Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Sexta-Feira, 14 de Dezembro de 2018
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Publicado em 03/12/18, às 09:45

Só se Deus quiser

Por Vinícius de Oliveira

Quem mora em Barra Mansa sabe bem: é um lugar onde acontecem coisas que até Deus duvida. Enquanto o prefeito Rodrigo Drable se esforça para cumprir os compromissos com os fornecedores (por ele, apenas do seu período) e manter em dia o salário dos servidores, o que não está conseguindo, a população entrou em um embate histórico por conta de uma obra que a Mitra Diocesana de Volta Redonda-Barra do Piraí quer executar no interior da tradicional Matriz de São Sebastião, no Centro. A ideia dos religiosos é simplesmente jogar no chão o mosaico (ver foto) que enfeita o suntuoso altar da igreja católica e construir um novo, bem mais simples. O problema é que boa parte dos fiéis se revoltou com a proposta, gerando uma polêmica de proporções inimagináveis, indo parar em jornais de grande circulação, como O Dia.

 

Os barramansenses ficaram tão desgostosos com a notícia que já classificam o fato como uma ‘guerra santa’. De um lado da ‘cruzada’, religiosos leigos, carolas e até os católicos que frequentam as missas apenas em dias santos se posicionaram contra a reforma – já iniciada – pelo pároco local Milan Knezovic. Um dos argumentos defendidos pelos contrários à obra é que o mosaico em questão enfeita a igreja há mais de um século, se não forem consideradas as pequenas reformas pelas quais já passou ao longo dos anos. “Atualmente não participo de nenhuma comunidade, mas já participei. Sob esse mosaico lindo que representa a Santíssima Trindade, meus pais se casaram, eu fui batizada e fui crismada. O altar passou, sim, por mudanças ao longo do tempo, mas nada que tirasse a sua essência”, avalia Bruna Chaves, jovem católica.

 

“Não dá pra acreditar nessa desfiguração que a igreja começou a passar nessa semana. Sexta eu senti uma vontade tão grande de ir contemplar o altar com seu desenho lindo, mas não consegui”, reclamou Bruna. “Eles querem acabar com tudo que leva as pessoas a se interiorizar e meditar. O que interessa agora é a enculturação, diga-se de passagem, às avessas. Não estão nem aí para a verdadeira evangelização”, completou outra internauta, indignada. Elas não foram as únicas. Teve quem chegou a questionar a lisura das intenções da Diocese. “Ver quem vai ganhar dinheiro com isto. Será que não é para por dinheiro no bolço de alguém? Claro e pegar uma porcentagem”, postou um internauta, usando um estilo próprio ao escrever sem se preocupar com as regras do bom português.

 

Até padres que já passaram pela matriz se posicionaram de forma contrária e fizeram declarações duras a respeito da reforma, cujas obras foram iniciadas e já pararam, diante da repercussão negativa do assunto nas redes sociais.  Foi o caso do Padre Renê Luiz, antecessor de Milan, hoje em uma igreja do bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. “Como cidadão brasileiro, filho destas terras, confrade que trabalhou na Paróquia de São Sebastião de Barra Mansa, católico apostólico e romano, tenho algo a dizer quanto à intervenção no painel da Igreja Matriz de São Sebastião de Barra Mansa. A presença verbita no sul do estado do Rio de Janeiro quase que na sua totalidade se sintetiza e se confunde com a história da Matriz de São Sebastião de Barra Mansa. O painel da Matriz de São Sebastião muito corresponde com a Teologia Cristocentrica do Concílio Vaticano II e mais, à teologia da Trindade, centro da espiritualidade verbita”, argumentou.

 

Ainda de acordo com o religioso, uma reforma feita em 1970 já contemplou as necessidades da igreja. “A reforma da Igreja Matriz de São Sebastião de Barra Mansa nos idos dos anos de 1970 está condizente com as orientações do Concílio Vaticano II e, muito mais, corresponde a uma era de modernização e de urbanização da região sul fluminense onde a Matriz está inserida”, contou, lembrando que no ano 2000 o painel fora restaurado. “No início dos anos 2000, padre Norberto e eu trabalhamos arduamente para restaurar o painel sacro da Igreja Matriz de São Sebastião que estava caindo. Foi um trabalho que envolveu toda a cidade. Todo ele foi devidamente retirado e catalogado, limpo, quase que refeita peça por peça de azulejo. Refizemos o emboço dos fundos sobre a parede primitiva da Igreja Matriz. Devolvemos na íntegra o painel como está hoje”, completou o padre.

 

Para Renê, mudar o mosaico, sobretudo de forma unilateral, sem um debate amplo com a comunidade, significa um desrespeito à religiosidade e dá mostras de arrogância. “Preservar este patrimônio é o nosso respeito e consideração com o povo de Barra Mansa, com a nação Brasileira, com o patrimônio religioso e histórico de Barra Mansa. Esconder tudo isso por detrás de uma obra de pintura sobre metal, com um espaço de 1, 50 metros de distância do antigo painel, é no mínimo mal gosto e ignorância artística, para não falar dos caprichos pessoais”, alfinetou, indo além. “Mesmo estando de longe, penso que uma intervenção como esta deveria ser devidamente avaliada por pessoas especialistas nas áreas envolvidas bem como ser considerado o sentimento do povo. Este tipo de intervenção não diz respeito a nenhuma intervenção de reforma ou de restauração. É a interposição de algo sobre o que já é valor, algo que tem sentido e significado social e cultural pela população”, finalizou Renê.

 

Quem também se manifestou criticamente a respeito foi o padre Nilton Guimarães Gonçalves, ex-pároco da matriz, atualmente na Diocese de Belo Horizonte. À imprensa, ele disse que o motivo para a reforma seria um devaneio do atual religioso responsável pelo templo, que estaria convicto de que o painel tem influência maçônica. “O pároco atual tem a psicótica ideia de que o painel é de inspiração maçônica. Incomodam-no o triângulo e os raios que dele emanam. O triângulo é símbolo da Trindade, com seus raios a iluminar a criação e a humanidade, no centro do qual está o Cristo Crucificado. Deveriam fazer curso de arte religiosa”, ironizou Nilton.

 

Também há críticas pelo fato de que a Igreja gastaria dinheiro numa obra considerada desnecessária enquanto existe um considerável número de pessoas passando fome em Barra Mansa. Mesmo sob esses pretextos, o outro lado da tal ‘guerra santa’ permanece em voto de silêncio, como bem sabem fazer as freiras carmelitas. Diante da polêmica gigante, a Diocese enviou, a princípio, uma nota minúscula que não condiz com o tamanho da preocupação de seus fiéis.

 

A nota, rasa, da Igreja não diz se a opinião dos frequentadores da matriz será levada em consideração, não trata do motivo oficial pelo qual  decidiram pela obra e não apresenta, muito menos, um orçamento. Afirma apenas que a “Diocese de Barra do Piraí – Volta Redonda acompanha o caso por meio do setor de Patrimônio Histórico e Elementos Artísticos e se reunirá com os responsáveis pelo projeto”.

 

Como os questionamentos não pararam, na quarta, 28, a Diocese enviou à imprensa uma nova nota esclarecendo que a reforma não seria para atender os caprichos do pároco Milan e jura que o projeto chegou a ser discutido com a comunidade. “Diante de informações divulgadas sobre a proposta de adequação do espaço litúrgico do altar da Matriz de São Sebastião, em Barra Mansa, a Diocese de Barra do Piraí – Volta Redonda esclarece o que segue: Não há qualquer intenção de demolir o atual painel que está na parede dos fundos do altar, construído na última grande reforma, entre 1956 e 1960”, disse.

 

A nota afirma ainda que “a decisão de adaptação do presbitério e altar do templo foi tomada com a participação da comunidade em reuniões do conselho pastoral da paróquia, ocorridas nos meses de setembro e outubro e votada com ampla e favorável aprovação na assembleia paroquial realizada em novembro, contando com a participação de representantes de todas as comunidades da paróquia. A mudança foi proposta para atender às exigências da Lei de Acessibilidade n. 10.098 de 19/12/2000 e para ampliar a comunicação do espaço litúrgico, aproximando os celebrantes do povo, de acordo com as orientações do Concílio Vaticano II. Parte da obra foi iniciada nesta semana”.

 

Por fim, a nota garante que o projeto está sendo avaliado pelos órgãos responsáveis. “A segunda fase do projeto, que prevê a colocação dos novos painéis, ainda está em estudo para ser aprovada pelas competentes instâncias do governo municipal e da Comissão de Arte litúrgica da Diocese, sempre preservando o antigo painel”, garantem os religiosos da Cúria.

 

Só que, de acordo com o advogado Ricardo Maciel, a Cúria não poderá tocar no mosaico, já que a Matriz São Sebastião está entre os 50 imóveis pertencentes à Diocese tombados como patrimônios culturais e históricos. “Ninguém perguntou aos milhares de fiéis que amam São Sebastião, a Matriz e o seu belo altar, o que achavam da reforma e, principalmente, do horrorendo projeto. Também não perguntaram se pode. Não. Não pode! A matriz é patrimônio histórico e artístico municipal, por lei”, asseverou Ricardo, comentando que a construção do atual mural só foi possível graças ao empenho da própria comunidade. “Meu avô e meu pai sempre me disseram que os azulejos foram doados por centenas de pessoas, numa campanha da diocese, na última reforma. Então, há um terrível desrespeito aos fiéis descontentes com o ato unilateral, à lei e à memória de centenas de doadores que contribuíram para a grandeza de nossa matriz”.

 

Pressionado pelas críticas, o padre Milan chegou a sugerir via WhatsApp, piorando ainda mais a contenda, que o painel pode até ser preservado, mas que a diocese pretende manter a ideia de se construir um novo, em “conceito mais moderno”, na frente do atual. E, na tentativa de acalmar a fúria dos fiéis, poderiam deixar uma passarela, de 1,50m, para quem quiser continuar contemplando o mosaico da discórdia.

 

A Prefeitura de Barra Mansa também emitiu nota informando que o pároco Milan se encontrou com o presidente da Fundação Municipal de Cultura, Marcelo Bravo, que lhe prestou alguns esclarecimentos. “Padre Milan já tinha sido orientado quanto à legislação no dia 11”, garante o texto. Pela Lei 4.492/2015 (do então vereador Marcelo Cabeleireiro, eleito deputado estadual pelo DC), que tombou a matriz como Patrimônio Municipal Histórico e Cultural, qualquer intervenção “deve passar pelo Conselho de Cultura, que se reunirá para tratar do assunto”, declarou a prefeitura, sem conseguir ficar isenta por muito tempo.

 

Na verdade, como bem sabem os barramansenses, a prefeitura costuma escolher não ficar isenta quando o assunto envolve o Sagrado. Para quem não se lembra, o próprio governo Rodrigo Drable já se envolveu em uma polêmica usando o nome de Deus, quando o secretário de Educação, o maestro Vantoil de Souza Júnior, através de uma circular emitida em outubro de 2017, quis obrigar os professores da rede e os alunos a entoarem a oração ao Pai Nosso nas escolas, antes de entrarem para a sala de aula, sob risco de represálias. Vantoil acabou tendo que responder na Justiça, já que sua determinação feria a laicidade do Estado. Diante disso, teve que voltar atrás na decisão.

 

No caso da obra na Matriz, para resolver a questão o caminho mais viável seria através de meios terrenos. Em outras palavras, nessa altura do campeonato, ou a Cúria Diocesana abre um amplo debate com a comunidade de católicos frequentadores da matriz ou só um milagre divino poderá pôr fim à polêmica. Vale citar que os fiéis estão determinados. Prova disso é que organizaram, pela internet, uma petição pública a fim de reunir o maior número possível de assinaturas para barrar o projeto da Diocese. http://bit.ly/2RmKjm2

 

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