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Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018
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Publicado em 01/10/18, às 09:08

Balança, mas não cai

Por Roberto Marinho

A notícia não surpreendeu muita gente em Volta Redonda: após décadas em visível estado de abandono, o Edifício Redondo, no Aterrado, teve que ser interditado pela Defesa Civil. Foi na quarta, 12, e na ocasião, a coordenação do órgão afirmou que, após vistorias, diversas notificações teriam sido feitas à administração do prédio, e como não foi tomada nenhuma providência, só restou a interdição. Mas, sem local para ir, várias famílias continuam morando no prédio, mesmo com o risco iminente de incêndio ou acidentes.

 

E o que pouca gente sabe – ou se deu conta – é que não só os moradores do Edifício Redondo correm risco, mas também quem passa pelas imediações do icônico prédio, que há bastante tempo virou referência de atividades nada familiares no seu entorno. As brises – ou quebra-sóis -, aquelas placas de concreto que ficam no alto do edifício, estão amarradas com cabos de aço, mas estão se deteriorando e correm o risco de soltar as pesadas peças na cabeça de quem estiver passando embaixo.

 

Isso é o que explicou o coordenador da Defesa Civil de Volta Redonda, Leandro Rezende, afirmando que o IPPU-VR (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Volta Redonda) está monitorando o caso por conta dos riscos mais do que evidentes. “Os maiores riscos são o de incêndio, porque há muita fiação exposta e não há equipamentos ou sistemas de prevenção, e as pilastras de concreto no topo do prédio – chamadas brise soleil (quebra sol, em português, grifo nosso) – estão amarradas por cabos de aço, e estão se deteriorando. Há o risco de queda dessas estruturas, e por isso o IPPU também está empenhado no caso”, relatou, acrescentando que uma engenheira contratada pela administração do prédio está fazendo um levantamento das obras necessárias.

 

De acordo com Rezende, o prédio está “em péssimas condições”, mas existe o problema das famílias que moram no local não terem para onde ir. Por isso, a secretaria de Ação Comunitária (Smac) também está acompanhando o caso, fazendo um cadastro dos moradores, junto com a síndica do prédio. “Sabemos da dificuldade das pessoas saírem. A Smac está fazendo um cadastro – a síndica está fazendo uma lista dos moradores e vai enviar para a secretaria – para ajudá-las a encontrar um lugar para ir. Essas pessoas têm que sair do risco, o mais rápido possível. A interdição não elimina o risco, o que elimina o risco são as obras”, afirmou o coordenador, que não tem uma estimativa precisa do número de moradores, mas aposta que sejam pelo menos umas 50 pessoas.

 

O coordenador da Defesa Civil disse que não há um prazo para que todas as pessoas sejam retiradas. “Não há um prazo definido para todo mundo sair, temos (a prefeitura, grifo nosso) que ver caso a caso. Estamos orientando a quem tiver lugar para ir, que faça isso o mais brevemente possível”, disse, descartando qualquer espécie de operação para retirar os moradores, tanto que o IPPU teria se colocado à disposição da síndica e da engenheira contratada pela administração do prédio para auxiliar nas obras necessárias. “A prefeitura está fazendo tudo o que pode fazer para auxiliar essas famílias, isso é o dever do município”, disse.

Rezende vai além. Garante que os envolvidos estão se mobilizando para resolver a questão. “Há uma engenheira contratada pela administração do prédio, que está muito empenhada em resolver a situação, e a síndica e a subsíndica – que são pessoas jovens e moram lá com suas famílias – também estão muito dispostas a resolver tudo. Elas pegaram a administração recentemente, com o prédio em uma situação muito difícil, com diversos problemas”, apontou.

 

Leandro disse ainda que qualquer situação que a população note – com risco para bens ou vidas – deve ligar para o 199 da Defesa Civil, “Nós faremos uma vistoria e tomaremos as providências necessárias para resolver a situação”, afirmou.   

 

Sede da prefeitura

A história do Edifício Redondo acompanha o surgimento da Volta Redonda moderna da década de 1950. Pelo menos é o que pensa o arquiteto e urbanista Lincoln Botelho da Cunha, professor do curso de Arquitetura do UGB e ex-secretário de Planejamento de Volta Redonda. Segundo ele, o prédio surgiu para dar uma nova vida à área do Aterrado que passou, na época, por uma drástica mudança, com a construção de um muro pela Rede Ferroviária Federal, estatal que controlava o transporte ferroviário.    

 

“A história começa com o fechamento, por um muro, da passagem que existia entre as avenidas Paulo de Frontin e Getúlio Vargas – que não existia na época – pela RFFSA. Com isso, um dos locais que era o centro nervoso de Volta Redonda, o final da Paulo de Frontin e da Amaral Peixoto (área onde hoje funciona uma revenda de carros na Getúlio Vargas), caiu no ostracismo”, explicou Lincoln, destacando que as pessoas transitavam sobre a linha de trem.

 

Na época, algumas propostas começaram a ser discutidas para que os pedestres voltassem a circular pela área, entre elas a construção de uma passagem subterrânea ligando as duas avenidas – feita pelo arquiteto Oswaldo Moreira, pai do projeto do Edifício Redondo. Ousado para a época. A outra ideia era a construção de um viaduto que sairia da Paulo de Frontin e desceria onde hoje é o início do Viaduto Nossa Senhora das Graças. Lincoln afirma que o projeto do viaduto foi considerado inviável porque previa um “desvio” em torno do Edifício Pastor, e não cumpriria o objetivo de revitalizar a área abandonada após o fechamento da passagem pela RFFSA.

 

A proposta da passagem subterrânea também era bastante complicada, por causa do nível alto do lençol freático no local, que exigiria um sistema de drenagem mecânico (bombas elétricas) permanente, encarecendo muito o projeto. “Além disso, a construção em si, com os trens funcionando e a obra acontecendo embaixo, seria um pesadelo de logística e engenharia”, avaliou Lincoln, estimando que a obra custaria cerca de cinco vezes o orçamento anual da prefeitura de Volta Redonda, em valores da época.

 

Pouco tempo depois que essas propostas começaram a ser discutidas pelo poder público, o arquiteto Oswaldo Moreira, junto com o comerciante Zé do Aço, se juntaram para a construção do Edifício Redondo, como uma forma de revitalizar o local, praticamente “morto” após a construção do muro da linha férrea, em uma iniciativa privada. Curiosidade que poucos conhecem: a prefeitura de Volta Redonda funcionava onde é agora o Restaurante Popular (a ser reaberto), ao lado do Edifício Redondo. Posteriormente, o local virou sede do extinto Clube Municipal.

 

“Eles (Moreira e Zé do Aço) criaram uma espécie de incorporadora imobiliária, que construiu o edifício em um sistema de consórcio. A ideia era fazer o primeiro shopping center da América Latina, e o prédio teria uso estritamente comercial, com uma galeria nos andares térreo e subsolo, e salas comerciais nos demais andares. A iniciativa não deu muito certo, e o prédio foi concluído parcialmente. Em alguns andares, é possível notar que falta a parede externa das salas. Isso está assim desde a época da construção”, afirmou Lincoln.

 

A incorporadora, segundo ele, se desfez, e o edifício nunca teve uma ocupação regular desde então. O imóvel foi invadido e virou moradia de pessoas em situação de risco social. Algumas lojas passaram a funcionar nos andar térreo, outras no subsolo, entre elas, algumas tradicionais, como a loja de materiais esportivos pertencente ao comerciante e atleta Libiano Abiatti, a primeira do tipo na região.

 

De acordo com Lincoln, houve diversas tentativas do poder público de intervir no local, sem muito sucesso. “O prédio já estava habitado, e a quantidade de recursos financeiros e de pessoal para realizar a intervenção eram proibitivos”, apontou. O arquiteto afirmou que, se nada for feito, o futuro do prédio é sombrio, com o abandono total, degradação da estrutura, e uma possível demolição.

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