Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 16 de Julho de 2019
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Publicado em 17/06/19, às 09:02

Vai feder

Por Vinícius Oliveira

O anúncio feito pelo secretário de Assistência Comunitária de Volta Redonda, Marcos Vinicius Convençal, o ‘Marcão’, durante audiência pública realizada na Câmara na noite de segunda, 10, de que, no município, existem 90 pessoas vivendo em situação de rua chamou a atenção de todos. A princípio, o problema não seria tão grave. Mas é.
“Seria uma satisfação pessoal conseguir tirar das ruas ao menos 2% da população que vive em situação de rua em Volta Redonda. Mas não é nada fácil. Estamos enxugando gelo”, desabafou Marcão durante a audiência, primeira do tipo a ser realizada por iniciativa do Poder Público.
É claro que, se consideradas as grandes capitais, como o Rio de Janeiro, por exemplo, cujo número de indivíduos nessa situação passa dos cinco mil, os 90 de Volta Redonda seriam ‘uma fichinha’. Contudo, dado o tamanho da cidade do aço, a quantidade de cidadãos dormindo ao relento é preocupante. Não à toa, tem sido motivo de estudos por parte do governo Samuca, que busca soluções eficazes, mas ainda sem sucesso. E o drama aumenta quando o frio cai.
De acordo com Marcão, o maior desafio, inclusive durante o período das baixas temperaturas, é convencer o morador em situação de rua a aceitar acolhimento em um dos abrigos municipais. “Fomos às ruas para entender melhor o que acontece e descobrimos que muitos preferem continuar vivendo na rua. Rejeitam a oferta de ajuda”, comentou, salientando que 80% dos moradores de rua seriam oriundos de outras cidades e até estados. “Nós não podemos obrigá-los, mas essas pessoas precisam entender que seu direito de estar na rua não pode ultrapassar o direito de ir e vir de outras pessoas”, teorizou.
Embora Marcão não tenha apresentado dados muito relevantes e nem projetos concretos para resolver um dos desafios mais difíceis enfrentados por qualquer prefeito, o governo Samuca não está parado. Desde o ano passado, o departamento de Proteção Especial da Smac  vem realizando abordagens noturnas às pessoas em situação de rua. Os locais visitados foram os que apresentam maior concentração de indivíduos sem teto: os centros comerciais da Vila Santa Cecília, Aterrado e Retiro, além de trechos urbanos da BR-393 (Rodovia Lúcio Meira) nos bairros Dom Bosco e Ponte Alta, onde há fluxo intenso de migrantes.
Conforme explicação da assessoria da prefeitura de Volta Redonda, as abordagens acontecem uma vez por semana, a partir das 19 horas, com o objetivo de “convidar a pessoa em situação de rua a utilizar os serviços oferecidos pelo governo municipal, como o albergue Seu Nadim ou ainda o Centro Pop (Centro de Referência Especializada para a População em Situação de Rua) Uhady Nasr”. Nele, o usuário pode se alimentar, fazer a higiene pessoal, lavar roupa, além de ter direito a atendimento médico e social com profissionais da região e encaminhamento para outras instâncias, como o projeto Superação, por exemplo.
A questão é que as simples incursões às ruas ao anoitecer não surtiram o efeito esperado. Prova disso é que, de acordo com a Smac, só para se ter uma ideia, passaram pelo projeto Superação, em 2018, 26 pessoas, sendo que 11 ainda estão participando e 15 foram desligados. Destes, apenas oito alcançaram a autonomia financeira, seja através de benefícios como o BPC ou por meio de renda informal. E somente três pessoas foram encaminhadas e devidamente inseridas no mercado de trabalho.
Por conta disso, o governo Samuca Silva resolveu criar um Grupo de Trabalho (GT) a fim de discutir e construir políticas públicas efetivas no que diz respeito aos moradores de rua. “Foram sete meses árduos para construir um plano. E entendemos que a gente precisa da participação de toda a estrutura da prefeitura. A ideia quando criamos o GT era pensar no que ainda não foi pensado. Achar uma forma de devolver a dignidade para essas pessoas”, afirmou o prefeito.
Uma das metas traçadas pelo GT foi justamente a convocação da audiência pública com a participação de autoridades importantes que dominam o tema, como a subsecretária estadual de Desenvolvimento Social, Dianne Arrais. Convidada a explanar sobre as ações tomadas pelo governo do Estado, Dianne começou sua fala dando um leve puxão de orelhas na Smac. “Milito nessa área há mais de cinco anos. Sendo assim, posso dizer com veemência que fico muito feliz ao ver uma audiência pública sobre essa questão e bastante cheia. Mas sinto a falta da presença dos próprios cidadãos em situação de rua”, disparou, arrancando olhares atravessados de alguns dos presentes. “Se eles não querem nem ir para o abrigo, quanto mais para uma audiência na Casa do Povo”, ironizou um dos presentes, sem se identificar.
Ouvir os interessados’
Dando mostra que não ouviu o comentário, Dianne insistiu que ouvir aqueles que vivem nas ruas é fundamental para se traçar metas atingíveis. “Precisamos perguntar a eles (moradores de rua) o que eles querem; por que saíram de casa e por que não querem voltar. Um dia uma mulher me relatou que ofereceu café a outra mulher que vive na rua. A primeira ficou indignada depois que a segunda jogou o café fora, na sua frente. Ao ouvir a história, perguntei: ‘Mas a senhora perguntou se ela gostava de café?’. Essas pessoas são nosso público alvo e, justamente por isso, precisam ser ouvidas”, teorizou a subsecretária.
Ainda de acordo com Dianne, o governador Wilson Witzel teria interesse em construir políticas públicas para sanar o sofrimento dos cariocas (ou seria dos fluminenses?) que dormem nas calçadas. Ela foi além. Frisou que a solução pode estar nas mãos dos empresários (sempre eles, grifo nosso). “Fizemos uma pesquisa junto ao empresariado questionando em qual setor eles preferiam que o Estado voltasse a investir dinheiro público através de projetos. Eles foram expostos a um questionário no qual apareciam diversos tópicos da área social, como LGBT, moradia entre outras. A maioria apontou que seu desejo era ver o governo investindo na população em situação de rua”, contou.
Diante disso, Dianne garantiu que o governo Witzel já teria planos de ação engatilhados. “Vamos ampliar as redes de atendimento. Com apenas 18 Centros Pops em todo o território estadual, encontramos dificuldades para atender totalmente à demanda. O Estado pensa em, por exemplo, oferecer repúblicas aos mais jovens com estrutura para seu desenvolvimento. Vamos fazer também parceria com os empresários para que seja mais fácil inserir esses indivíduos no mercado de trabalho, afinal é bom para os donos de loja não lidar mais, todos os dias, ao abrir o estabelecimento, com o mau cheiro, a sujeira…”, disparou, sem medo de criar polêmicas.
Mas a notícia mais comemorada pelos presentes foi outra. Dianne garantiu que o governo do Estado deve voltar a financiar, em modo cooperativo, um projeto antigo que consistia em encaminhar os cidadãos de rua imigrantes de volta à sua terra natal, extinto há alguns anos, o que seria mais útil para Volta Redonda. “É claro que haverá uma parceria com os municípios. Mas é fato que o governo estadual assumirá essa política”, prometeu.
Parcerias
Sempre que o Estado não dá conta de atender suas demandas, as instituições não governamentais e filantrópicas acabam assumindo a função. Não fosse isso, os índices seriam ainda piores. Tanto em Volta Redonda quanto em Barra Mansa, a Igreja Católica assumiu o protagonismo de assistir mais de perto os indivíduos em situação de rua. “Em Barra Mansa, os moradores procuram a Igreja Matriz de São Sebastião todos os sábados à noite. Também são atendidas, em média, 50 pessoas. Além disso, a igreja disponibiliza 20 marmitex para o Lar de Jesus, uma instituição que acolhe os moradores de rua na cidade. E em Volta Redonda são, em média, 35 pessoas atendidas nos bairros Retiro, Aterrado, Vila e Amaral Peixoto. Há a distribuição de alimentos e a evangelização. Os agentes trabalham com escalas entre as paróquias Santo Agostinho, São Paulo Apóstolo e São Luiz Gonzaga”, explica Gladstone de Lima, coordenador da Pastoral da População em Situação de Rua da Diocese.
Ainda de acordo com o religioso, a ideia é justamente se unir ao Poder Público, mas sem assumir totalmente a função. “A Pastoral da População de Rua não tem por objetivo assumir o papel do poder público, mas sim o de trabalhar junto com o Estado para atender as pessoas que vivem nessa condição. Existe um comitê que trabalha com as questões de população de rua. As reuniões entre diferentes instituições da sociedade civil, incluindo igrejas e outras denominações religiosas, e o poder público acontecem uma vez por mês. Isso facilita o trabalho em rede”, revevlou Gladstone.
“Essas pessoas (que vivem nas ruas) parecem invisíveis aos olhos da sociedade. O que tentamos é dar visibilidade para esse problema social, sem fazer assistencialismo, mas procurando trabalhar em rede com outras instituições para poder transformar a vida desse irmão. A missão da pastoral é ser presença junto ao povo da rua e dos lixões, reconhecendo os sinais de Deus presentes nesses irmãos e desenvolvendo ações que transformem a situação de exclusão em projetos de vida para todos”, completou Gladstone.
Vale ressaltar que a parceria não é vista com maus olhos pelo Poder Público. Muito pelo contrário. É o que afirma a subsecretária de Estado de Desenvolvimento Social, Dianne Arraes. “Não podemos descartar essas parcerias. A Igreja já faz esse trabalho há muito tempo e conhece melhor do que o próprio Estado as pessoas envolvidas. Temos casos em que o governo ajuda financeiramente ou com aporte físico essas instituições. Ignorar o trabalho da igreja é um erro crasso”, advertiu.

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