Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
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Publicado em 25/09/17, às 09:07

Recomeço mancando

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Roberto Marinho

A matéria sobre a Escola de Hipismo e o estado precário dos animais que viviam sem comida, veiculada com exclusividade pelo aQui, repercutiu no Palácio 17 de Julho. E o prefeito Samuca, depois de negar as irregularidades, anunciou o retorno das atividades do projeto para a próxima segunda, 25. Seria uma notícia para se comemorar, mas não é bem assim. Para começar, a equipe de saltos da escolinha, que representou Volta Redonda até em competições internacionais, morreu. Se não morreu, está no CTI do Hospital São João Batista.

 

É que nenhum dos participantes da equipe – ou seus responsáveis – foi avisado do retorno das atividades da Escola Municipal de Hipismo. Tem mais. Os alunos de 15 a 17 anos – os mais experientes – estão sendo substituídos por alunos de 8 a 14 anos. Como a formação dos atletas é a longo prazo – geralmente só começam a competir após dois anos de treinos –, a saída dos mais velhos significa, na prática, jogar tudo o que foi feito por terra. 

 

Essa é a opinião de quem entende do assunto. De Madson de Freitas Neto, que participou da Escola Municipal de Hipismo e representou Volta Redonda em diversas competições. Atualmente, ele trabalha como instrutor de hipismo em um haras em Teresópolis. “Antigamente, para iniciar as aulas, os alunos tinham que ter entre 8 e 14 anos porque o hipismo é um esporte de longo prazo. A pessoa que começa a montar hoje só vai começar a saltar e participar de provas daqui a dois anos. Por isso, quem passava dos 14 anos, mas fazia parte da equipe (em Volta Redonda), ficava competindo e continuava na escola. Nessa volta do projeto, eles (prefeitura) estão tirando esses alunos que foram os que mais batalharam para a escola voltar”, compara. 

 

As reclamações, aliás, não partiram apenas de Madson – que procurou o jornal logo após ler (no site) a notícia da falta de comida para os cavalos. Pais de alunos que integravam a equipe de competições da Escola Municipal também não gostaram do que leram. Uma delas é Maura Serra, mãe de Júlia – duas vezes campeã estadual pela escolinha e que já saiu do projeto por ter completado 18 anos – e Érica, que com 15 anos, é uma das promessas do hipismo de Volta Redonda.

 

“Ninguém foi avisado de nada”, dispara Maura, que completa: “A Escola Municipal de Hipismo de Volta Redonda é a primeira e única no Brasil. A gente não podia deixar isso acabar. É um trabalho muito bonito, que divulga o nome da cidade. Aqui em casa eu tenho inúmeros troféus que as meninas ganharam em competições por todo lugar”, ressaltou, lembrando, como Madson, que a formação da equipe é um trabalho de longo prazo.

 

“Eles entram com 8 anos, não sabem montar, muitos têm medo. É todo um trabalho conhecer o animal, os equipamentos, depois aprender a montar até saltar e depois aqueles que se destacam entram na equipe. Eles ganham mais disciplina, melhoram na escola”, avalia Maura, aproveitando para contar o caso de uma criança que tem problemas familiares, vive com o avô, e melhorou muito de comportamento depois que passou a frequentar a Escola de Hipismo. “O avô dele estava maravilhado com as mudanças. O menino já estava montando muito bem, e agora todo esse trabalho está sendo perdido”, argumenta.

 

Maura tem razão. Para piorar, ela não sabe dizer qual será o futuro da filha Érica, que ainda teoricamente está na equipe. “Não sei se ela está ou não (no projeto), ninguém nos comunicou nada. Eu já estive lá (na prefeitura) várias vezes, mandei recado pelas redes sociais do Samuca, procuramos entrar em contato, mas eles mandam só a gente aguardar. Agora a escola está voltando, mas os alunos mesmo não sabem se vão voltar ou não”, desabafa.

 

Como mãe, Maura avalia que participar da equipe é uma das maiores motivações para os alunos que ingressam na Escola de Hipismo de Volta Redonda, criada na gestão Neto. “Quando eles começam a fazer aulas, o maior sonho é participar da equipe, porque eles viajam. Sempre se destacaram nas competições e a Escola de Hipismo de Volta Redonda sempre ficava em primeiro ou segundo lugar”, pontua.     

Sabe saltar?

Se o futuro da equipe preocupa técnicos e pais, a continuação do trabalho também. É que o novo treinador da equipe, chamado Cláudio, até prova em contrário, dono de uma fazenda em Dorândia – não teria as qualificações técnicas necessárias para treinar a equipe. Ou formar os novos alunos para as provas de hipismo clássico, já que a experiência dele seria apenas das provas de tambor, que inclusive utiliza outra raça de cavalos, que não existem na escolinha de Volta Redonda. “Ele (Cláudio) compete em provas de tambor, não de hipismo clássico (saltos). Nunca competiu, nunca treinou uma equipe de saltos. Além disso, lida com cavalos quarto de milha, não com PSI (Puro Sangue Inglês) ou BH (Brasileiro de Hipismo – raça desenvolvida no país) – e outras raças utilizadas no salto”, compara Mad-son, que pratica hipismo desde os 7 anos – agora está com 21 – e já competiu em diversas hípicas, além da Escola Municipal de Hipismo de Volta Redonda.

 

Madson vai além. Lembra que não existe certificação para instrutores no Brasil, e não seria isso que impediria o novo treinador de atuar na cidade do aço, mas sim a falta de experiência com o trabalho que é desenvolvido na Escola Municipal de Hipismo. Madson diz até que chegou a se oferecer para ser o novo instrutor da escola, mas a prefeitura teria argumentado que ele não era professor de Educação Física. “O Rodrigo (Boghossian – antigo instrutor) também não era. Não existe essa obrigação no hipismo”, salienta, completando: “Tanto é que o novo treinador não é professor de Educação Física, nem ex-atleta e nem competiu recentemente pela Feerj (Federação Equestre do Estado do Rio de Janeiro)”, compara.

 

Como instrutor, Madson garante que a prova de tambor – onde o cavalo faz um “oito” entre tambores colocados na pista, no menor tempo possível – não se encaixa na categoria “escola” e não tem competições promovidas pela Feerj. “A prova de tambor não é o que era praticado aqui na Ilha São João; não é o que fez história para a cidade. A escola não tem nem cavalos pra isso”, pontua.

Cavalos parados

Madson insiste em dizer que para que a escolinha retomasse as atividades, os cavalos deveriam passar por uma preparação, já que estão parados há nove meses. “Cavalo é um trato a longo prazo. Não é de um dia para o outro que se engorda um cavalo, que ficou com pouca comida por um tempo. E estes cavalos são atletas na verdade, eles precisam de uma ‘pré-temporada’ para voltar às atividades”, afirma o instrutor, que continua: “É preciso tomar muito cuidado, porque se não for feita uma preparação correta, um cavalo pode ser lesionado de forma permanente”, alerta Madson, afirmando que na quarta, 20, foi avaliar a situação da escola e dos animais. “Três cavalos estão mancos, justamente pela falta de trabalho”, dispara, lembrando que para os cavalos voltarem a uma condição mínima de trabalho seria necessário pelo menos um mês e meio de um treinamento específico.  

‘Tirei do meu bolso e banquei’

Madson também fez questão de desmentir as informações oficiais de que ninguém teria doado recursos para manter os cavalos, que passavam fome.  “Isso não é verdade. Tenho dois cavalos no clube de Hipismo da Ilha São João, e diversas vezes, por amor aos animais (da escola), por conhecer estes animais, comprei ração e feno a mais do que eu compraria para os meus cavalos e dei para os cavalos da escolinha. Quando os cavalos tiveram cólicas (por causa da alimentação à base de capim, grifo nosso), por diversas vezes o medicamento que utilizaram foi meu”, afirma ele, completando: “Eu não fiz nada disso por querer algo de volta da prefeitura, dinheiro, nada. Fiz por boa vontade, bom coração. Tirei do meu bolso e banquei, foi isso”, garante Madson, afirmando que alguns alunos se comoveram com a situação e também teriam doado alimentos para os cavalos da Escola de Hipismo de Volta Redonda.

 

Madson diz até que chegou a falar com Samuca Silva na rua, o que teria provocado a ida do prefeito à escola logo em seguida. “Depois disso (visita), tentamos conversar várias vezes para que o projeto retornasse o mais rápido possível, mesmo com um número pequeno de vagas, que a alimentação dos cavalos melhorasse, mas esse trâmite não andou”, explica Madson, afirmando que a mobilização foi feita por ele junto com pais de alunos da escolinha. “O que eu estou fazendo é pelo que a escolinha e o Rodrigo (Boghossian) fizeram por mim. Eu gostaria de fazer isso por outros”, confessa.   

 

Nota da redação: Procurada pela reportagem do aQui, a prefeitura de Volta  Redonda não respondeu a nenhum dos questionamentos enviados, até o fechamento desta edição.

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