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Terça-Feira, 17 de Outubro de 2017
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Publicado em 31/07/17, às 08:32

Saindo do ‘ponto morto’

Nissan

Pollyanna Xavier

O setor automotivo da região das Agulhas Negras voltou a acelerar. Depois de um período de quase dois anos de estagnação, com demissões, redução de salários e jornada de trabalho e produções em baixa, as montadoras de Resende e Porto Real estão deixando pra trás a recessão e investindo alto em seus parques. É o caso da Nissan, que – impulsionada pelo lançamento do modelo Kicks – implantou mais um turno de trabalho na fábrica de Resende e contratou 600 trabalhadores. “Voltei ao mercado de trabalho depois de um longo período desempregada”, comemorou Thais Abreu, recém contratada da montadora.

 

Thaís é moradora de Porto Real e assim como ela, dezenas de trabalhadores da cidade também conseguiram uma colocação na indústria automotiva. “Já dá pra pensar em casar”, brincou Thaís, noiva de Ricardo, funcionário do consórcio modular da MAN. Na época da crise, Ricardo foi colocado em lay-off por cinco meses e, quando retornou ao trabalho, teve o salário e a jornada reduzidos. “No período da jornada reduzida, o Ricardo trabalhava de segunda a quinta. Agora, com a volta do turno normal, ele já tem alguns sábados programados para trabalhar até o final do ano”, contou.

 

O retorno da jornada na MAN e nas empresas que formam o Consórcio Modular é real. No último dia 10 de julho, a montadora de caminhões e ônibus suspendeu a redução de 20% nos salários e de 10% na jornada dos 3.500 funcionários, que vigorava desde fevereiro de 2015. Desde então, os operários estão trabalhando de segunda a sexta, com escalas programadas aos sábados. O retorno da normalidade do turno vai ampliar em até 25% a produção – o que já é suficiente para ajustá-la ao mercado.  

 

Entre 2015 e 2016, a indústria automotiva foi fortemente atingida pela crise. Em 2011, a MAN, por exemplo, operou perto do limite da capacidade de 100 mil veículos, com pouco mais de 83 mil unidades produzidas. Em 2016, este número caiu drasticamente para 19.550 unidades. Para este ano, a expectativa é voltar a crescer e alcançar pelo menos a produção de 50 mil unidades. E o retorno deste crescimento virá, especialmente, das exportações, que subiram 34% com alta de 30%.

 

No caso da Nissan, a implantação do segundo turno na fábrica ajudou a impulsionar a economia da região e diminuir os índices de desemprego. Ao aQui, Thais contou que, em novembro do ano passado – quando já estava há quase um ano desempregada – resolveu se inscrever no processo seletivo da Nissan. Mesmo sem experiência no setor industrial – até então ela só havia trabalhado em comércio –, fez a inscrição e foi chamada para a primeira etapa. “Eu fiz um psicotécnico, uma entrevista com o gestor e cheguei a fazer uma prova. Foi um processo bem longo e eu acabei desanimando porque disseram que a empresa não ia implantar o segundo turno. Só em maio deste ano é que me ligaram, perguntando se eu queria continuar o processo. Não pensei duas vezes”, lembra.

 

Thaís trabalha na linha de produção do Kicks – novo modelo responsável pela criação do segundo turno na Nissan. Com o lançamento deste carro, a montadora espera ampliar a produção dos modelos March e Versa, dobrando a capacidade instalada da fábrica para quase 130 mil veículos/ano. Hoje ela produz algo em torno de 50 mil veículos, mas a meta é alcançar 80 mil até dezembro de 2017.

Benefícios

A remuneração média para novos contratados da Nissan – para a linha de produção – é de R$ 1.200,00 de salário, acrescidos de benefícios como cartão-alimentação no valor de R$ 350,00; cartão-farmácia (com desconto em folha); plano de saúde; plano odontológico; ônibus fretado pela empresa e alimentação dentro da empresa. “Voltar ao mercado de trabalho em uma empresa como a Nissan é muito bom. A possibilidade de crescimento é real e eu quero estudar e me capacitar ao máximo para crescer lá dentro. Eu não sei até onde minha capacidade pode me levar, mas eu vou tentar”, comentou Taís.  

Peugeot

A montadora francesa de Porto Real também tirou o pé do freio e vem acelerando aos poucos. Para atender as exportações, que subiram 59% de janeiro a julho deste ano, a PSA elevou a produção em 24%. Pra se ter uma ideia do volume de produção da Peugeot, a montadora chegou a produzir 140 mil veículos em 2010; diminuiu para 67 mil em 2015; alcançou 82.500 carros em 2016 e a previsão é de encerrar 2017 com 90 mil unidades produzidas.

 

Para alcançar a meta, os trabalhadores podem ter que fazer horas extras, já que a Peugeot não pretende fazer novas contratações até o final do ano, muito menos implantar um terceiro turno em sua fábrica. Em nota ao aQui, a empresa disse que “em curto prazo, não há previsão de contratação, pois já está com o efetivo ajustado à necessidade de produção (…) Também vamos continuar, no momento, com dois turnos”, informou.

 

Ainda de acordo com a nota, a Peugeot negou que tenha iniciado um novo ciclo de investimentos na fábrica de Porto Real, no valor de R$ 1,5 bilhão – conforme noticiado pela grande imprensa – e que não há qualquer projeto de ampliação do parque industrial da montadora na região. “O Grupo PSA não fez nenhum anúncio recente de ciclo de investimentos. (…) A previsão de produção de veículos para 2017 é acima de 90 mil unidades”, comentou a empresa, negando aumento de efetivo para alcançar a previsão.  

Nota da redação

 O aQui entrou em contato com a assessoria de imprensa da MAN e da Nissan, para falarem sobre o processo de contratação de novos funcionários, mas até o fechamento desta edição, as empresas não deram retorno.

 

O que diz o Sindicato?

Silvio Campos, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, é comedido ao falar sobre a ‘retomada do crescimento’. Para o líder sindical, a economia ainda não está recuperada e o que está acontecendo nas montadoras é um pequeno reflexo da queda da inflação. Suas opiniões não chegam a ser pessimistas, mas têm uma dose cavalar de cautela. “Temos que tomar muito cuidado para não criarmos uma falsa expectativa, igual ao que o governo está criando, de que há uma retomada de crescimento no país”, pontuou.

 

 Para Silvio, a retomada do crescimento só vai acontecer “quando o governo voltar a liberar as verbas de investimentos que ele está segurando e não libera pra ninguém (BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica, Banco Central e outros)”. O que está acontecendo, segundo Silvio, “são resultados pífios, como uma queda de inflação mantida por uma diminuição das vendas (…) as contratações que estão sendo feitas ainda são muito tímidas e por prazo determinado. Elas vão atender a uma demanda específica e, caso o mercado volte a crescer, poderão ser efetivadas e ampliadas”, opinou.

 

Ainda sobre as novas contratações da Nissan e mudanças na jornada da MAN, Silvio diz que elas estão ligadas às situações atípicas. “As contratações na MAN serão feitas para cumprir os prazos de demandas específicas e temporárias. Já o caso das montadoras Nissan e PSA é para atender as demandas do mercado externo, que, aliás, é o que vem sustentando a maioria das montadoras no Brasil. Nós do sindicato comemoramos toda contratação feita na nossa base, assim como também, nesses últimos anos, as iniciativas do governo que desestimularam demissões ou ajudaram os trabalhadores demitidos”, disse.   

Otimista, Silvio Campos espera pelo dia em que vai poder comemorar, de fato, a retomada do crescimento industrial na região e as contratações “permanentes” nas montadoras e demais empresas de base do Sindicato. “Nós, sindicalistas, adoraríamos dar, em primeira mão, uma notícia como essa e temos certeza que ainda o faremos, afinal, todos nós estamos nessa expectativa”,  

Reforma trabalhista

Na última edição do aQui, Silvio Campos falou sobre o esforço  que os sindicatos terão que fazer para sobreviver à nova reforma trabalhista. O fato é que, com o efetivo das montadoras subindo e o fim da obrigatoriedade do imposto sindical, Silvio prefere apostar que o Sindicato ainda “é um escudo protetor para os trabalhadores”. E, como tal, ele diz que vai continuar lutando para defender os direitos dos operários, independente do que for. “Somos um escudo de proteção coletivo contra a submissão, a subordinação e o poder do empregador. Essa reforma é uma ‘má intenção’ por parte do governo para afastar o trabalhador do sindicato, que, como já dissemos, é quem luta para garantir todos os acordos, direitos, benefícios e convenções coletivas negociadas com o patrão”, destacou.

 

Silvio foi além. Disse que mesmo com a reforma, “o sindicato tem dado assistência a alguns processos de primarização de mão de obra em empresas terceirizadas na CSN, garantindo melhores salários, mais benefícios e condições de trabalho”. Para ele, o “tiro saiu pela culatra”. “O sindicato nunca será tão valorizado depois dessa reforma, quando os trabalhadores perceberem o quanto estarão desprotegidos sem o seu sindicato”, concluiu. Faz sentido!

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