Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Quarta-Feira, 20 de Novembro de 2019
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Publicado em 21/10/19, às 10:23

Tiro no pé

 A censura pedida pelo Ministério Público do Estado do Rio, e imposta pelo juiz do Juizado da Infância e Juventude e do Idoso de Volta Redonda ao aQui, obrigando o jornal a retirar das redes sociais uma reportagem sobre uma irregularidade ocorrida no interior da Fundação Beatriz Gama – envolvendo três menores -, acabou sendo um tiro no pé das autoridades envolvidas. É que, a partir da divulgação da censura, condenada por todos, o aQui passou a receber informações sobre outros casos na FBG. Piores do que o que foi publicado na edição 1168 – o da censura.

Um deles é escabroso. Envolve corrupção de menor seguido de sequestro de uma menina de apenas três anos, fatos que teriam ocorrido na primeira semana dejulho e que até hoje – três meses depois – está sem solução, cercados de mistérios. Os dois episódios foram noticiados pelo jornal A Voz da Cidade (8 de julho) e ainda pelo site do jornal Foco Regional (7 e 8 de julho).  

O engraçado é que os jornais nem chegaram a ser importunados pelos promotores do Ministério Público. Nem foram censurados como o aQui, pois as reportagens ainda podem ser lidas nos respectivos sites tanto do A Voz da Cidade quanto do Foco Regional. Nelas, pode-se ler que uma menina de três anos, internada na FBG, onde já estava sua mãe, de 16 anos, ambas não identificadas, teria sido seqüestrada da instituição pelo próprio pai. 

O detalhe é que o homem, não identificado, teria oferecido R$ 100 a um menor de 16 anos para que este retirasse a criança do abrigo da Fundação e lhe entregasse do lado de fora da FBG. O garoto teria feito a sua parte, mas teria ficado sem ver a cor do dinheiro.

Veja a transcrição da notícia veiculada pelo site do A Voz da Cidade no dia 7 de julho com publicação na versão impressa em 8 de julho: “Uma criança de três anos, uma menina, moradora do bairro Nova Primavera, estava na Fundação Beatriz Gama (FBG) desde o dia 29 de junho, após uma ação do Conselho Tutelar. O órgão verificou que a criança estava na rua em companhia da avó, que estava embriagada, por isso foi levada. Dentro da FBG, o pai tentou por duas vezes  tirar a criança do local e não tinha conseguido. Até sexta-feira. A criança foi retirada sem que ninguém percebesse.

Segundo informações ao A VOZ DA CIDADE, por volta das 17 horas, com ajuda de um adolescente de 16 anos que entrou no abrigo, a criança foi levada. O pai aguardava do lado de fora, em um táxi. A falta da criança foi notada, de acordo com informações que chegaram ao jornal, apenas uma hora depois.

A Guarda Municipal foi chamada e os funcionários foram a 93ª Delegacia de Policia efetuar o registro. A Policia Militar foi até a casa do pai no bairro Nova Primavera e ninguém foi encontrado.

A Policia Rodoviária Federal (PRF) foi comunicada para uma ação na Rodovia Presidente Dutra, pois o pai é caminhoneiro.

Desde sábado, a assessoria da prefeitura de Volta Redonda foi procurada para se manifestar, mas até a publicação dessa matéria nenhuma resposta tinha sido dada”, publicou o diário de Barra Mansa.         

Corrupção

A história levantada pelo diário também foi explorada no site do Foco Regional. No dia 7 de julho, a manchete foi a seguinte: “Criança é resgatada da FBG em Volta Redonda” e apresenta, praticamente, os mesmos fatos descritos no A Voz da Cidade. Com uma pequena grande diferença: o menor (de 16 anos) teria retirado a menina do abrigo e a teria levado até ao pai, que o aguardava, em um táxi, na entrada da fundação, no bairro Retiro.  

Desde a notícia veiculada pelos dois jornais, nenhuma outra informação a respeito do paradeiro da menor foi publicada até hoje. Mas, segundo uma fonte do aQui, a realidade dos fatos é um pouco diferente. A começar pela internação da criança. A menina teria sido levada ao abrigo da FBG depois que a avó foi encontrada caída em frente a um bar. A idosa realmente caiu, mas segundo a fonte, desmaiou por problemas de saúde, e não de alcoolismo. “Não estava embriagada. Passou mal, caiu e a criança foi levada para o abrigo da fundação”, detalha.

O pai da criança, inconformado com a internação da menor no abrigo mantido pela prefeitura de Volta Redonda, teria amigavelmente tentado, por duas vezes, retirá-la da FBG, o que não conseguiu. “Ele não queria que a filha ficasse internada”, disse a fonte, lembrando que a mãe da menina esteve internada na entidade, mas, atualmente, está em outro abrigo para menores. 

“Ele foi até lá, ofereceu 100 reais a um menor para que este pegasse a menina e lhe entregasse pela grade que cerca a FBG. Foi fácil sair”, acrescentou a fonte, referindo-se ao caso de corrupção de menores que deveria ter sido apurado pelas autoridades, como o Ministério Público, o Conselho Tutelar, a prefeitura de Volta Redonda etc.

Mistério no ar

Cumprindo papel de apurar a veracidade dos fatos, o aQui procurou a prefeitura de Volta Redonda e o Ministério Público, tanto da capital quanto da cidade do aço. A todos encaminhou e-mails com uma série de perguntas a respeito do caso de sequestro da menina de três anos e também da corrupção do menor, que iria receber R$ 100 para retirar a criança do abrigo da Fundação Beatriz Gama.

A presidência da Fundação Beatriz Gama não chegou a ser procurada pela reportagem, afinal, todas as informações da instituição são centralizadas na secretaria de Comunicação Social do Palácio 17 de Julho, onde tudo é filtrado. A Secom limitou-se a emitir uma nota destacando a ação da instituição. E não disse uma linha a respeito do sequestro e da corrupção.

Veja a nota: “A Fundação Beatriz Gama informa que trabalha com lisura e comprometido nos cuidados e proteção de jovens e crianças em situação de risco social. De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, em seu artigo 100 – V consta que: Privacidade: a promoção dos direitos e proteção da criança e do adolescente deve ser efetuada no respeito pela intimidade, direito à imagem e reserva da sua vida privada; (Incluído pela Lei n 12.010, de 2009)”.

Quanto ao Ministério Público, que foi ‘eficiente’ em pedir censura ao noticiário do aQui, por e-mail o órgão limitou-se a dizer que somente a assessoria de imprensa do MP no Rio de Janeiro é que poderia dizer alguma coisa. Não disse, é claro. Ou melhor, disse: pediu à reportagem que informasse alguns detalhes do processo do sequestro e da corrupção. “Houve um inquérito policial? Qual a delegacia apurou o caso? Precisamos de um número de inquérito para pesquisar”, respondeu uma das jornalistas do MP do Rio de Janeiro.

 Já o MP local, também procurado pelo aQui, que encaminhou as mesmas perguntas feitas ao MP central, saiu pela tangente. “Sirvo-me do presente para informar que todas as solicitações da imprensa são respondidas pela Assessoria de Imprensa do Ministério Publico, devendo qualquer solicitação ser encaminhada para o referido órgão cujo e-mail é codcom@mprj.mp.br”, respondeu as Promotorias de Justiça da Infância e Juventude.

As perguntas, é claro, foram encaminhadas à Coordenadoria de Comunicação Social do Ministério Público, que já tinha informado que só poderia dizer alguma coisa se tivesse o número do inquérito policial.

Censura ao aQui

Lamentavelmente o Ministério Público, em vez de garantir o direito de resposta a quem se sinta atingido, usa o direito das trevas para censurar o jornal aQui, contribuindo para desinformar os leitores dos fatos. Sem democracia não existe liberdade de imprensa, e sem liberdade de opinar e informar, não existe democracia. Volta Redonda não é mais Área de Segurança Nacional, onde as decisões eram impostas a ferro e fogo. A sociedade tem que avançar no debate de ideias. A imprensa livre é fundamental neste processo de construção do pensamento crítico.
José Afonso Gonçalves

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