Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Sábado, 19 de Agosto de 2017
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Publicado em 24/02/17, às 17:41

Pra depois da folia

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Pollyanna Xavier

A Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) vai demitir. A informação, infelizmente verdadeira, foi repassada ao aQui por uma fonte do meio siderúrgico, com acesso à direção da empresa. As demissões vão atingir todos os setores da fábrica de Santa Cruz, no Rio. Funcionários da produção, logística, manutenção e até supervisão e gerência não serão poupados. O número de dispensas pode ser superior a 500 e os ‘avisos prévios’ devem começar a ser entregues a partir de 1º de março. “Muitos trabalhadores de Volta Redonda e Barra Mansa serão atingidos com estas demissões”, disse a fonte, pedindo que seu nome não seja revelado. “Os diretores saem em menos de um mês”, disparou.

 

A informação sobre demissões na CSA ganhou força um dia após o comunicado oficial da empresa sobre a transação que resultou na venda da Companhia para o grupo ítalo-argentino Ternium. Desde 2013, a ThyssenKrup – dona da CSA – já sinalizava a intenção de vender a planta de Santa Cruz, mas esbarrava no impasse societário com a Vale. Resolvido o impasse, a Thyssen colocou a CSA à venda e a CSN chegou a cogitar a compra da concorrente. Benjamin Steinbruch, presidente da CSN, e Enéas Diniz, além de outros diretores, chegaram a visitar a planta industrial por várias vezes. As negociações, porém, não avançaram e a Ternium entrou no negócio.

 

A Thyssen e a Ternium negociaram por quase dois anos seguidos. No final de 2016, as negociações avançaram, mas não chegaram a ser concluídas porque a Ternium – que também faz parte do grupo que controla a Usiminas – queria pagar menos que o atual valor contábil da fábrica, de dois bilhões de euros (algo em torno de 2,17 bilhões de dólares). Na época, a Thyssen chegou a dizer que qualquer acordo abaixo deste valor afetaria suas reservas de capital. Por outro lado, como não houve outros interessados na siderúrgica, a Thyssen acabou fechando negócio com a Ternium.

 

Mergulhada em dívidas e com sérios problemas ambientais, a CSA teve 100% das suas ações vendidas por 1,5 bilhão de euros. Convertido em reais, o valor é da ordem de R$ 4,9 bilhões e, segundo o comunicado oficial da empresa, a venda da CSA vai retroagir ao dia 30 de setembro de 2016. A grande interrogação dentro da fábrica é sobre a gestão da Ternium na CSA. Funcionários ouvidos pelo aQui (e que pediram anonimato), disseram temer os rumos da empresa daqui pra frente. “Mesmo que eles neguem, a venda vai, sim, resultar em demissões. Estamos todos preocupados”, comentou um deles. “Acredito que eles (os argentinos da Ternium) venham depois do Carnaval”, acrescentou. 

 

Segundo este funcionário, a lista de demitidos inclui dezenas de trabalhadores de Volta Redonda, Pinheiral, Barra Mansa e Barra do Piraí. “Vai ser mais uma porrada (sic) na região”, pontuou, referindo-se ao aumento do número de desempregados. A maioria, diz ele, é de ex-metalúrgicos da CSN que deixaram a UPV para trabalhar na CSA. Que ainda moram nas cidades do Sul Fluminense e se deslocam de ônibus para a fábrica de Santa Cruz. “Os de maiores salários serão os primeiros. Tem diretores, gerentes e coordenadores na lista, não é só peão, não”, garantiu. “Gente que saiu da CSN e da Gerdau pra vir pra cá. Infelizmente muita gente vai rodar”, contou, revelando que o Sindicato dos Metalúrgicos local sabe das demissões, mas ainda não tomou nenhuma providência.

 

O aQui enviou pedidos de informação para a assessoria de imprensa da CSA na quinta, 23. Por telefone, representantes da Ascom negaram uma demissão em massa na empresa, mas citaram um possível turnover com as mudanças envolvendo a venda da Companhia. “Demissões em massa, não. O turnover existe em qualquer empresa. É uma rotatividade de pessoal, mas não há nada de demissões em massa. Negamos esta informação”, garantiu Daniela Melina, da empresa In Press Porter Novelli, que faz a assessoria de comunicação da CSA.

Venda

Em fevereiro de 2013, o empresário Benjamin Steinbruch entrou nas negociações para a compra da CSA. Na época, a oferta da CSN foi apresentada, formalmente, através do Bradesco BBI – contratado especialmente para tratar do assunto. Outras 10 empresas também formalizaram uma proposta de compra pela CSA. Dentre elas, a Ternium, as japonesas Nippon Steel e JFE, Gerdau, a coreana Posto, a chinesa Baosteel e a ArcelorMittal. Sobre esta última, o aQui descobriu que o presidente da empresa, o indiano Lakshmi Mittal, esteve pessoalmente na CSA conversando com diretores da siderúrgica.

 

No caso da oferta da CSN, Benjamin Steinbruch tentou, a todo custo, convencer o BNDES a ser seu sócio no negócio. Ele ofereceu US$ 1,8 bilhões (algo em torno de R$ 3 bilhões na época) pela CSA e por uma laminadora que a Thyssen possuía no estado americano do Alabama. O problema é que Steinbruch só dispunha de R$ 3 bilhões e o restante teria que sair dos cofres do BNDES. Já a Ternium entregou sua oferta, mas sinalizou que poderia recuar caso o BNDES entrasse na jogada ao lado da CSN. O bancão não topou e Benjamin saiu da negociação. Fez bem. Muito bem. Comprar a CSA é comprar um abacaxi, daqueles difíceis de descascar.  

 

A CSA é uma empresa problemática desde a sua construção. O início das operações, por exemplo, foi marcado por uma série de desacertos operacionais, especialmente no âmbito ambiental. De 2010 (ano da inauguração) pra cá, a Thyssen já desembolsou mais de R$ 20 milhões em multas e indenizações ambientais. As falhas da linha de produção obrigaram a Companhia a investir R$ 100 milhões para corrigi-las, na tentativa de estancar a poluição. Não estancou. Até hoje a empresa não conseguiu a liberação da Licença de Operação dos órgãos ambientais, porque, segundo eles (Inea e SEA), a CSA ainda não está adequada à Legislação.

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