Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Domingo, 18 de Agosto de 2019
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Publicado em 05/08/19, às 08:46

Volta Redonda, 65 anos

Ao comemorar 65 anos Volta Redonda vive uma fase de reconstrução de uma identidade que inaugure o novo caminho que está sendo obrigada a trilhar, desde que foi frontalmente atacada e descaracterizada, com a privatização da matriz de sua identidade. Desde que sentiu diluída a substância original de sua identidade, passou a buscar novos caminhos, a partir de seu potencial e experiência. Afinal, Volta Redonda nasceu sob a égide da modernidade ao inaugurar o processo da industrialização brasileira. Sempre respirou novidades e inspirou desenvolvimento, não apenas no sentido de sediar e fazer progredir novas tecnologias, negócios e interlocuções, como no sentido de amparar os seus habitantes.
Sim. Uma vez que foi projetada para dar certo, incluiu todos os envolvidos e não apenas os personagens principais ou importantes. Cada trabalhador que veio participar da construção e depois da operação da Companhia Siderúrgica Nacional, não apenas se sentia, como de fato era parte do projeto em condição de igualdade com todos os demais. Assim, o amparo aos trabalhadores e suas famílias foi condição “sine qua non” para o êxito do projeto. Essa cultura teve um significado especial para transformar aqueles pioneiros e se incluiu substantivamente na formação da primeira geração de voltaredondenses. Entender que para dar certo todos devem ter, não apenas direito, mas garantia de acesso à moradia, saúde, educação e demais requisitos para a boa formação e dignidade, era experimentar um paradigma que se inaugurava como modelo para um país que investia em seu crescimento e independência.
Tal paradigma incluía ainda a vivência em uma cidade especialmente projetada para salvaguardar a qualidade de vida dos habitantes e fomentar as melhores resultantes de um desenvolvimento social com segurança e equilíbrio. Desde o nascimento todo volta-redondense tinha acesso a assistência qualificada, que incluía, além de alimentação, saúde e educação, opções de recreação, cultura e formação profissional.
Os investimentos e iniciativas em todos os setores se subordinavam a essa cultura dominante que ampliava a qualidade e exigia contextualização com as expectativas dos moradores da cidade modelo que se construía. Os eventos – cívicos, religiosos, esportivos, culturais – eram parte do processo de integração que incluía aculturação de tanta gente vinda de tantos lugares do país e que foi chamada para criar o núcleo de uma nova categoria de trabalhador no Brasil, a dos industriários. Essas pessoas vieram de realidades diferentes do país agrícola e, a grande maioria, com origem na agricultura familiar. Muitos não conheciam uma cidade, as instalações e recursos urbanos, e começaram a conviver em uma comunidade intensa, plural, ampliada.
Aprender essa nova vivência foi mais fácil em função do amparo e proteção coletiva que fortaleceu a expectativa de melhorias e o orgulho de fazer parte desse significativo passo do progresso do país. Tal status era frequentemente revigorado pelo Presidente da República, Getúlio Vargas, que exaltava o orgulho brasileiro com a nova Siderurgia Nacional que era mantida pelo novo trabalhador brasileiro.
Com proteção, trabalho, habilidade e a intensa assimilação de novos conhecimentos a cidade cresceu e consolidou a seu perfil de Cidade do Aço com muito orgulho. “Um laboratório humano que deu certo”, como constatou o Mestre Waldyr Bedê. Não contávamos que o protagonismo do “mercado” poderia ser uma ameaça ao verdadeiro desenvolvimento, que é a proteção e o desenvolvimento das pessoas.
O tempo passou e uma nova realidade começou a desmontar aquele princípio que substanciou qualitativamente a formação dessa nova sociedade. A relação da empresa com a cidade e com seus empregados começou a sofreu um esvaziamento desde os anos 70, culminando com a privatização da empresa e o consequente rompimento do compromisso com o bem estar social. A partir daí a cidade não conseguiu restabelecer uma relação edificante com a empresa e passou a sofrer a perda de substância identitária, além do desemprego e demais privações econômicas.
Nas décadas seguintes a cidade passou a sofrer o dia-a-dia dessas mudanças, desde as descaracterizações urbanas, passando pela perda da rede de amparo até a busca de uma nova vivência cultural, ante o desaparecimento do norte orientador demandado pela empresa. Assim começaram os ensaios de renascimento a partir de outras potencialidades que germinaram aqui e ali, porque além da grande empresa, aqui se fez uma cidade que agora precisa renascer. Os setores de comércio e serviços buscam se fortalecer, enquanto os volta-redondenses buscam o novo sentido orientador de seu desenvolvimento.
Por nascer sob uma atividade altamente poluidora, a cidade já desfrutou de índices essenciais para a qualidade de vida dos habitantes, como a mais arborizada e a que mais intensamente fazia uso da bicicleta como meio de transporte. Como o desenvolvimento é sinônimo de consumo independente das consequências, a cidade hoje é um estacionamento. O cidadão tem dificuldade de se identificar com a cidade, enquanto o veículo vem recebendo cada dia mais atenção. As pessoas encontram dificuldades em caminhar pelas calçadas porque elas coexistem na área urbana como uma circunstância histórica. Carecemos, com urgência, de uma mobilidade urbana que resgate a cidade para os cidadãos.
O mais importante, porém, será a consolidação da nova identidade que não poderá prescindir dos valores do passado e muito dos seus ingredientes. Afinal Volta Redonda é a única cidade industrial construída nos moldes propostos por urbanistas no século passado. Não há como apagar a história e recomeçar do zero. Precisamos saber de onde viemos para saber aonde vamos. Não devemos abrir mão da Cidade do Aço. Precisamos fortalecer os nossos sonhos com a mesma ousadia dos precursores que inauguraram aqui a industrialização brasileira, iluminar o novo caminho e amparar absolutamente todos os cidadãos na construção desse novo futuro.

Vicente Melo, Jornalista

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