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Quarta-Feira, 19 de Fevereiro de 2020
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Publicado em 20/01/20, às 10:13

No buraco

Por Roberto Marinho

A obra de uma rotatória na Rodovia dos Metalúrgicos, e a de uma nova entrada para o Portal da Saudade, de propriedade da família Campos Pereira, continuam provocando fortes emoções. São tantas que o próprio prefeito Samuca Silva não esconde a sua decepção com a promessa dos empresários de melhorar o acesso à cidade do aço para quem chega da Via Dutra e ainda para quem sai do centro em direção ao Rio de Janeiro, passando por bairros populosos, como Jardim Belvedere e Vila Rica, entre outros. “Obra de péssima qualidade”, analisa sempre que é provocado a falar sobre a rotatória.
Tem mais. No final do ano passado, Samuca anunciou que, insatisfeito com a qualidade do asfalto usado na rotatória, a prefeitura iria assumir as obras de reconstrução do trecho entre o shopping e o Hospital da Unimed. “Vamos refazer tudo e mandar a conta para os empreendedores”, prometeu, referindo-se à família Campos Pereira, que o ajudou na campanha de 2016. Maurinho, inclusive, chegou a ser nomeado para o cargo de assessor especial do governo Samuca.
O engraçado – se não fosse sério – é que o veículo que Samuca dirigia, durante um dos recentes temporais, chegou a cair em um dos buracos da rotatória do Portal da Saudade. Na entrevista, ele foi claro. “Que qualidade absurda, horrorosa. Eu teria vergonha”, desabafou durante entrevista a Betinho Albertassi, na Rádio 88. “Foi (a base) mal efetuada. Ou seja, quando você faz um asfalto, você tem que deixar o tempo dar cura suficiente para o terreno não ceder. Eles não fizeram isso. Aterraram. Aí o asfalto cede. Cabe agora à prefeitura notificar o empreendedor (grupo CP)”, contou, indo além. “Vou ser sincero: não espero resposta da notificação. Vou mandar fazer as reformas necessárias porque o cidadão que passa ali não tem nada a ver com isso”, contou, garantindo que a prefeitura iria executar. “Está horroroso aquilo”, disparou.
Ele está certo. É que o principal objetivo da obra, que seria melhorar o trânsito na rodovia, não está sendo alcançado. Muito por conta da péssima qualidade do asfalto utilizado no recapea-mento, que está com enormes buracos desde a liberação da pista, por volta de julho do ano passado. Na altura do Hospital da Unimed, e exatamente na curva da Rotatória, onde o carro do prefeito quase foi engolido por um enorme buraco, existem verdadeiras crateras. Para quem trafega na rodovia, o risco de colisão por desviar das “armadilhas” também é grande.
Próximo ao acesso do estacionamento do shopping Park Sul – pouco depois da rotatória – a situação é a mesma, com a pista cheia de buracos. Com as chuvas constantes, tudo piorou. Aliás, alegar que o problema teria sido causado pela chuva é fugir da realidade, uma vez que os buracos apareceram assim que a rodovia começou a ser utilizada, em pleno período de estiagem. Os buracos próximos ao Hospital da Unimed, por exemplo, foram os primeiros a aparecer, e nunca foram consertados de maneira eficiente pela empresa responsável.
Uma coisa não se pode negar: após um susto inicial, no final de dezembro, não houve mais alagamentos dignos de nota na Rodovia dos Metalúrgicos. Mostra que, pelo menos, o sistema de drenagem na rodovia, até então inexistente, começou a funcionar. Por outro lado, a obra foi embargada pelo Inea justamente por ter assoreado uma lagoa e mudado o curso de um rio quando começaram a fazer as obras de drenagem. Resumindo: cobriram um santo e descobriram outro.
Para piorar, deve-se ressaltar que a Rodovia dos Metalúrgicos vem recebendo uma série de empreendimentos ao longo dos anos, e está valorizando cada vez mais. A tendência é que os negócios cresçam, e com isso aumente o movimento de veículos leves (a maioria de motoristas de cidades vizinhas) e pesados, além dos ônibus que atendem à região do Roma. E vai piorar. Tudo por conta da expansão do Hospital Unimed, da abertura de um novo posto de combustíveis, e do que o grupo CP pretende fazer de uma imensa área que terraplenou às margens da via com a promessa de que faria um serviço nota 10 para a população de Volta Redonda. Pura lorota. “Aquilo é horroroso”, define bem Samuca quando fala das benfeitorias que a prefeitura recebeu ao firmar uma PPP com a família Campos Pereira.
Cadê a lagoa
Além dos buracos na pista, um dos principais problemas que a obra da rotatória causou na Rodovia dos Metalúrgicos foi a degradação ambiental. A lagoa do Belvedere, que Maurício Ruiz, secretário de Meio Ambiente, jura que nunca existiu, sumiu do mapa.


A situação começou a ser denunciada pelo aQui em 2018 (edição 1.100, de 2 de junho), mas o Inea só foi tomar uma atitude um ano depois, quando no dia 4 de junho de 2019 fez uma vistoria que acabou embargando parcialmente a obra da família Campos Pereira.
Na época, as autoridades responsáveis – secretaria de Meio Ambiente de Volta Redonda e a própria presidência do Inea – tentaram, sabe-se lá por qual razão, minimizar a situação. Em nota oficial, o então presidente do órgão ambiental estadual, Cláudio Dutra, disse que a obra “não havia sofrido um embargo, mas uma paralisação parcial” e que a responsabilidade sobre o licenciamento seria do município. Detalhe: a nota foi divulgada duas horas e meia após o aQui ter noticiado com exclusividade nas redes sociais a operação de fiscalização e o embargo. Outro detalhe: Maurício Ruiz também chegou a jurar que o riacho do Belvedere nunca existiu.
Uma meia verdade, ou uma mentira inteira? Se depender de todos os laudos oficiais do Inea, a segunda opção é a que vale. De acordo com o último documento oficial produzido pelo Inea sobre o caso – disponível para consulta no site do órgão -, todas as irregularidades denunciadas pelo jornal se confirmaram. E outras surgiram.
O documento em questão é o Relatório de Vistoria 970.09.19-FMP, de 27 de agosto de 2019, assinado por três analistas ambientais do Inea – sendo uma arquiteta, uma geóloga e um engenheiro ambiental. O relatório descreve, com detalhes técnicos e registros fotográficos, toda a situação da área, que continha a lagoa, um remanescente florestal com pelo menos uma nascente, e um córrego, que foi parcialmente capeado (coberto) com as obras da rotatória. Mas o documento traz outras revelações importantes, como, por exemplo, que a área tem cinco processos administrativos referentes a ela.
Dois destes processos estão em nome de Rafael Capobiango Filho, cuja loja de materiais de construção no Jardim Belvedere ocupa uma pequena parte da área. Essa parte, onde fica o depósito da loja, foi alugada a Capobiango por Mauro Campos pai. Por causa dessa pequena parte, Capobiango sofreu um processo movido pelo Ministério Público Federal em 2009, por crime ambiental. O depósito estaria na Faixa Marginal de Proteção (FMP) da lagoa, de acordo com a denúncia do MPF.
Segundo uma fonte ouvida pelo aQui, que pediu para permanecer anônima, esse processo foi a causa do rompimento da amizade entre Capo-biango e Mauro. De acordo com a fonte, a estratégia de Mauro teria sido desmatar o morro que fica acima da lagoa, deixando a terra escorrer para dentro do corpo d’água. O objetivo seria eliminar a lagoa e aproveitar toda a área para algum empreendimento. Basicamente o que o proprietário tentou fazer a partir de 2018, mas com o aval das autoridades, que praticamente assinaram embaixo de um crime ambiental.
No final das contas, Capobiango levou a culpa e ficou com a responsabilidade de recompor a vegetação no entorno da lagoa. Um dos processos administrativos em nome dele é referente justamente à Licença de Recuperação Ambiental da área. No outro processo, de 2008, curiosamente Capobiango solicita a demarcação da Faixa Marginal de Proteção da referida lagoa, o que foi feito em 2010. Durante a análise para a demarcação dessa faixa que foi identificada a ocupação irregular por Capobiango, na área alugada a ele por Mauro.
O que chama a atenção nesse processo de 2008 é o reconhecimento oficial da lagoa, cuja existência sempre foi negada pelo secretário de Meio Ambiente, Maurício Ruiz. Se tivesse tido um mínimo de boa vontade – ou competência, diriam alguns – Ruiz teria ido ao Inea e tomado conhecimento de todos os problemas envolvendo a área, que vêm de mais de dez anos atrás. Preferiu tentar desmentir o aQui, mas foi desmentido pela realidade dos documentos oficiais.
Na conclusão do relatório – que foi solicitado pelo próprio Mauro Campos após o embargo, para iniciar a recuperação da área – os técnicos do Inea consideraram inviável a recuperação do trecho onde o córrego foi coberto, “sem gastos excessivos”. A análise aponta ainda que o trecho estaria parcialmente urbanizado, e por isso não poderia ser feita a demarcação da Faixa Marginal de proteção (FMP). No outro trecho, onde existe a nascente, um remanescente de floresta e o que sobrou da lagoa, os técnicos afirmam que pode ser feita a demarcação da FMP, para posterior recuperação.
Os técnicos sugerem ainda a realização dos “estudos e projetos hidráulicos necessários para a demarcação da FMP”. Na última movimentação do processo – no dia 26 de setembro de 2019 -, o relatório foi encaminhado para o Serviço de Demarcação de Faixa Marginal (Sefam), para que um analista ambiental do Inea elabore uma análise técnica. Depois disso, nada mais foi feito.

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