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Quarta-Feira, 1 de Abril de 2020
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Publicado em 16/03/20, às 11:22

‘Não peguei’

Por Vinicius de Oliveira

Paulinho do Raio-X e Samuca se relacionavam muito bem…
…até que o vereador passou para a oposição, se aliando a Neto.

Se dependesse apenas do deputado federal Emerson Miguel Petriv, o Boca Aberta, o vereador Paulinho do Raio-X teria as mãos amputadas. Isso se ele já tivesse sido condenado pela Justiça por tentar subornar o prefeito Samuca Silva, é claro. E, óbvio, se o PL do parlamentar de Londrina já estivesse em vigor, o que ainda está longe de acontecer. Se depender de ‘Boca Aberta’, todo político que for condenado por crime de corrupção contra o patrimônio público deverá ter as mãos amputadas, como forma de castigo.


Com ou sem a aprovação do PL draconiano, é tarde demais para Pauli-nho do Raio-X. Não para suas mãos, mas para sua própria carreira política, que foi mutilada ao som dos ossos se partindo pelo plenário da Câmara de Volta Redonda, o que gerou maledicências e desconfianças. Muitas contra nada mais nada menos que 20 outros vereadores da atual Legislatura, afinal, segundo denúncia do prefeito Samuca Silva, endossada pelo Ministério Público Estadual e pela Polícia Civil, outros dois parlamentares também estariam envolvidos do caso de corrupção que surgiu antes, durante e depois do pedido de impeachment do chefe do Poder Executivo. Como os nomes estavam sendo guardados em segredo (ver matéria na páginas 14 e 15), as suspeitas recaíam sobre todos do Parlamento.


O caso começou a se tornar realidade logo depois da sessão na qual os vereadores rejeitaram – por 13 votos a 8 – a abertura de uma CPI que poderia gerar um processo de impeachment do prefeito Samuca Silva. De acordo com as informações até então divulgadas, e em cima do depoimento de Samuca, o parlamentar da oposição, filiado ao MDB, teria lhe encontrado várias vezes desde o Carnaval. No último encontro, que aconteceu sábado, 7, por volta das 10 horas, na Vila, o vereador, marinheiro de primeiro mandato, chegou em um carro com placa que seria adulterada (é dele mesmo, adquirido de uma grande empresa de aluguel de veículos, com sede em Belo Horizonte) e foi se encontrar com Samuca na sala 828 do 8º andar do Pontual Shopping, onde funciona a sede do Conselho Regional de Radiologia.


Paulinho do Raio-X não podia adivinhar (haja ingenuidade) que iria cair em uma verdadeira arapuca montada pelo prefeito Samuca Silva. Conforme mostram os vídeos feitos por Samuca – transmitidos pela TV Globo –, Paulinho do Raio-X deixou claro como seria o esquema político para travar novos pedidos de impea-chment (dois, grifo nosso). “Eu consigo movimentar assim. Para eles virem com menos… com menos sede. Eu acho que é um desgaste. Não vai passar. O resto é com sua base”, disse, enquanto aparecia, em cores, diante da câmera, materializando o pedido de propina.
“A minha injeção não é grande. A minha injeção é pequena”, continuou o ‘humilde’ vereador, que exerceu a função de técnico de Raio-X nos hospitais da rede pública de Volta Redonda, de onde surgiu o seu apelido que o levou a conquistar mais de 2.500 votos nas últimas eleições. “Eu não viso muitas paradas, não. O que você acha que é bom para você (Samuca, grifo nosso), que é tranquilo para você? Me arruma isso aqui que eu destruo geral!”, indicou, escrevendo em uma folha de papel (que teria rasgado ao ser detido) o valor que supostamente estaria exigindo: R$ 325 mil. Em seguida, sacramentou: “Segunda-feira o carro de som não vai estar na porta da prefeitura. Não vai ter nenhuma tribuna sobre esse assunto”, disse, referindo-se ao carro de som utilizado por outro vereador da oposição: Carlinhos Santana, pródigo em subir na Tribuna para falar mal do governo.


Para configurar o flagrante, Samuca, como mostra o vídeo da TV Globo, avisou ao vereador que o dinheiro estaria guardado em uma mochila, dentro do carro, que deixou estacionado na garagem do Pontual Shopping. Antes, Samuca avisou que já teria levantado R$ 40 mil e que o restante seria pago por mês, em uma espécie de ‘mensalinho’. “O que você quer fazer? Quer que eu traga aqui?”, perguntou o prefeito.
Informado que era para ele ir buscar o dinheiro, Samuca foi até o estacionamnto do Pontual Shopping e voltou com um a mochila, aparentemente recheada de cédulas de R$ 100 (três pacotes, ver foto), que teriam sido fornecidas pelo MP. Dois policiais mitares, que estavam escondidos no corredor do 8º andar do shopping, entraram na sala, e deram ordem de prisão a Paulinho do Raio-X. O vereador, surpreso, gritou muito e, como que querendo fugir do flagrante, disparou: “Eu não botei a mão em nada!”.


A estratégia não deu certo, e os PMs insistiram na prisão, sendo que o vereador, desesperado, tentou tomar a arma de um dos agentes. Não conseguiu e, para dominar o vereador, o PM passou a arma para as mãos do próprio prefeito. Foi o suficiente para Paulinho ser dominado e algemado por vários policiais. Tem mais. Uma fonte garante que Pauli-nho do Raio-X chegou a pedir que lhe deixassem fugir. Queria se jogar do 8º andar. “Não quero passar por esse vexame”, teria dito. O pedido não colou.
Paulinho foi encaminhado para a Cadeia Pública, em Benfica, prisão destinada aos parlamentares fluminenses com foro privilegiado tornando-se, assim, o primeiro vereador da história de Volta Redonda a ser preso no exercício do mandato. Enquanto o parlamentar era levado para a cidade maravilhosa, Samuca foi até a sua residência para contar à primeira dama o que tinha acontecido, o que leva a crer que nem ela sabia do tamanho do problema. Depois de detalhar o que tinha acontecido, Samuca foi para o Rio de Janeiro, de onde só voltou na madrugada de domingo, 8, para comemorar o Dia Internacional da Mulher.


A prisão de Paulinho do Raio-X não durou muito, é verdade. Foram apenas duas noites na cadeia. O juiz João Batista Damasceno, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), tido como inimigo das ações do MPE, concedeu um habeas corpus ao vereador, mas, embora tenha lhe dado a liberdade, que pode ser provisória, determinou o seu afastamento da Câmara de Volta Redonda, sem perda de direitos e vantagens. Ou seja, Paulinho do Raio-X vai continuar recebendo seu salário normalmente (seus assessores também).


“Se a prisão ocorreu do recebimento, ainda que o paciente afirme não ter recebido (“eu não botei a mão em nada”, palavras de Paulinho, grifo nosso), e o prefeito não afirma ter entregue, tem-se que tal fato não pode ser considerado como capaz de consumar o crime imputado. Trata-se da clássica distinção que se há de fazer entre flagrante preparado, flagrante forjado e flagrante esperado. No caso, os agentes contribuíram para a ocorrência da situação e estavam à espreita para a decretação da prisão”, considerou João Batista, juiz que estava de plantão no último final de semana, indo além. “Não se tratou de crime no qual o paciente livremente encetava o fato tipificado como crime. Tratava-se de situação antecipadamente preparada para incriminação”, escreveu.


A decisão do juiz certamente dará argumentos à defesa e, principalmente, deu munição ao grupo de oposição ao prefeito para espalhar maledicências. “Isso foi um flagrante armado por esse menino”, vociferou Washington Granato, na sessão de segunda, 9, “Ele quer colocar o povo contra a Câmara. Olha a maldade desse sujeito: colocou a Casa em xeque”, completou, referindo-se ao fato de o MP e a Polícia não terem revelado os nomes dos demais suspeitos.

A ira de Granato não se deu apenas pela decisão tomada pelo juiz João Batista, que entendeu que o flagrante de Samuca era suspeito. Na verdade, o desassossego de Granato e de seus colegas teve início depois que Samuca se encarregou de avisar à Justiça que o ex-radiologista, seu ex-aliado (ver foto), não estava sozinho no esquema. Em seu depoimento, o prefeito teria dito que mais dois parlamentares receberiam parte da propina encomendada por Paulinho do Raio-X (ver matéria na páginas 14 e 15).
O problema é que como Samuca não tinha divulgado o nome dos outros dois parlamentares, e o caso está sendo investigado sob sigilo, o mistério angustiante levou os vereadores a um estado paranoico. Com medo da opinião pública e do estrago que o caso pode provocar nas eleições que se aproximam, os parlamentares queriam nomes. O pastor Washington, que, assim como Granato, também votou contra Samuca, era um deles. “É preciso divulgar esses nomes com provas porque não quero ser apontado na rua como um dos possíveis corruptos. As pessoas estão nos apontando na rua. Não quero passar por isso, não”, vociferou.


A aflição do pastor tem razão de ser, diga-se de passagem. Ele é um dos vereadores que, até a votação do processo que poderia iniciar o processo de impeachment de Samuca, compunha a base aliada do governo. Tal como o milagre de Jesus que transformou água em vinho, o evangélico passou para o lado da oposição. “Ninguém merece carregar essa pecha injustamente”, completou o vereador, referindo-se às suspeitas contra todos os que não foram presos.


Apesar da polêmica, Rodrigo Furtado, da base aliada a Samuca, conseguiu aprovar, por unanimidade (20 votos), a instauração de uma CPI para apurar junto ao Ministério Público, à Polícia e ao próprio Samuca Silva (e seus assessores) quem são os outros dois vereadores envolvidos no esquema de cor-rupção. Rodrigo, como autor do pedido, presidirá a comissão, que terá ainda cinco membros. Todos serão escolhidos por Neném, presidente da Casa, e não por sorteio, como se chegou a pensar. “Vou escolher os integrantes”, disse o vereador ao aQui.


E isso aconteceu na noite de quinta, 12. Os escolhidos foram ………………………………….. A partir de agora, eles terão 60 dias para finalizar a investigação. Isso se não pediram mais prazo. Todos os envolvidos serão chamados a depor, como Samuca, Paulinho do Raio-X, secretários e assessores das duas partes que possam ter tido alguma participação no caso de maior repercussão política dos últimos anos. Nitroglicerina pura, como foram os casos dramáticos que envolveram a greve de 88 na CSN e a morte de Juarez Antunes, ex-líder sindical, ex-prefeito e ex-deputado federal.

Versões
Em nota, o presidente da Casa, o vereador Neném, adversário político declarado do prefeito Samuca Silva e aliado do ex-prefeito Neto, chegou a dizer que a Casa não compactuava com a extorsão. “A Câmara Municipal cumpre com todas as determinações judiciais envolvendo o citado caso, bem como está à disposição das autoridades policiais e judiciais para ajudar no esclarecimento de todos os episódios. O Poder Legislativo é, sem dúvida, o maior interessado em ver todo o caso solucionado o mais rapidamente possível, com todos os culpados identificados e punidos de acordo com a lei. A Casa tem identidade plural e não se resume a ações de uma só pessoa. Junto das investigações externas, já estão em curso medidas internas aprovadas em plenário para averiguar o caso”, disse, se referindo à CPI a ser presidida por Rodrigo Furtado. “A Câmara Municipal não compactua, no entanto, com ilações, suposições e mentiras que possam ser oriundas de todo esse episódio lamentável”, encerrou.


O prefeito Samuca Silva, por sua vez, também se manifestou através de uma nota. “Quem me conhece sabe que não tenho desvios de conduta, nem na minha profissão de contador e auditor, nem na política e sabe que não aceito qualquer tipo de vantagem. Estou muito tranquilo e seguro, pois trabalho com os preceitos da ética, transparência e, sobretudo, respeito ao dinheiro público e ao cidadão de Volta Redonda”


A nota de Samuca diz ainda que foi a primeira vez que passou por uma situação do tipo. “Na condição de prefeito, é a primeira vez que sofro uma tentativa de extorsão dessa natureza. Continuo a seguir orientações do Ministério Público e da Polícia Civil, que seguem investigando outros possíveis envolvidos. Reitero meu respeito e bom relacionamento com poder Legislativo. Esta é uma situação pontual que cabe aos órgãos investigarem. Fiz minha obrigação como cidadão que busca uma política nova”, afirmou.


Para o Ministério Público, Samuca não agiu de má-fé. “Importante deixar claro que isso tudo foi iniciativa do vereador. O vereador procurou o prefeito e, depois, agendou com ele a data da entrega (da propina, grifo nosso)”, disse à imprensa Ricardo Martins, subprocurador-geral de assuntos criminais do Ministério Público do Rio de Janeiro. “Não concordamos com a soltura (de Paulinho). Porque até o próprio prefeito pode se encontrar numa situação de perigo”, opinou.


Em entrevista ao jornal Diário do Vale, o advogado do vereador Paulinho do Raio-X, Flávio Lerner, tentou minimizar o crime cometido pelo seu cliente. Segundo o jornal, o advogado afirmou que as gravações que conteriam os pedidos de dinheiro feitos pelo parlamentar ainda não fazem parte do processo. Só depois da perícia serão acrescentadas aos autos. Por enquanto, elas fazem parte apenas do inquérito policial. O periódico informou ainda que, segundo o advogado, como as fitas ainda não integram o processo judicial, a possível participação de outros dois parlamentares na extorsão contra o prefeito só existem no processo graças ao depoimento de Samuca. Ou seja, ainda não constam provas concretas. Essa situação só deve mudar quando todo o material de vídeo fornecido pelo prefeito for anexado ao processo.


A verdade é que enquanto a investigação ainda estiver em curso tudo pode acontecer. Até o fechamento dessa reportagem, Paulinho continuava incomunicável. Por decisão da Justiça, ele não pode trocar nenhuma palavra com Samuca, muito menos com os dois vereadores envolvidos no esquema. “Os fatos narrados no auto de prisão em flagrante são nebulosos e possibilita dúvida sobre a legalidade de todo o procedimento do qual resultou, ao final, a prisão. Em vários momentos do depoimento do senhor Elderson Ferreira da Silva, o mesmo faz interpretação de comportamento do paciente (Paulinho do Raio-X), ao invés de afirmar a ocorrência concreta”, decidiu, por fim, o desembargador João Batista Damasceno.

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