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Quarta-Feira, 19 de Fevereiro de 2020
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Publicado em 20/01/20, às 15:29

No chão das fábricas

Pollyanna Xavier

Janeiro não começou bem para as montadoras Nissan e Peugeot, localizadas em Resende e Porto Real, respectivamente. Ambas estão passando por mudanças reestruturais e o preço disto passa por demissões. A Peugeot, por exemplo, lançou na semana passada um Programa de Demissão Voluntária e adiantou para a primeira quinzena de janeiro as negociações para o acordo coletivo 2020 – em geral, a data-base é 1 de maio. A proposta do PDV, apesar de envolver demissão, não era das piores, mesmo assim, os trabalhadores a rejeitaram. Rejeitaram também a oferta da empresa para a renovação do acordo coletivo, obrigando a Peugeot a apresentar uma nova proposta. Diante das incertezas na fábrica da montadora francesa, o que se pode afirmar até o momento é que a Peugeot decidiu iniciar março com apenas um turno de trabalho.

A decisão de operar com apenas um turno foi confirmada pela Peugeot ao aQui, através da sua assessoria de imprensa, e comunicada tanto ao Sindicato quanto aos colaboradores e fornecedores da montadora. O modelo 208 será descontinuado a partir de 28 de fevereiro e a fábrica passará por mudanças estruturais para receber uma nova plataforma de serviços. “Os investimentos anunciados recentemente na planta de Porto Real, no valor de cerca de R$ 220 milhões, têm por objetivo adaptar a fábrica à recepção de uma variante da nova plataforma mundial CMP”, informou a empresa.

Apesar das mudanças previstas, a Peugeot ainda não confirmou qual ou quais modelos serão produzidos dentro da nova plataforma CMP e nem quando ela estará montada e funcionando a plena carga. A informação oficial é de que a nova arquitetura vai adequar a fábrica às vendas internas e às exportações, “confirmando o compromisso com o cliente latino-americano, que terá à sua disposição novos modelos de produtos globais produzidos localmente”, informou a Peugeot.

Demissões

Na semana passada, o aQui publicou com exclusividade que a Peugeot havia lançado um PDV na fábrica de Porto Real. O programa que previa demissões voluntárias, apesar de oferecer uma compensação interessante, foi rejeitado pelos trabalhadores em votação secreta. Segundo apurou o aQui, o PDV foi incluído no pacote de benefícios apresentados pela empresa no Acordo Coletivo 2020 (ACT), cujas negociações começaram em dezembro com o Sindicato dos Metalúrgicos.

Neste pacote, além do PDV, foram oferecidos reajuste salarial com base no INPC aplicados a partir de maio; PLR de R$ 10 mil com adiantamento de R$ 5 mil no final de janeiro; aumento de 16,67% no vale-alimentação; fechamento do banco de horas atual no dia 15 de fevereiro e abertura de um novo a partir desta data; pagamento de 100% de horas extras; reajuste de 10% no piso salarial e adiantamento do 13º salário.

A votação aconteceu no dia 10 de janeiro e o resultado só foi apurado à noite, quando a edição do aQui já estava fechada. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos, 1.464 trabalhadores participaram da votação, sendo que 591 (40,4%) votaram a favor da proposta e 864 (59%) a rejeitaram. Foram apurados ainda 9 votos (0,6%) brancos e nulos. A informação era que a Peugeot poderia apresentar nova proposta no início desta semana, porém, não foi possível confirmar se o PDV seria reapresentado. “O Grupo PSA já decidiu que a partir de 2 de março vai operar com apenas um turno na fábrica de Porto Real. O PDV seria uma saída compensatória para os trabalhadores. Com ele ou sem ele, haverá demissões”, comentou uma fonte do jornal.

Segundo a fonte, entre abril e maio a fábrica pisará no freio em relação à produção automotiva e os trabalhadores do único turno (que estará operando a partir de março) serão colocados em regime de banco de horas. “A previsão é que a fábrica fique parada de 23 de abril a 19 de maio. Serão 27 dias de banco de horas e não haverá demissões neste período”, assegurou a fonte. A desaceleração é justificada pela estimativa da empresa na produção pretendida para 2020: 47 mil carros. Para se ter uma ideia, em 2019 o pretendido para o ano todo eram 96 mil veículos produzidos, mas a empresa só deu conta de 51 mil. “Para este ano, o volume pretendido é de 4 mil veículos a menos do que o produzido em 2019”.

O aQui conversou com o Sindicato dos Metalúrgicos sobre a situação da Peugeot. O diretor responsável pelas negociações com a montadora francesa, Edmilson Alvarenga, disse que até a última quinta, 16, a Peugeot ainda não tinha apresentado uma nova proposta para o Acordo Coletivo 2020. “A empresa ainda não se manifestou desde a votação. Passamos o resultado, ela recebeu, mas não falou mais nada desde então”, disse Edmilson. Questionado sobre a opinião do Sindicato sobre o fim do segundo turno na fábrica e o PDV, o diretor foi taxativo: “O Sindicato foi, é e sempre será contra qualquer demissão. Essa é a nossa posição”, resumiu.

Nissan

A situação da Nissan é menos complexa do que a da Peugeot, porém tão preocupante quanto. A empresa demitiu um bom número de funcionários no dia 6 de janeiro, no retorno das férias coletivas. Inicialmente, o aQui divulgou em sua rede social que teriam ocorrido 200 dispensas. Este número foi repassado ao jornal por um funcionário da montadora, assustado com a quantidade de trabalhadores que teriam sido convocados a fazer o exame demissional no ambulatório da fábrica. “Era muita gente, muita mesmo. Chegamos por volta das 15 horas e ainda tinha gente do primeiro turno sendo atendida. Soube de colegas que saíram tarde da noite de lá. No dia seguinte a situação se repetiu”, contou.

Esse mesmo funcionário contou que o modelo Versa – considerado estratégico pela Nissan – teria sido descontinuado. A informação, porém, não era verdadeira. Procurada pelo aQui para falar (por e-mail) do suposto fim de série do carro e das demissões, a assessoria de imprensa da Nissan limitou-se a dizer que as informações sobre o Versa eram inverídicas, mas não comentou nada sobre demissões. “Estas informações não procedem. As férias coletivas acabaram normalmente. O Versa é o segundo carro mais vendido pelas Nissan no Brasil, não tem como ele deixar de ser produzido. Ele, inclusive, vai ganhar algumas modificações e receberá o nome de V-Drive. Ou seja: sua produção continua em Resende”, disse.

Como não houve menção às demissões no e-mail enviado pela assessoria de Nissan ao repórter do jornal, um novo e-mail foi encaminhado aos jornalistas da montadora pedindo o número de demitidos. Este, porém, não foi respondido. O aQui também tentou confirmar o número de dispensas com o Sindicato dos Metalúrgicos. Porém, o diretor, Renato Soares – responsável pelas negociações com a Nissan –, disse que ainda não tem estes números e que na semana que vem vai se reunir com representantes da empresa para tratar do assunto.

“As homologações passaram a ser feitas dentro das empresas desde dezembro de 2017 quando entrou em vigor a ‘deforma’ trabalhista. Mesmo antes desta mudança, quem tinha menos de um ano de empresa, a homologação poderia ser feita direto no MTE”, justificou.

Segundo Renato Soares, a situação das montadoras de automóveis não é das melhores. “Todas que têm plantas no Brasil estão com quedas nas vendas devido a estagnação da economia. A Anfavea andou publicando na mídia que houve um crescimento nas vendas, mas é tudo mentira. O objetivo é enganar a opinião pública”, comentou. Renato lembrou ainda que o atual governo brasileiro criou o livre comércio de automóveis com o México, a empregabilidade nas empresas brasileiras que possuem unidades em solo mexicano ficou bastante prejudicada. E isto inclui os empregos na Nissan Resende.

Versa muda de nome: vem aí o V-Drive

Sobre a informação publicada pelo aQui falando da descontinuidade do Versa, cabe esclarecer que um funcionário, demitido no retorno das férias coletivas, procurou o jornal e contou que a Nissan teria informado aos seus colaboradores que o modelo não seria mais ‘rodado’. E, ainda, que o volume de carros produzidos diariamente seria diminuído. “A linha rodava 36 carros por hora e começou 2020 rodando apenas 16. E mesmo assim só o Kicks e o March. O Versa parou de fazer. Antes das férias coletivas já não estava passando o Versa. O gerente chegou no setor e falou que a coisa estava feia e que a produção só seria feita sob encomenda. O Kicks, que antes ocupava o terceiro lugar na liderança do mercado na categoria, passou para o quinto lugar. Eles estão perdendo mercado”, contou a fonte.


Procurada para comentar a informação do ex-funcionário, a assessoria da Nissan disse que o modelo Versa não sairá de linha e continuará a ser montado na fábrica de Resende, junto com o Kicks e o March, porém terá seu nome mudado para V-Drive. A ideia é relançar o Versa como nova geração V-Drive, a exemplo do que já acontece na unidade da Nissan no México. “O Versa nacional (fabricado em Resende) será reposicionado como sedã de entrada, trocando o nome para igualar ao mercado mexicano”, informa a Nissan em seu site. Ou seja, o Versa vai acabar; vem aí o V-Drive.
Para uma segunda fonte ouvida pelo aQui, ligada à Nissan, as mudanças e novidades envolvendo o Versa podem ter levado o ex-funcionário a ter um entendimento errado, especialmente de que o carro seria descontinuado. “É possível, sim. Afinal, o modelo poderá ficar temporariamente sem ser produzido, até que as novas alterações sejam feitas visando o seu reposicionamento”, informou a fonte.


Ela vai além. Lembra, que o mercado automotivo é sazonal e janeiro, definitivamente, não é o melhor mês para as montadoras. “Se as vendas estiverem baixas, a produção diminui ou até é interrompida. A paralisação momentânea não quer dizer que o carro será descontinuado. É só uma questão de mercado. Quando ele aquece, a produção volta a plena carga. Simples assim”, concluiu.

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