Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Quarta-Feira, 19 de Fevereiro de 2020
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Publicado em 20/01/20, às 10:27

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A crise entre boa parte dos médicos do Hospital São João Batista e a prefeitura de Volta Redonda – por ter entregado a administração da unidade para a Associação Filantrópica Nova Esperança (AFNE), uma OS de Campos dos Goytacazes – não acabou ontem, sexta, 17, como os dois lados esperavam. Pode terminar durante este final de semana. Ou pode azedar ainda mais o relacionamento da classe com o governo Samuca. E pode afetar a pendenga existente entre a secretaria de Saúde e os médicos das Policlínicas da Cidadania e da Mulher, além dos que atuam nas demais unidades de Saúde da cidade do aço pelo regime de RPA. E ainda no Hospital do Retiro – já em crise financeira, com atraso de pagamento de pessoal e prestadores de serviços.
O número oficial dos médicos envolvidos na ameaça de greve é incerto. Fala-se em 130 só no Hospital São João Batista, sem contar os enfermeiros que atuam na unidade. Muitos, das duas categorias, já teriam até pedido demissão por não concordar com a gerência da OS. Ou com a redução de salários e o aumento da carga horária no caso dos que trabalham por RPA nas policlínicas.
A ameaça de greve, revelada com exclusividade pelo aQui, envolvia os médicos do São João Batista (contra a OS), da Policlínica da Cidadania, da Policlínica da Mulher, do Hospital do Retiro e dos postinhos (contra o Palácio 17 de Julho). A proposta era parar de atender a população no final de janeiro e a decisão foi levada ao conhecimento do Cremerj (Conselho Regional de Medicina) e da secretaria de Saúde local, desde o dia 26 de dezembro, um dia depois do Natal, quando a categoria tomou ciência que teria que participar de um processo seletivo, elaborado pelo governo municipal.
Inicialmente, a ameaça não foi levada a sério. No entender do Palácio 17 de Julho, o grupo era pequeno e os salários – alegado motivo para declarar a greve – seriam pagos entre o final de dezembro e o início de janeiro. Até prova em contrário, os salários teriam sido quitados na segunda passada. “Estão assim há cinco dias. Mas (os salários) foram pagos hoje (segunda, 13)”, disse Samuca ao ser procurado pelo aQui para falar a respeito. “Aconteceu no Retiro também”, completou. “Daqui a pouco passa”, disparou, mostrando otimismo.
Não deveria. Pelas redes sociais, os médicos do Hospital São João Batista se organizaram para contratar os advogados Antônio Lopes e Antônio Neto – para preparar, de acordo com a lei, a deflagração da greve, motivada pela pressão que estariam sofrendo por parte da OS AFNE. A entidade, desde que assumiu a administração do HSJB, em 1 de dezembro passado, como o aQui noticiou com exclusividade, exigia, para contratá-los, que todos concordassem em criar uma Pessoa Jurídica ou que todos aceitassem trabalhar pela CLT.
A bomba da greve acabou caindo no colo do secretário de Saúde, Alfredo Peixoto. Ele até tentou defender a opção oferecida pela OS, mas acabou sendo convencido que a exigência não teria amparo legal. Ou seja, os médicos poderiam optar entre uma opção e outra. Para eliminar o risco da greve, Alfredo prometeu aos médicos que iria pressionar a OS, que é de Campos dos Goitacazes, a não ser tão radical como está sendo. Se a estratégia der certo, a greve pode ser natimorta. Caso contrário…
PSS (I)
A sigla não é de nenhum partido político. Muito pelo contrário. Significa Processo Seletivo Simplificado, que a prefeitura de Volta Redonda decidiu impor, ao pagar das luzes de 2019, a quem trabalhava por RPA para o Palácio 17 de Julho. Envolve médicos, psicólogos, enfermeiros, gerentes. Enfim, quase todo mundo a serviço das várias secretarias do governo Samuca. No caso dos médicos das Policlínicas da Mulher e Cidadania, o prazo se encerrou no dia 3 de janeiro.
E o resultado ficou aquém, bem aquém do que Alfredo esperava. Além de vários pedidos de demissão, a maioria dos médicos boicotou o edital de seleção. Cerca de 70%, segundo uma fonte, não teriam aderido. Assim, Alfredo pode até reeditar o edital se conseguir convencer a classe dos médicos de que aderir é a única opção para quem quiser manter vínculo com a prefeitura de Volta Redonda.
Pelas regras do PSS, os médicos selecionados seriam contratados de forma temporária por três meses, prorrogáveis por outros tantos. Com um porém: teriam que aceitar uma redução de salários da ordem de 50% – caindo de R$ 4 mil para R$ 2 mil mensais. E com o aumento da carga horária de trabalho.
Quando anunciaram que não iriam participar do PSS, os médicos deixaram aberta uma porta para que Alfredo e Samuca promovessem uma reunião de negociação que não houvera até então. Diante do fracasso no número de adesões, Alfredo acabou se reunindo na tarde de quinta, 16, com uma comissão de médicos que atuam nas Policlínicas. Segundo uma fonte, ele teria pedido apoio e adesão. Prometeu, em troca, estudar uma nova carga horária para que os médicos não sejam prejudicados.
PSS (II)
De acordo com documento a que o aQui teve acesso, o PSS obteve a adesão de apenas 177 profissionais da Saúde no total, entre médicos (anestesista apenas 1, grifo nosso), assistenciais sociais (41 no total) e biólogos (19), entre outros. O número de psiquiatras que aderiram, impressionou: foram 12. Vão continuar trabalhando, mas vão receber R$3.500 por 12 horas de serviço.

No CTI

Para acompanhar de perto a situação e tentar resolver o imbróglio entre a OS que administra o Hospital São João Batista e os profissionais da unidade, principalmente os médicos, o secretário de saúde, Alfredo Peixoto, anunciou, via assessoria de imprensa, que ontem mesmo transferiu-se de mala e cuia para uma sala (deveria ser o CTI) do hospital. “Estarei lá acompanhando, diariamente, as questões. Assim, poderemos contribuir efetivamente para que todas as dúvidas sejam esclarecidas e a população não sofra nenhum prejuízo”, crê o secretário.
No release enviado aos jornais, Samuca aproveitou para se colocar à disposição dos envolvidos. “É preciso ressaltar que a implantação da OS em Volta Redonda é um modelo que já está consolidado no Hospital do Retiro. Os indicadores constantes do DATASUS nos mostram a melhoria dos serviços prestados e o aumento do número de atendimentos tanto de emergência quanto ambulatoriais, no Hospital do Retiro. Esperamos que essa melhoria também aconteça no Hospital São João Batista. Quero deixar claro que estou do lado dos trabalhadores e que meu gabinete está, sempre, à disposição deles”, justificou.

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