Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
0
Publicado em 04/12/17, às 13:43

Quem é pai?

Roberto Marinho

A abertura da Rodovia do Contorno – há 23 anos em construção – era para ser na terça, 5, como queria o prefeito Samuca Silva. Por ciúmes do secretário estadual de Obras, José Iran Peixoto, ela foi antecipada para segunda, 4. Para justificar a antecipação, foi dito que o presidente Temer estaria presente. Não estará. E, de comum acordo, ficou estabelecido que a inauguração deverá ocorrer na próxima sexta, 8, às 11 horas, com a presença de Luiz Fernando Pezão, Samuca Silva e do ministro do Transporte, Porto e Aviação, Maurício Quintella Lessa.  

 

O cerimonial da presidência da República chegou a divulgar que Temer viria para a cerimônia do dia 4, de helicóptero de Brasília para Volta Redonda. Mas, restabelecendo-se de uma cirurgia de angioplastia que sofreu para a limpeza das coronárias, Temer não deverá vir à cidade do aço. Vai perder uma festa de arromba que está sendo organizada na sede do Clube Comercial, onde o ex-prefeito Neto e Pezão receberão os convidados. Isso se não ocorrer nenhum imprevisto em nível estadual ou federal.

 

Se tudo correr bem, a novela da construção da Rodovia do Contorno que já foi apelidada de Rodovia do Transtorno – chegará ao fim depois de longos 23 anos. Começou quando Paulo Baltazar era prefeito, passou pelas mãos de Neto (duas vezes), Gotardo, e caiu no colo do atual prefeito Samuca Silva. “Todos trabalharam para que isso acontecesse. Eu também coloquei um tijolinho na obra da Rodovia do Contorno”, justificou Samuca ao inaugurar – sem a presença de ilustres convidados – a iluminação de um trecho da rodovia localizado em um dos trevos de acesso da Contorno. “Trecho este que não seria iluminado por não constar do projeto”, justificou. 

 

A briga pela paternidade é facilmente explicada. Afinal, a rodovia – ou parte dela – foi ‘inaugurada’, pela primeira vez, em 1996, no governo do então prefeito Paulo Baltazar. “Foram 100 metros de asfalto”, ironiza um dos presentes, lembrando que na época o empresário Mauro Campos, pai de Maurinho, disse cobras e lagartos contra a construção da Contorno. Desde então, outras inaugurações já foram marcadas (para 2012, 2015 e 2016, por exemplo) e nunca saíram do papel. Hoje, duas décadas depois, como um milagre, a obra está pronta. Os motoristas, inclusive, já trafegam por lá.

 

E se tudo correr bem, a partir de sexta, 8, outros motoristas poderão utilizar a rodovia para fugir do trânsito da cidade do aço – trecho da BR 393 que corta a Avenida Getúlio Vargas. Mais precisamente os cerca de 9 mil motoristas de caminhões que passam, diariamente, por Volta Redonda.

 

A Rodovia do Contorno já consumiu até hoje a bagatela de R$ 104 milhões em recursos públicos e teve a obra paralisada e retomada inúmeras vezes. Provocou até a morte da jornalista Valéria Galvão, que trabalhou no aQui. Foi em 2006 e o carro em que ela estava foi atingido por um motorista que usava, indevida e irresponsavelmente, a inacabada rodovia. Vários outros acidentes ocorreram ao longo das duas décadas. No ano passado, quando as obras foram retomadas, faltavam apenas 6% para a conclusão dos trabalhos, segundo informações da Acciona, que assumiu o serviço em convênio com o governo do Estado. Faltava só finalizar os dois trevos de acesso, em Três Poços e na Rodovia dos Metalúrgicos, e colocar a sinalização horizontal e vertical. Faltava também a iluminação pública, mas isso eles não divulgaram à época.   

 

O então prefeito Neto se animou, tanto que chegou a marcar duas ou três datas para cortar a fita da inauguração antes de passar o Palácio 17 de Julho ao atual prefeito Samuca Silva. O mandato de Neto terminou; a obra, não. É que, na pindaíba, o governo do Estado não tinha dinheiro nem para comprar a tinta necessária para pintar a sinalização do asfalto, o que acabou tirando o doce da boca de Neto. Foi aí que surgiu o deputado estadual Edson Albertassi, que conseguiu arrecadar, junto à Alerj, cerca de R$ 23 milhões que faltavam para concluir a Contorno. Coisas do destino, Albertassi deverá ser o único político ausente na inauguração da importante rodovia.

‘Olha eu!’
Às vésperas da sonhada inauguração da Rodovia do Contorno, o aQui procurou os ex-prefeitos Baltazar, Neto e Gotardo, para saber qual teria sido realmente a participação de cada um deles na obra, além de procurar saber se estarão presentes à festa da abertura da rodovia, como deseja Samuca Silva, um dos anfitriões do evento.

‘Enchi o saco dos políticos’

aqui-neto
Prestes a terminar o seu último mandato, em 2016, o ex-prefeito Neto chegou a marcar, desmarcar e remarcar por várias vezes a data de inauguração da Contorno, mas não deu tempo. Segundo ele, o principal motivo para o atraso da obra foi a falta de dinheiro do governo estadual, no auge da crise econômica. “Não houve má vontade política (do governo estadual), foi falta de dinheiro mesmo”, avalia, lembrando que sua participação, quando do seu primeiro mandato (1997-2000), marcou uma atitude inédita na política brasileira. “Devolvi R$ 2,3 milhões que o município recebeu do governo Federal para completar a obra, que na época (por volta de 1998) era de responsabilidade da União”, explicou.

“Quando assumi o governo, a obra, que era federal, estava parada. A empresa (Queiroz Galvão) estava tentando retomar o serviço, e conseguiu a liberação do dinheiro com o governo, que depositou a verba para o município repassar para a empresa. Na época era assim que funcionava. Mas percebi que a empresa queria que a prefeitura desse um reajuste. Não concordei porque achava que o trabalho que eles haviam feito (terraplanagem e asfaltamento) não valia aquilo tudo. Então fui ao extinto DNER (Departamento Nacional de Estradas de Rodagem), em Brasília, para devolver o dinheiro enviado pelo governo Federal”, detalha.

De acordo com o ex-prefeito, a surpresa foi quando ele recebeu a informação de que o departamento não sabia como fazer para receber o dinheiro de volta. “Eles disseram que nunca um prefeito havia devolvido dinheiro de uma obra pública que não havia terminado. Isso virou até assunto no Congresso, entre os deputados”, conta, todo orgulhoso.
O que ele não sabia é que a obra iria ficar parada justamente por falta de dinheiro. O que o levou a passar os anos “enchendo o saco dos governantes para terminar a Rodovia do Contorno”, como frisou. “Corri muito atrás de todo mundo para que a obra fosse terminada. Mas sem dúvida a conclusão desses 6% restantes da rodovia é mérito do (governador Luiz Fernando) Pezão”, avalia Neto, aproveitando para destacar o papel de Albertassi na conclusão da Contorno. “Foi o deputado Albertassi que conseguiu o dinheiro para finalizar a obra, e o Pezão convenceu a Acciona a assumir os trabalhos”, pontuou.

Sobre a demora na conclusão da obra, Neto usou uma declaração que chegou a usar por diversas vezes. “Sempre falo que a Rodovia do Contorno é o maior desperdício de dinheiro público que já houve em Volta Redonda. As causas para o atraso são diversas: começou errado, e houve problemas ambientais, com desapropriações, etc. Muita coisa influenciou para que demorasse todo esse tempo. A obra também passou do município para o governo Federal, depois para o município de novo, e depois para o governo do Estado, que foi quem concluiu a obra”, dispara.  

Para a inauguração de sexta, 8, Neto disse que o seu convite já está garantido, afinal, a festa será praticamente no quintal da casa dele. “Já fui convidado. A inauguração vai ser no Comercial, com o presidente Temer”, disse, ao ser entrevistado e sem saber que a presença de Temer seria descartada por ordens médicas.

Gotardo_cor‘Era uma grande confusão’
O ex-prefeito Gotardo Netto diz que, ao assumir o governo, em 2005, o cenário na Rodovia do Contorno era tenebroso. “Quando assumi a prefeitura, a obra estava parada há seis anos. Era uma grande confusão. Existia um embargo ambiental do Ibama (Brasileiro do Meio Ambiente) e ela (a obra) estava na lista negra do TCU (Tribunal de Contas da União). A empresa (Queiroz Galvão) tinha saído e o projeto executivo não existia ou não foi encontrado dentro da prefeitura de Volta Redonda”, relata.

Gotardo afirma que interveio para que o Inea (Instituto Estadual do Ambiente) assumisse a fiscalização da obra. “Nosso papel foi mostrar a todos que a gestão era do Estado, e por isso a fiscalização deveria ser do Inea e não do Ibama”, explica, relatando que a prefeitura de Volta Redonda explicou tudo ao TCU e uma nova licitação para a retomada dos trabalhos acabou sendo liberada. “Conseguimos também, com uma emenda da bancada dos deputados fluminenses, colocar mais R$ 20 milhões no Orçamento da União para o término da obra. O município fez o projeto executivo (que estava sumido) e o entregamos ao governo do Estado, que passou então a tocar a obra”, disse.

Sobre a demora para a conclusão da rodovia, Gotardo afirma que foi um somatório de fatores. “É como dizem: pau que nasce torto, nunca se endireita. Além do início errado, enfrentamos muitos problemas ambientais. Foram achados depósitos de escória da CSN ao longo da estrada; houve a questão das desapropriações. Acho até que, por tudo isso, em quatro anos eu fiz muita coisa pela obra”, avalia Gotardo, garantindo que se for convidado irá à inauguração. “Ainda não recebi nenhum convite, acho que ainda não há nada oficial. Mas se me chamarem, eu vou. Quem conhece a história da obra sabe que meu nome está lá”, afirma, lembrando que o secretário de Obras quando era prefeito era justamente Zé Iran, ainda secretário de Obras do governo Pezão.     

 

“Houve má vontade política”
aqui-baltazarA Rodovia do Contorno foi iniciada em 1994, no governo Baltazar. O ex-prefeito – que também já foi vereador e deputado federal – afirmou que a estrada era uma reivindicação antiga da comunidade, e que “abraçou um sonho da população”.   

“Essa obra foi, primeiro, um sonho de muita gente, antes de eu ser prefeito. Quando assumi como prefeito, tomei conhecimento desta história – o ex-prefeito Nelson Gonçalves teve a ideia – e o meu governo começou a obra”, relata, completando. “Na minha visão havia, de fato, a necessidade de tirar o trânsito do centro de Volta Redonda, e criar uma área de desenvolvimento para a cidade – e também para a região -, ligando as duas rodovias federais; a BR-393 com a Via Dutra”.

Baltazar afirma que, na época, foi a Brasília, procurar o então ministro dos Transportes (Rubens Bayma Denys, grifo nosso), para pedir a construção da estrada. No encontro, uma surpresa: foi ‘desafiado’ pelo ministro a iniciar logo a obra. “Ele falou: ‘se é um desejo antigo da comunidade, por que vocês não começam? Aí o governo Federal entra com os recursos, depois’. Eu aceitei o desafio”, diz.

Baltazar, que perdeu a eleição de 2016 para Samuca, nega as denúncias de superfaturamento que perduraram durante anos, afirmando que tudo passou pelo crivo do TCE (Tribunal de Contas do Estado). “Quando alguém fala bobagens, que houve superfaturamento, eu lembro que foi o TCE quem deu os valores, não fomos nós”, rebate. E mais, Baltazar diz que deixou o governo com 70% da obra pronta.  “Só faltavam as cabeceiras”, dispara, aproveitando para cutucar um ex-aliado, que foi seu sucessor (Neto) e que virou seu inimigo nº 1.

“Houve má vontade política, quem assumiu (Neto) se colocou como oposição e disse: “Tudo que for do Baltazar, eu não faço. De fato o Governo Federal demorou um pouco para colocar o dinheiro, mas o governo municipal devolveu o dinheiro fazendo ilações, porque não concordava com o valor. Houve miopia política, interesses egocêntricos, com a paralisação”, alega o ex-prefeito.

Baltazar vai além. Diz que a obra parou justamente por Neto.  “Ele (Neto) alegou um problema ambiental, mandou alguém dizer que afetava a Floresta da Cicuta. Isso virou uma grande bandeira para não fazerem, mas depois ficou provado que não era verdade”, afirma, acrescentando: “Se (a estrada) tinha que estar a 30 quilômetros da Cicuta, metade de Volta Redonda teria que ser retirada. Foram argumentos para paralisar a obra”, sentencia, lembrando que nunca destinou recursos para a obra quando estava na Câmara porque o governo do Estado assumiu a Contorno dizendo ter recursos para terminá-la.

Em relação ao convite para a inauguração, Baltazar foi direto: “Não tenho essa expectativa, não sei nem quem está patrocinando esta festa. Não faço nenhuma questão, quem lembra da história (da construção) sabe o DNA da obra. Se me chamarem, vou pensar. As companhias talvez não sejam as melhores”, alfineta, bem ao seu estilo de não ter papas na língua.

 

 

 

Os textos e as fotografias veiculadas nas páginas do aQui se encontram protegidos por direitos autorais, sendo vedada sua reprodução total ou parcial para finalidades comerciais, publicitárias ou qualquer outra, sem prévia e expressa autorização de Jornal Aqui Regional. Em hipótese alguma o usuário adquirirá quaisquer direitos sobre os mesmos. E no caso de utilização indevida, o usuário assumirá todas as responsabilidades de caráter civil e/ou criminal.