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Sexta-Feira, 20 de Outubro de 2017
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Publicado em 28/08/17, às 11:48

“Vai pro inferno!”

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Pollyanna Xavier

No calhamaço de folhas depositadas nas prateleiras do Tribunal Regional Federal da 2ª região (TRF-RJ), há um processo polêmico aguardando decisão. Está lá desde maio de 2017 e deverá, um dia, ser analisado pelos desembargadores que formam a 5ª Turma Especializada do TRF. Por enquanto, não se sabe nem mesmo se ele vai ser apreciado este ano. A matéria envolve a propriedade e a posse de uma série de imóveis, considerados não operacionais, localizados na cidade do aço, e que a CSN diz ser dela. Dentre eles estão seis que estão ocupados por tradicionais clubes de lazer de Volta Redonda, áreas de treinamento e, ainda, o prédio ocupado pelo Hospital Vita, na Vila.

O processo em questão é a Ação Civil Pública que o deputado federal Deley de Oliveira move, desde 2005, contra a CSN na 3ª Vara Federal da cidade do aço. Em 2016, véspera do aniversário de 75 anos da empresa, a juíza Alessandra Belfort sentenciou que os imóveis questionados no processo seriam da CSN. A magistrada considerou “inconteste que o patri-mônio imobiliário da Siderúrgica tenha, sim, sido reputado quando da sua privatização”, em 1993, e ressaltou que todos os imóveis de propriedade da empresa “foram adquiridos por compra e venda firmada com a CSN e não por desapropriação”.

A decisão, claro, gerou recurso ao TRF. A questão é que, enquanto este recurso não é julgado, a CSN segue obtendo vitórias na Justiça nos processos por reintegração de posse que ela move contra os ocupantes de “seus” imóveis. Foi assim com o Umuarama, em setembro de 2016 [o clube recorreu]; foi assim com o Ressaquinha, em junho de 2017 [o clube devolveu o imóvel e a CSN trancou os portões]; foi assim com o Vita, em novembro de 2014 [o Hospital recorreu e a Justiça determinou que ambos entrem em acordo para que o despejo não acarrete em um problema social de grande impacto].

Semana passada, conforme o aQui noticiou, a Justiça nomeou um perito para avaliar o imóvel ocupado pelo Clube Náutico, no Aterrado. Este perito tem até o dia 15 de setembro para apresentar o valor de mercado referente a uma possível locação do imóvel (que não será ‘barato’, grifo nosso). A decisão atendeu o pedido feito pela CSN de cobrar um aluguel do Clube. Desde 2014 a CSN move um processo de reintegração de posse contra o Náutico para tentar reaver o imóvel. Dirigentes do Náutico reagiram à decisão: “O clube não tem dinheiro para pagar aluguel”, avisou Toninho Orestes, presidente do clube.

“Sacanagem”
Um dos primeiros a reagir contra a decisão da Justiça foi o deputado federal Deley de Oliveira, autor da ação que questiona a propriedade dos imóveis da CSN. Em entrevista ao programa Dário de Paula, Deley não mediu palavras para atacar o presidente da CSN, Benjamin Steinbruch. “Isto é uma sacanagem!”, disparou. “Quando eu escuto este papo de que a gente tem que dialogar com a CSN (…), este cara [referindo-se a Steinbruch] não quer diálogo”, disparou, dizendo que vai procurar ajuda do presidente da Câmara – vereador Dinho -, e, pra variar, de D. Francisco Biasin para que, juntos, tomem uma atitude enérgica contra a CSN.

Na entrevista, Deley ameaçou tomar algumas medidas contra a CSN, em resposta às ações de reintegração contra os clubes. “Não dá mais para aguentar esta sacanagem do Benjamin (Steinbruch). Eu vou tomar algumas atitudes, independente se alguém vai ou não vai gritar, ou se tem rabo preso com ele, ou se depende dele pra campanha, não dá mais! A gente está vendo o que ele fez com o Ressaquinha. Por que ele fechou o Ressaquinha? Pra que? Olha o que ele fez com o Aero – daí vem alguém e diz que ele vai construir um shopping na área do Aero. Tá! O que ele fez (no Aero) foi meter uma cerca de arame farpado lá”, reclamou, sem detalhar as medidas que pode tomar.

Ele foi além. O deputado, que, segundo apurou o aQui, nunca chegou a receber repasses da CSN para financiamento de suas campanhas, disse que não vai parar de questionar os atos de Benjamin no que diz respeito ao município. “Alô Volta Redonda, está na hora de se mexer. D. Francisco, prefeito, presidente da Câmara, toda a sociedade civil organizada, está na hora de dar um basta. Ou a gente senta para conversar, ou a gente vai ter que arrumar uma briga muito grande com este senhor”, disparou, fazendo novas ameaças. “Na Câmara (dos Deputados) tenho alguns instrumentos que talvez ele (Benjamin) não vai ficar muito feliz comigo, não”, disse, mais uma vez sem explicar o que pretende fazer.

Deley falou ainda que, como cidadão e como deputado federal, vai fazer o que estiver ao seu alcance para que Benjamin Steinbruch dê explicações sobre onde pretende chegar com a ameaça de fechar os clubes. “Fique sabendo – porque eu sou um adversário leal – que eu vou continuar enchendo o saco dele e vou encher mais. Vou usar tudo o que eu posso como deputado e cidadão para fazer ele se explicar. Já fui ao BNDES uma vez e falei com o presidente de lá: como é que vocês emprestam dinheiro para este cara? Eu disse mesmo! Ele comprou a CSN com dinheiro do povo. O BNDES é dinheiro do povo, o nome do banco tem a palavra social no meio. É do povo!”, bradou.

Em alguns momentos da entrevista, Deley chegou a se exaltar e exagerou ao sugerir que Benjamin Steinbruch fosse para o inferno. “O campo do América, no Rústico, eu cresci e fui criado ali. Meu Deus do céu! Aquilo é da comunidade, ninguém vai acabar com aquilo, não, amigo. Se amanhã ele chegar pra gente e falar: olha, eu vou precisar desta área porque vou gerar 300 empregos, 400 empregos, eu tenho certeza que a sociedade vai entender. Agora, fazer o que ele faz só pra fechar, ah, vai para o inferno!”, exagerou.

Deley também concedeu entrevista ao Programa de Betinho Albertassi, na Rádio 88. Nela, pegou mais leve e a declaração mais ousada foi quando disse que Benjamin Steinbruch tem tomado atitudes “antipáticas” contra Volta Redonda. “Me lembro na época do Neto (…) as pessoas diziam que o Neto não tem diálogo com o Benjamin, que o Neto não fala com o Benjamin. Eu estava vendo no início do ano o prefeito dizendo que agora a gente está com uma boa conversa com a CSN. Pelo jeito está mesmo. Agora ele (Steinbruch) quer fechar os clubes, já fechou o Ressaquinha outro dia. Minha grande bronca é (saber) o que ele vai fazer com estas terras? Ele fecha lá, mete lá o arame farpado e a gente não sabe de nada”, resmungou. “Eu torço pra que a CSN seja vendida pra outra pessoa. Não é possível que alguém possa ser pior do que este cara”, disparou, sem saber que horas depois o prefeito Samuca Silva iria apresentar à direção da CSN uma proposta de compra do Escritório Central.

Nota da Redação – A CSN foi procurada pela reportagem do aQui para comentar as declarações do deputado Deley de Oliveira dadas aos radialistas Dário de Paula e Betinho Albertassi. Mas, até o fechamento desta edição, a empresa ainda não tinha se manifestado.

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