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Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
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Publicado em 27/11/17, às 08:29

Uma mentira bem contada

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Até o mês passado Rose Salazar era desconhecida do grande público. Era apenas uma professora de História, que dava aulas em uma das escolas mais importantes da Fevre. Mas, recentemente, graças à magia da internet, ganhou fama, principalmente entre os setores mais conservadores da cidade do aço, ao postar um vídeo levantando bandeira contra o que chama de implementação da ideologia de gênero nas unidades de ensino do município. No vídeo, Rose não economizou na truculência. Nem na aspereza. Falou alto, criticou a secretaria de Educação e ainda se recusou a trabalhar com seus alunos temas relacionados a gênero e diversidade. Ao aQui,  Rose disse que abandonaria o emprego caso fosse obrigada a fazê-lo.

 

O tom feroz de seu depoimento, permeado pelo velho chavão “não sou preconceituosa”, arrebanhou um grupo de pais, crentes que a SME baixaria uma ordem para que todas as escolas passassem a ter apenas um banheiro, onde meninos e meninas se trocariam. E se espiariam, feito homens adultos libertinos. Cego de raiva, o séquito de Rose alardeou que os professores passariam a influenciar na orientação sexual das crianças, dizendo-lhes que poderiam fazer sexo com quem bem entendessem. A fim de evitar o que considera o “apocalipse”, Rose clamou para que a população ocupasse o plenário da Câmara, na sessão de terça, 21, sob o pretexto de exigirem que os vereadores extinguissem da grade da rede pública de ensino o termo ‘Ideologia de Gênero’.

 

O apelo de Rose não deu certo, pois meia dúzia de gatos pingados foi à sessão, onde esperavam que vereadores como Paulo Conrado, sempre contrário às discussões de gênero, fizesse coro ao movimento. Esperavam que o presidente Sidney Dinho, famoso pelos embates com a comunidade LGBTIQ, lhes abrisse o microfone como se a tribuna fosse da Casa da Mãe Joana. Não conseguiram o apoio nem dos vereadores pastores, defensores ferrenhos da tradicional família brasileira. Frustrada, Rose não se deixou abalar. Avisou aos seus seguidores que no próximo dia 5 de dezembro voltará à Casa, para a audiência pública convo-cada por Conrado para debater o tema.

 

Formada há 7 anos, depois de ter passado um longo período fora das escolas ao ser reprimida pelo ex-marido, Rose alega que as discussões de gênero, ao contrário do que pregam seus defensores, são, na verdade, uma forma de alienação orquestrada por grandes empresários internacionais a fim de dominarem o mundo. “Vocês não entendem o que realmente está por trás. Fundações como MacArthur, Ford, Goldman e Rocke-feller, entre outras gigantes, bancam as chamadas ‘causas LGBT’ para desintegrar as famílias, deixando o ser humano cada vez mais sozinho. Quanto mais solitário for o indivíduo, mais frágil ele será, se tornando um consumidor alienado”, teoriza.

 

Para Silvana Hedi Rodrigues, coordenadora do grupo ‘Mães Pela Diversidade’, posicionamentos como o da professora Rose têm provocado certa histeria na cidade do aço. “As pessoas estão ouvindo discursos mentirosos, com base no machis-mo e estão reproduzindo, causando medo infundado na população. Nada disso do que estão pregando sobre banheiros ou influência na orientação sexual é verdade. As pessoas precisam se informar mais antes de reproduzirem o que não entendem”, avalia Silvana.

 

Silvana tem razão. Depois do vídeo postado pela professora, que chegou a insinuar que na escola São Francisco de Assis, no Retiro, a ‘ideologia de gênero’ estava bastante adiantada, o vereador Sidney Dinho foi até o local para verificar com seus próprios olhos se era verdade o boato. Não era. “Dinho veio dizendo que era uma visita rotineira, para conhecer as demandas da comunidade. Acreditamos, pois não é raro isso acontecer. O levamos para conhecer cada canto da escola. No final da visita, ele admitiu que estava  procurando a obra de construção de um banheiro unissex”, contou a diretora adjunta.

 

Desconcertado ao constatar que fora induzido ao erro pela verborragia de Rose Salazar, o parlamentar teria se desculpado com a direção da escola e postou em seu Facebook uma retratação. Segundo integrantes do grupo que promove debates sobre diversidade e formas de combate a LGBTfobia em Volta Redonda, Dinho constatou o que sempre saltou aos olhos de todos: nem nos planos nacionais, estaduais e municipais de Educação, nem na proposta curricular do município aparece o termo ‘ideologia de gênero’. O que significa que Rose e cia brandem suas espadas contra um inimigo que não existe.

O que é mito e o que é verdade

Mas, afinal de contas, o que está acontecendo dentro das escolas de Volta Redonda? O que é mito e o que é verdade? Existe, de fato, uma ameaça orquestrada por homossexuais para atentar contra a pureza das crianças? E a secretaria de Educação estaria, de fato, planejando derrubar os banheiros das escolas públicas e construir um novo, porém unissex, para meninos e meninas usarem à vontade? Ou estaria pensando em construir um ‘terceiro banheiro’?

 

Amedrontados com a repercussão, o assunto virou tabu na SME, quase um tema proibido. Mas há quem lembre que a secretária de Educação, Rita de Cássia, já chegou a explicar qual era a finalidade das discussões. “O objetivo é a conscientização da aceitação das diversas famílias. Devemos apresentar às pessoas a diversidade e o combate à LGBT fobia. É uma determinação do Ministério Público Federal”, resumiu, na época.

 

Em vídeo publicado nas redes sociais, o prefeito Samuca Silva tratou de desmentir a implemen-tação da ideologia de gênero no município. Ele disse que em dezembro o tema será discutido de forma ampla, com a participação de todos os setores da sociedade que tenham interesse no assunto, através de um simpósio a ser organizado pela secretaria de Políticas Públicas para Mulheres, Idosos e Direitos Humanos.  Aproveitou o assunto e disse que a estória do banheiro unissex era um mito. Era estória de verdade.

 

Até o vereador Paulo Conrado, autor da lei que proíbe a ideologia de gênero nas escolas de Volta Redonda (considerada inconstitucional pela Justiça, aguardando julgamento de recurso, grifo nosso) admitiu não saber ao certo o que, de fato, se passa dentro das escolas. “Eu só não sou a favor de que deem um nó na cabeça dessas crianças com relação a sexo. Se o intuito é capacitar professores contra a discriminação e o preconceito contra homossexuais, não há desacordo”, contemporizou, frisando que não alimenta qualquer tipo de preconceito. “As pessoas me conhecem, sabem que não tenho preconceito”.

 

Segundo Vinicius dos Santos, diretor de Comunicação do Sindicato dos Profissionais da Educação (Sepe), que compôs o extinto Grupo de Trabalho (GT) formado pela SME, o teor dos encontros foi mal interpretado e o objetivo da secretaria e do Ministério Público, que determinou a criação do GT, era capacitar professores, de forma que estes entendessem as nuances da diversidade. “Em nenhum momento o GT disse que a escola passaria a usar um banheiro só. Ninguém falou que haveria o ‘dia da aula gay’, com direito a arco-íris na lousa e purpurina nos alunos. O que foi tratado nas reuniões dizia respeito às obrigações da escola enquanto agente do Estado. Os professores precisam saber como lidar com vítimas de ataques homofóbicos, bem como com os agressores. Precisam aprender a ser sensíveis e evitar que a comunidade LGBT sofra ainda mais”, explicou o jornalista.

 

 Ainda de acordo com ele, boa parte dos alunos que abandonam a escola são homossexuais e o fazem motivados pelo medo de serem atacados pelos colegas. “Pesquisas científicas vindas dos mais diversos campos disciplinares mostram que grupos específicos da população são continuamente afastados da escola. Para se ter uma ideia, o Brasil, até 2016, já concentrava 82% da evasão escolar de travestis e transgêneros. E evasão escolar significa fracasso dos agentes do Estado, ou seja, estão falhando em manter esses indivíduos estudando. Falharam escola, o Conselho Tutelar, o Ministério Público e o governo”, argumentou, frisando que professores precisam acolher o aluno, seja ele quem for. “Não importa seu credo, cor ou orientação sexual. A escola precisa ser espaço de acolhimento e não de opressão. Comportamentos homofóbicos vindo de professores apenas aumentam o fosso emocional que tortura esses jovens”.

 

O diretor de Comunicação do Sepe,  contou que a comunidade LGBT já faz parte do cotidiano das salas de aula, principalmente os transgêneros. “A escola não pode fingir que esses indivíduos não existem apenas por serem diferentes do que a maioria entende como normal. Chegamos nas reuniões do GT certos de que esse assunto seria novo para diretores e orientadores, que faríamos projeções para o futuro. Nos enganamos. Ouvimos dos próprios dirigentes relatos da existência de alunos transgêneros frequentando as escolas de Volta Redonda. Detalhe: ninguém sabendo como lidar com eles. Nossas discussões giravam em torno disso: como acolher esse aluno para que seu aprendizado não sofra ou para que ele não abandone a escola, como tem acontecido muito ultimamente”, contou.

 

O aQui procurou pelas escolas de Volta Redonda os casos citados pelo sindicalista. A equipe de reportagem tomou conhecimento de três, bastante emblemáticos. O nome das  escolas de onde partiram os relatos serão preservados. O jornal também vai manter sob sigilo a identidade dos diretores, professores e alunos, pois o discurso conservador de pessoas como Rose Salazar e da maioria dos vereadores que se arvoram a barrar qualquer avanço no que diz respeito à diversidade de gênero lhes impôs uma mordaça e temem sofrer represálias.

 

Na fila das meninas

 O primeiro caso que chamou a atenção do grupo de trabalho foi narrado por uma diretora de escola dos anos iniciais. Ela conta que estuda em sua escola um menino de seis anos. Embora, visualmente, ele apresente características masculinas, seu comportamento é de uma menina. “A mãe faz festa para ele na escola com temas teoricamente femininos, tipo de Frozen. E o que chama mais atenção é o fato dele preferir entrar na fila das meninas”, contou. “Tenho certeza que, em breve, ele vai nos pedir para frequentar o banheiro feminino. E o que faremos?”, completou, questionando.

 

Outro caso que chamou a atenção foi da criança, de uma escola da periferia de Volta Redonda, que espalhou entre os amigos que era o Félix (personagem vivido pelo ator Mateus Solano na novela Amor à Vida). “Ele se comportava feito o personagem. Inclusive era muito parecido. Gostava de ser chamado de Félix. Mas quando passou a sofrer ataques dos colegas, se retraiu e mudou de ideia. Não queria mais que o chamassem assim”, contou sua professora.

 

O terceiro caso aconteceu com uma adolescente de uma outra escola da rede pública. Embora biologicamente mulher, a jovem não se sentia confortável com seu corpo feminino. Nem com seu nome de batismo. Então, resolveu se vestir como homem e mudou de nome. Com medo de ser renegada pela família, se surpreendeu quando a resistência maior veio da escola. “Meus amigos aceitavam normalmente meu novo nome e minha nova aparência. Mas alguns professores e a antiga direção se recusavam a me chamar pelo nome que escolhi. Era constrangedor”, contou.

 

Um professor desta escola lembrou que a adolescente não podia frequentar o banheiro masculino e que a diretora da gestão que se encerrou em 2016 proibia terminantemente que o rapaz trans fosse chamado pelo seu nome social. “Ele tem esse direito. Já existe jurisprudência sobre isso, mas a direção se recusava, lhe negando esse direito”, denunciou.

 

Para o diretor do Sepe, o papel do grupo de trabalho era justamente interferir com sensibilidade em casos do tipo. “Estamos cientes que a escola e os professores ficam perdidos quando são expostos a casos desse tipo. Isso é esperado, pois ninguém foi preparado para essa nova realidade. Também não existe uma receita pronta. Cada caso demanda uma ação diferente. Pais são envolvidos, crenças e o emocional fica em xeque. Se a escola não se atentar, vai marginalizar esse aluno, cumprindo o desserviço. E não é isso que se espera da Educação. Impedir discussões de gênero significa agredir ainda mais essa parcela da população. Tem sangue nas mãos desses conservadores desinformados e mal-intencionados”, disse.

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