Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Segunda-Feira, 20 de Maio de 2019
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Publicado em 18/02/19, às 08:41

Se correr…

Por Luiz Vieira

A morte de 10 meninos no Ninho do Urubu, um deles de Volta Redonda, chocou a todos. O prefeito Samuca Silva e o governador Wilson Witzel foram até ao enterro de Arthur Vinicius, um dos que morreram queimados no ‘alojamento’ do Centro de Treinamento do Flamengo. A partir da tragédia, todos passaram a cobrar a punição dos responsáveis, assim como dos dirigentes e técnicos da Vale, que nada teriam feito para evitar o caso de Brumadinho, onde cerca de 200 pessoas morreram soterradas.

 

Agora, imaginem a seguinte cena: 1.500 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, tentando fugir de um incêndio de grandes proporções no Cine 9 de Abril, localizado no coração da Vila Santa Cecília. Não dá nem para imaginar, não é? Só que as autoridades deveriam, sim, atentar para o risco de uma tragédia dessa proporção. Afinal, o cinema – um dos maiores do Sul Fluminense, com capacidade para 1.500 pessoas sentadas – tem uma saída de emergência fechada há mais de cinco anos. Seria um Deus nos acuda em caso de incêndio. O número de mortos e feridos seria igual ao de um Tsunami. 

 

O Cine 9 de Abril, que é tombado pelo patrimônio histórico municipal, até que conta com mais três portas de emergência. Uma ao lado da entrada principal e as outras duas com saída pela Rua 23-B, a Praça do Memorial Zumbi, onde fica a Biblioteca Municipal. A saída, que vive cercada, só podia ser usada enquanto o imóvel pertencia à CSN estatal. Perdeu utilidade quando o cinema passou às mãos do Clube dos Funcionários. Depois, sabe-se lá com autorização de quem, esta saída de emergência passou a ser decorativa. A porta, inclusive, vive trancada, como o aQui denunciou na edição de nº 828, de 2 de fevereiro de 2013, há cinco anos (ver reprodução). Por ali ninguém escapa em caso de incêndio, não importa o tamanho. 

 

Para piorar, a porta que deveria servir de fuga em casos de emergência dá para um beco entre o cinema e a sede do Clube dos Funcionários, frequentado pela classe média de Volta Redonda. A área era pública nos tempos da CSN estatal, mas hoje serve de estacionamento para carros, depósito de materiais de construção e até lixeira do clube. Nas duas extremidades foram colocadas grades, e elas vivem trancadas. 

 

A fuga quase impossível de quem estiver no cinema em dias de grandes eventos, atrações e formaturas, entre outras, já foi denunciada pelo aQui. Até hoje nada aconteceu, mas poderia. A visita do hoje presidente Jair Bolsonaro a Volta Redonda (21 de agosto de 2017), com direito a palestra no Cine 9 de Abril é um bom exemplo. Ele, como era de se esperar, passou por maus momentos (bons, para ele) quando todas as 1500 cadeiras do cinema foram ocupadas por jovens bolsonaristas. ‘Deu lotação máxima’, diriam. Além de 1500 pessoas sentadas, Bolsonaro atraiu mais umas 200 pessoas que assistiram, de pé ou sentadas no chão, sua palestra na cidade do aço. Como já cultivava inimigos, um deles, maluco, com certeza, poderia pôr fogo no cinema, matando milhares de fãs.  

 

Que Bolsonaro, Witzel e Samuca, entre outros, pensem no improvável. Não acreditem que o Cine 9 de Abril nunca vai pegar fogo. Que cobrem dos responsáveis pela fiscalização – ou falta dela – uma ação mais contundente para evitar os riscos de uma tragédia anunciada. E que o façam rápido, pois em 2019 o mar não está para peixe.

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