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Sábado, 25 de Novembro de 2017
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Publicado em 13/11/17, às 08:39

Seria cômico…

hidrometro

Roberto Marinho

Um morador do Jardim Tiradentes está muito bravo com o Saae-VR. Não é para menos: a autarquia exige que ele – que reside no bairro e na mesma rua há mais de 30 anos – simplesmente mude o hidrômetro de lugar para se adequar ao padrão do órgão. E não faz por menos: ameaça cortar a água se o serviço não for feito, mesmo que a conta de água esteja em dia.

A questão é que qualquer mudança, por menor que seja, exige obras, que demandam dinheiro, que vai sair pelo ralo (bolso) do proprietário do imóvel. Além disso, os critérios utilizados para definir quem deve ou não mudar o hidrômetro de lugar não estão claros. No Jardim Tiradentes, por exemplo, só este morador recebeu a notificação na rua em que mora. E no bairro vizinho, Casa de Pedra, moradores de uma rua inteira tiveram que fazer a mudança, enquanto nas imediações ninguém foi incomodado.

O ‘sortudo’ que recebeu a notificação no Jardim Tiradentes desconfia da boa vontade – pra não dizer o contrário – da funcionária que faz a leitura do hidrômetro. Segundo ele, que preferiu não se identificar, ela reclamou que a mangueira de jardim enrolada próximo ao hidrômetro estaria dificultando a leitura de consumo no equipamento. “A questão é que moro aqui há mais de 30 anos e nunca fui notificado pelo Saae. Essa funcionária – que é nova por aqui – veio fazer a leitura e disse que a mangueira estava atrapalhando. Engraçado é que nunca atrapalhou antes. A mangueira continua no mesmo lugar de sempre. E eu abri o portão para ela, que, inclusive, é muito seca no trato com as pessoas. Abri, ela entrou na minha casa e a leitura foi feita normalmente”, relata. “O hidrômetro é totalmente visível da rua, nem precisava eu ter aberto o portão”, acrescenta.

Já aposentado (era da CSN), o morador reconhece que em algumas casas vizinhas da sua não é fácil para o leiturista do Saae ver os números de consumo no hidrômetro pelo lado de fora; que é preciso chamar o morador. Mas, nem por isso os seus vizinhos receberam qualquer notificação do Saae. “Nenhuma casa das vizinhanças segue o padrão do Saae-VR, simplesmente porque esse padrão não existia quando esses imóveis foram construídos. Agora estão exigindo que a gente mude, sem dizer qual critério usam. E porque só eu na minha rua? É a funcionária do Saae-VR que decide isso?”, argumenta, cheio de dúvidas.

A única certeza é que a mudança não vai sair barata, fora os transtornos. “Entre material e mão de obra, vou gastar pelo menos R$ 1 mil. Vou ter que cortar o piso da garagem, mexer no jardim, talvez mexer na grade. Não é coisa simples. Fora o gasto com o hidrômetro novo (em torno de R$ 80) e a taxa de instalação cobrada pelo Saae-VR”, diz o morador, ainda pasmo com a própria ‘sorte’. ‘Eles que mudem o hidrômetro’, disparou.

Pirraça?
A julgar pela justificativa da direção do Saae-VR, o morador pode se considerar mesmo um ‘privilegiado’. De acordo com José Márcio Campos, diretor comercial da empresa, a mudança de hidrômetro só é solicitada em “casos excepcionais”: quando a leitura não pode ser realizada por falta de acesso ou visibilidade do equipamento (como um muro, por exemplo) ou quando é necessário chamar o morador para permitir o acesso do leiturista todas as vezes que é necessário fazer a medição. É ainda, diz ele, uma medida de segurança para os moradores, uma vez que já foram registrados assaltos com bandidos usando o uniforme do Saae-VR.

“A gente só notifica as pessoas para mudar o local do hidrômetro quando não estamos conseguindo fazer a leitura ou por questão de segurança para os moradores. Alguns lugares às vezes são fechados, mas o morador sabe o dia da leitura e abre o portão, então o Saae tem acesso. Agora, tem gente que não tem acesso, nunca fica ninguém em casa, aí ficam muitos meses sem a leitura. Quando medimos, vem uma conta muito alta, porque o Saae é obrigado a cobrar a média de consumo”, argumenta José Márcio, completando: “Então, basicamente, a gente só notifica os casos muito extremos”.

Este não parece ser o caso do morador em questão. É que José Márcio afirma que desde junho não estão sendo feitas mais essas notificações, principalmente porque o órgão não tem pessoal suficiente para fazer as mudanças de hidrômetro. “Estávamos com uma demanda muito grande de vazamentos, então tivemos que fazer uma força tarefa para estes casos. Por isso não estávamos fazendo notificação de mudança de local, só estávamos fazendo a pedido do usuário (no caso do hidrômetro atrapalhar a saída da garagem, por exemplo)”, diz, garantindo que não foi ‘pirraça’ do leiturista que atua no Jardim Tiradentes. “Não foi não”, crê.
Para completar a maré de sorte do usuário, basta dizer ainda que o Saae estima que das 90 mil ligações de água existentes em Volta Redonda, 15 mil precisam que o hidrômetro seja mudado de local. “Só que isso tem que ser feito a longo prazo”, pontua José Márcio.

Sem ‘jeitinho’
Mas nem tudo são más notícias: José Márcio esclareceu que o morador que se sentir prejudicado com a notificação para que mude o local do hidrômetro pode ir diretamente ao Saae e procurar o setor de Atendimento ao Público. Tem mais. Não precisa nem de ‘padrinho’ ou ‘jeitinho’. “Se o morador não conseguir resolver no Atendimento, pode pedir para falar com o chefe de divisão. Não precisa vir acompanhado de ninguém, não. Vamos atendê-lo, daremos prazo, vamos orientá-lo”, garante José Márcio. “O hidrômetro sai por conta do Saae-VR caso ele precise ser trocado, se estiver ruim. Porque quando o morador fez a ligação, ele adquiriu o hidrômetro. Então o Saae hoje é o responsável pela manutenção. Se der defeito, colocamos outro de graça. O único custo (da mudança de local) é a obra civil”, frisa.

aumento de consumo
Embora o Saae não cobre a troca dos hidrômetros velhos ou com defeito, José Márcio confirma as suspeitas de muitos consumidores: de que os novos equipamentos ‘aumentam’ o consumo de água. Motivo: eles seriam mais precisos na leitura e o consumo aumenta. “A maioria dos hidrômetros marca a menos. E vai caindo (a aferição do consumo) ao longo do tempo, então quando você troca, ele geralmente é mais preciso e a conta vem mais alta”, explica.
José Márcio garante que os novos hidrômetros detectam vazamentos na rede interna da casa com mais facilidade. “Antigamente, uma torneira que pingava ele (hidrômetro) não marcava, hoje marca. Passou uma gota, ele marca, pois é mais sensível”, alerta, lembrando que o consumidor pode procurar o Saae. “Se a pessoa tiver alguma dúvida nós temos uma banca de aferição, que faz a medição na presença da pessoa, para ela ver o critério”, diz.
José Márcio vai além. “Para se ter uma ideia, quando tem um vazamento na casa de um usuário – uma descarga vazando, por exemplo – e ele não detecta, mas nós detectamos, não cobramos o valor real da conta, cobramos a média antes do vazamento. Se ficou, por exemplo, três meses vazando, no primeiro mês cobramos uma média; no segundo, uma média e meia; e no terceiro mês duas médias. O Saae arca com esse prejuízo sempre, para não penalizar o usuário”, argumenta.

“Propriedade é troca de redes”
O diretor executivo do Saae, José Geraldo Santos, o Zeca, também participou da entrevista com José Márcio. Falou pouco, mas disse que sua preocupação é com as redes velhas de água e esgoto, que arrebentam pela cidade, mobilizando parte da mão de obra do órgão. “Nossa maior preocupação, que exige investimentos, é a substituição de redes. Não temos caixa para fazer isso, mas existem projetos para conseguirmos recursos que estamos pleiteando junto ao Governo Federal, junto à Agevap”, afirma.
A falta de recursos não impede, afirma, que obras prioritárias sejam feitas. “Temos a possibilidade de fazer alguma coisa com recurso próprio, tanto é que iniciamos uma obra em Três Poços e vamos iniciar no Açude. Desde junho, muitas obras estão em processo de execução”, aponta Zeca, completando que a obra de Três Poços tem prazo previsto de entrega em janeiro.
Outra situação é a possibilidade de uma nova crise hídrica – nos moldes de 2014 – já que os reservatórios do Sudeste estão com um nível muito baixo de água. “A situação não está como na última crise hídrica, mas é preocupante. Inclusive já estamos elaborando uma campanha para o consumo consciente de água. Em breve estaremos lançando nas mídias, para orientar a população”, afirma, pontuando que desde a última crise, a atitude da população em relação ao consumo de água parece ter mudado.
“Na verdade o consumo já vem caindo, por causa da conscientização. Do pico da crise hídrica para cá, houve uma diminuição de consumo. Antigamente o cálculo era de 200 litros por pessoa, por dia. Hoje é de 150, e não é pelo preço, porque a água do Saae-VR é uma das mais baratas da região”, diz Zeca, aproveitando para fazer uma propaganda da autarquia.

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