02/20, às 10:55

Quinta explosiva

O fim do ‘casamento’ entre Samuca Silva e Maycon Abrantes, anunciado nas redes sociais, na tarde de quinta, 5, pegou de surpresa só quem não conhece os bastidores da política voltarredondense. Os dois, na verdade, nunca se bicaram desde que assumiram como prefeito e vice-prefeito, respectivamente. A maior surpresa, sem dúvida, foi a coincidência de Maycon pedir exoneração da presidência da Cohab-VR no mesmo dia em que Márcia Cury, que até então todos acreditavam ser funcionária do Palácio 17 de Julho, foi demitida pela direção da OS que assumiu o Hospital São João Batista.
A saída dos dois – recheada por boatos de que estariam se aliando ao vereador Granato, hoje na oposição – foi minimizada pelo prefeito Samuca Silva, que se limitou a soltar um curto comunicado a respeito, onde, politicamente, diz que vai deixar abertas as portas do Palácio 17 de Julho para Maycon. “O prefeito de Volta Redonda, Samuca Silva, afirma que Maycon Abrantes sempre foi parceiro do projeto de mudança e reconstrução de Volta Redonda, e que foi pego de surpresa com o anúncio do vice-prefeito em suas redes sociais. Samuca, que cumpre hoje (quinta, 6, grifo nosso) agenda de interesse do desenvolvimento da cidade em São Paulo, espera continuar contando com a colaboração de Maycon Abrantes na administração”, disse no documento enviado aos jornais.
Para não pôr na fogueira, Samuca não quis dar entrevistas, não usou as redes sociais para explicar nada e sua assessoria chegou a descartar a sugestão de que o prefeito concedesse uma entrevista coletiva. Ele pode estar certo. É que Maycon saiu atirando. Logo de cara prometeu caminhar de forma independente ao Palácio 17 de Julho. “Vou exercer meu mandato de vice-prefeito”, disparou, ao anunciar que tinha pedido exoneração apenas da presidência da Cohab-VR.
Entre os motivos para abandonar o barco, Maycon disse que saía ‘infelizmente’ pelo fato de Samuca “agir de maneira contrária com tudo aquilo que nós (eles) trabalhamos e pregamos durante a campanha (de 2016)”, explicou no vídeo que postou nas redes sociais e que teria surpreendido o próprio prefeito. “Trabalhamos sempre pensando na mudança, na renovação, em acabar com a velha política. Infelizmente, tudo isso não aconteceu. Fato é que ano passado, em 2019, o prefeito de forma isolada, de maneira individualmente, sem diálogo, convidou para participar do governo todas aquelas forças contrárias que foram contra nós nas eleições de 2016, achando que assim poderia ter um ganho político, uma força política junto a ele. Não concordei”, garantiu, sem citar os nomes de Paulo Baltazar, América Tereza, Nelson Gonçalves e Rogério Loureiro, ex-adversários de Samuca.
Ele foi além. “Em 2016 eu acreditei no discurso, acreditei no projeto e fui um dos principais articuladores junto ao Partido Verde no qual eu era vice-presidente na época e defendi o seu nome (Samuca) e sua proposta para concorrer às eleições municipais. Articulei um grupo empresarial com lideranças comunitárias acreditando que era um projeto realmente diferente. Vencemos a eleição com o discurso da gestão, do diálogo, mas infelizmente, nada disso aconteceu”, ponderou, indo além. “Por diversas vezes sentei, conversei e ele (Samuca) disse que iria ouvir mais, que ele iria melhorar o relacionamento dele com os demais secretários, comigo, com a população no geral, mas isso infelizmente também não aconteceu”, acrescentou Maycon.
No discurso nas redes sociais, Maycon deu conta que a gota d’água entre ele e o prefeito teria sido um release do Palácio elogiando seus ex-adversários. Detalhe: no release, Maycon nem foi citado. “A matéria que sai (release) é sempre enaltecendo esses agentes políticos que vieram sem o diálogo, sem a conversa, sem justificar para a população e para a gente, principalmente, que acreditava no governo, por que ele estava fazendo isso”, disparou o vice-prefeito. “Não tenho problema, respeito todos eles (ex-adversários, grifo nosso), todos aqueles que vieram, mas não concordo com a maneira que ele vem tratando os demais secretários e também a população. A minha insatisfação veio (explodiu) no domingo e eu mandei uma mensagem a ele (prefeito) dizendo que a partir de agora eu seria independente ao cuidar dos interesses da população, dos interesses da cidade e fazendo com que nossa cidade realmente avance”.
Maycon até que estava ciente do seu ato. “Sei que vai ser um momento difícil. Mas, enfim, estou aqui para defender e trabalhar por Volta Redonda. Infelizmente o diálogo não houve. Então, a partir de hoje, mesmo tendo acreditado lá atrás, hoje eu não consigo mais acreditar”, disparou, aproveitando para desmentir boatos de que estaria tramando a queda do prefeito com o vereador Granato, hoje também na oposição a Samuca. “Saiu uma matéria em uma página na internet dizendo que eu estaria articulando com um vereador, com políticos (contra Samuca), mas é mentira. Sempre fui transparente, sempre fui leal, sempre tive dignidade”, garantiu.
No vídeo, Maycon não revelou como vai agir de forma independente em relação a Samuca. Nem disse se será candidato a prefeito, vice ou mesmo vereador. Mas deixou o recado: “Hoje eu estou ao lado do povo, insatisfeito e não reconhecendo aquele político (Samuca), aquela proposta e aquilo tudo que foi discutido nas eleições de 2016. Então, hoje eu caminho com vocês (com o povo, grifo nosso). Não tenho vaidade, não tenho vontade e nem desejo de que eu seja alguma coisa. Não sei nem se serei, mas eu tenho que realizar e terminar o mandato do qual eu fui eleito. Seja pra discordar, pra criticar ou até mesmo para concordar, mas agora de uma forma independente. Um abraço a todos”, finalizou.

Exclusivo
A briga entre Samuca e Maycon explodiu mesmo, segundo informações obtidas com exclusividade pelo jornal aQui, no domingo, dia 1. Depois de ler os jornais, Maycon, por volta das 12 horas, usou a internet para mandar uma mensagem a Samuca dizendo que a relação entre os dois tinha chegado ao fim. Veja a transcrição da mesma:
“É prefeito, cada vez mais percebo o quão distante estamos. Em nenhum momento vejo a retribuição de ter te dado o partido e a legenda para concorrer, o grupo empresarial para te apoiar e a vontade de fazer dar certo. Só tem valor quem te questiona ou te critica. Assim como vc não conversa comigo sobre o futuro, estou buscando meu caminho independente para isso. Sou cidadão de VR, minha família possui negócios na cidade onde precisa dela cada vez mais pujante para continuar desenvolvendo e crescendo. Fico triste com essa relação, mas penso que foi o que vc sempre quis”, postou.
Não satisfeito, May-con anexou à mensagem uma cópia do seu pedido de exoneração do cargo de presidente da Cohab-VR, que acumulava com o de vice-prefeito. O documento foi recebido oficialmente pelo gabinete do prefeito na manhã de segunda, 3. “Vem através deste requerimento solicitar sua exoneração do referido cargo (presidente da Cohab) por motivos de ordem pessoais e irre-versíveis (sic)”, escreveu o vice-prefeito, conforme cópia do documento a que o aQui teve acesso.
Depois de enviar a mensagem, Maycon abandonou o celular para não atender nenhuma ligação do ex-aliado. Samuca, por sua vez, teria enviado várias mensagens a Maycon, cujo teor nem Maycon conseguiu saber, pois o prefeito escrevia e apagava, escrevia e apagava. Demonstrava profunda irritação e arrependimento ao mesmo tempo.
O primeiro encontro dos dois, já não mais como aliados, aconteceu na manhã de segunda, 3, e Samuca não deixou por menos. Exigiu que Maycon, caso fosse à audiência pública, na terça, 4, que ia tratar da questão do edital da Via Dutra, não falasse oficialmente pelo governo. Que falasse por ele, nada mais. A missão coube ao ex-deputado Nelson Gonçalves. Maycon não gostou e foi ao evento, onde se apresentou como vice-prefeito, exigindo discursar.
Sem saber das intrigas palacianas, o cerimonial da audiência pública chamou Maycon, e este discursou antes de Nelson Gonçalves. Logo a seguir um convidado também discursou e, em seguida, o ex-deputado foi chamado. Nelsinho iniciou sua fala deixando claro que ele é quem estava representando o prefeito Samuca Silva. E deu no que deu.

Márcia diz que foi demitida por questões políticas

Assim como Maycon, que usou as redes sociais para romper publicamente com Samuca, a ex-secretária de Saúde dos ex-prefeitos Gotardo Netto e Neto, e do governo Samuca, Marcia Cury, usou seu Instagram para revelar que tinha acabado de ser demitida. Foi aí que todos souberam que ela não era funcionária da prefeitura de Volta Redonda, mas, sim, da OS que passou a administrar o Hospital São João Batista. “Venho a público informar que fui exonerada da OS AFNE (Associação Filantrópica Nova Esperança), que assumiu a administração do Hospital São João Batista em dezembro, e para a qual estive prestando serviços nos últimos 30 dias”, iniciou, definindo a seguir que sua dispensa teria dedo do Palácio 17 de Julho. “Ao ser exonerada, tomei ciência de que o meu afastamento foi uma medida de interesse político”, disparou.
Apesar de não ter assumido que sua cabeça teria sido pedida pelo Palácio, Márcia disse ao aQui que a sua saída não teria nada a ver com os boatos de que também estaria agindo nos bastidores contra o prefeito Samuca Silva. “Nada a ver”, disparou, referindo-se ao encontro que teve com Granato, vereador de oposição, um dos que sonham em sair como candidato a prefeito nas eleições de 4 de outubro. Negou também ter sido dispensada pela OS em represália a Maycon Abrantes. “Foi uma coincidência”, avaliou. “Juro que foi uma coincidência!”, insistiu.
No contato com o aQui, Marcia Cury só não tratou dos seus próximos passos. É que antes de ser demitida ela tinha dito ao jornal que não seria candidata em outubro. “Não sou candidata nem a prefeita e nem a vice”, disse na noite de sexta, 31 de janeiro. Na noite de quinta, 6, indagada se manteria a afirmação, Marcia nada respondeu. Deve estar avaliando as novidades.

Veja a nota de Márcia:
Meus amigos e minhas amigas.
Venho a público informar que fui exonerada da O.S. AFNE, (Associação Filantrópica Nova Esperança) que assumiu a administração do Hospital São João Batista, em dezembro, e para a qual estive prestando serviços nos últimos 30 dias.
Ao ser exonerada, tomei ciência de que o meu afastamento foi uma medida de interesse político.
Desde o início do atual governo, permaneci prestando serviços à Secretaria de Saúde, em defesa das pessoas humildes, que precisam do serviço público e não tem recursos para contratar um plano de saúde.
Deixei o Hospital do Retiro, ao qual dediquei no governo passado, todo o meu conhecimento de administração hospitalar, para transformá-lo em modelo no Serviço Público.
Aceitei a incumbência de prestar serviços à O.S., que assumiu o Hospital São João Batista, para defender os interesses da população, do corpo médico, do corpo de enfermagem e dos funcionários de apoio. Minha intenção era contribuir para que o “nosso melhor hospital público” mantivesse o alto nível.
Discordei de muitas atitudes da nova administração da área de saúde, prejudiciais ao corpo de funcionários, como também discordo de atos do atual Governo, em termos de gestão. Em várias oportunidades cheguei a apresentar meu pedido de exoneração, mas acabei permanecendo, sentindo que as pessoas precisavam da minha presença junto ao governo.
Deixo o Governo, ao ser demitida, com a certeza do dever cumprido. Tenho consciência de que meu trabalho foi reconhecido pela comunidade, a quem sempre dediquei integralmente o meu tempo e o meu conhecimento.
Com o meu respeito.
Márcia Cury”

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