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Terça-Feira, 10 de Dezembro de 2019
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Publicado em 29/07/19, às 11:27

Perdendo a linha

Desde o mês de abril, os deputados estaduais passaram a receber uma polpuda ajuda financeira, a famosa ‘verba de gabinete’, mordomia que também é comum no Congresso Nacional. O montante, R$ 26,8 mil, é liberado todo mês e teria – se fosse levado a sério pela maioria dos parlamentares –  o objetivo de descentralizar as despesas administradas pela direção da Alerj. “Será feita com total transparência e prestação de contas em tempo real”, garante a assessoria de comunicação da Assembleia Legislativa. Assim que foi disponibilizada, 40 deputados logo solicitaram a liberação da grana extra. Gustavo Tutuca, que mora em Volta Redonda, e Marcelo Cabeleireiro, de Barra Mansa, estão entre eles. 

 

Para descobrir como os dois únicos representantes do Sul Fluminense na Assembleia Legislativa gastam a ‘verba de gabinete’, o aQui acessou o Portal da Transparência da Alerj para verificar a prestação de contas tanto de Tutuca quanto de Cabeleireiro. Depois, descobriu que nem todo parlamentar fica à vontade para falar de suas despesas. É o caso de Marcelo Cabeleireiro. 

 

Segundo o site da Alerj, o ex-vereador barramansense, eleito em 2018 com 18.003 votos, gastou R$ 3.997,80 só de combustíveis no intervalo de um mês – de maio a junho. Detalhe: só abasteceu no Posto Aliança, localizado próximo à rodoviária de Barra Mansa. Segundo um motorista experiente ouvido pelo jornal, o valor daria para o parlamentar fazer 30 viagens de ida e volta ao Rio de Janeiro. Aparentemente, corresponde às suas viagens para a capital e retorno à cidade natal.   

 

Só que, ao ser questionado na entrevista coletiva que ele mesmo convocou, na tarde de terça, 23, sobre seus gastos com gasolina, Cabeleireiro complicou o que era fácil de explicar. “Barra Mansa é uma das cidades que têm o combustível mais caro”, justificou, indo além. “E por que escolhi (abastecer, grifo nosso) em Barra Mansa? É um local mais próximo de eu ir e voltar do Rio de Janeiro”, completou, sem que os presentes entendessem direito as suas colocações.  

 

Segundo Marcelo, seus gastos com combustíveis também seriam referentes às inúmeras viagens que faz pelo Sul Fluminense e redondezas. “Se você for pegar… eu fui a todos os municípios do Médio Paraíba… todos, todos. E se você pegar na mídia social, no Google, nas reportagem, eu tava em diversas cidade, diversos município, indo e voltando com combustível. Ou seja, nesses dois meses eu não vejo que ultrapassei (gastos com a verba, grifo nosso).  Tô dentro do regulamento e dos gastos normais”, defendeu-se com seu linguajar cheio de erros de português, apesar de ser advogado formado, e sem explicar por qual motivo teria escolhido o referido posto de gasolina como seu único fornecedor de combustível. 

 

Marcelo também foi questionado pelo repórter do aQui sobre dois fatos curiosos que aparecem nas suas prestações, disponíveis no site da Alerj. O primeiro é que no dia 26 de maio, ele teria abastecido duas vezes no Posto Aliança, conforme notas fiscais apresentadas. Primeiro, pagou R$ 37,96. Depois, R$ 78,92. ”Eu saio daqui, vou pro Rio às cinco horas, quatro horas da manhã. Vou e volto. E quando chego, já abasteço”, disse, aproveitando para ressaltar que paga os pedágios do próprio bolso. “Eu fui em vários municípios que têm pedágio. Em minhas prestações de contas não aparece nenhum pedágio, sabe por quê? Porque eu pago do meu bolso, com dinheiro do meu salário”, afirmou, esquecendo que nem sempre é obrigado a pagar pedágio quando sai de Barra Mansa para cidades que não são cortadas pela Via Dutra ou pela BR-393. De Barra Mansa a Volta Redonda, por exemplo, ele não passa por nenhum posto de pedágio. Pelo menos até agora.

 

Outra curiosidade levantada pelo jornal na coletiva, fato que nenhum jornal quis abordar, foi o de que nos dias 21 e 23 de maio, Marcelo não teria apresentado as notas fiscais correspondentes para provar que realmente teria abastecido seu veículo no posto de gasolina da sua preferência, o Aliança. No dia 21, o deputado gastou R$ 147,90. Já no dia 23, o montante foi de R$ 174,01. Um de seus assessores bem que tentou defender o parlamentar, garantindo que “nessa prestação de contas, não há possibilidade de não ter nota fiscal”. 

 

Para tirar a prova dos nove, o aQui fez contato com a Alerj para saber se as notas fiscais que faltam na prestação de contas de Marcelo teriam sido extraviadas ou se não teriam sido incluídas por problema de digitação dos funcionários da Alerj. Ou omissão do próprio deputado. Mas até o fechamento desta edição a equipe de comunicação da Assembleia Legislativa não havia retornado aos contatos do aQui

Ódio nos olhos 

Durante a entrevista, Marcelo Cabeleireiro também foi questionado sobre as nomeações que fez para seu gabinete, como as das esposas de alguns vereadores e ex-vereadores de Barra Mansa. Visivelmente incomodado, o parlamentar reagiu com grosseria, o que lhe é característico (se alguém duvida, basta acessar o vídeo (http://bit.ly/2SFHVbD) onde ele, de porrete na mão, entra na sede da secretaria de Saúde de Barra Mansa para tentar agredir a um desafeto).  “Nomear, eu nomeio quem eu quero. Até mesmo porque nem todo mundo vai fazer minha campanha, vai me ajudar. As nomeações que eu fiz são nomeações política de pessoas que me ajudaram. Ou seja, você acha que vou colocar você (repórter, grifo nosso)? Nunca! Você nunca vai ser nomeado em meu gabinete, você não”, esbravejou Cabeleireiro. 

 

Ele foi além. Manteve o ataque ao jornalista do aQui e retrucou a colocação do profissional de que não estava na coletiva para lhe puxar o saco. “Não é puxar saco. O seu perfil político (do repórter) não serve para mim. É um péssimo profissional”, vociferou o deputado, sem dizer aos jornalistas se os que contratou como assessor parlamentar teriam o perfil necessário para lhe ajudar a representar a população. “Volto a dizer, a nomeação é livre. Eu nomeio quem eu quiser”, encerrou. 

Contratados

A lista dos barramansenses contratados para trabalhar no gabinete de Marcelo Cabeleireiro na Assembleia Legislativa inclui, entre outros, Elaine Bittencourt Furlani, mãe do secretário de Ordem Pública; Cristiane de Fátima Marques da Silva Cruz, esposa do ex-vereador e atual subsecretário de Meio Ambiente de Barra Mansa, Cláudio da Silva Cruz, o Baianinho; e Marcelli da Silva Mamede, esposa do vereador Jefferson Mamede. Teve benevolência até para Bernardo Barros Maia Brandão, neto do ex-vereador Luiz Baptista de Barros, o Lula.

Um energúmeno

Vinicius de Oliveira

Na comunicação existem duas funções que podem – e devem – ser desempenhadas por jornalistas: de assessor de imprensa e a de repórter. O primeiro deve cativar seus colegas para que abram espaço nos jornais para seus assessorados, geralmente políticos pouco hábeis com as palavras, como o deputado estadual Marcelo Cabeleireiro. Já o segundo, o repórter, tem a louvável missão de buscar informações do interesse público e divulgá-las.

Não é papel do repórter agradar a esse ou aquele parlamentar, mas, sim, investigar o que eles fazem e deixam de fazer com o dinheiro público. Infelizmente, Marcelo Cabeleireiro é o único representante de Barra Mansa na Alerj, o que é desastroso para o município e, de quebra, para o Sul Fluminense. É um fanfarrão, semi-analfabeto e já foi acusado de inúmeras falcatruas.

Na entrevista coletiva, convocada para que ele pudesse se gabar de alguns feitos – que não estão acontecendo graças a ele; muito pelo contrário -, Marcelo me destratou na frente de todo mundo. Só faltou tentar me agredir fisicamente. E por que tanto destempero? Foi, simplesmente, porque pedi que falasse sobre a nomeação de esposas de vereador, de ex-vereador, de parentes de barramansense ilustres para o seu gabinete na Assembleia Legislativa. Sua truculenta resposta mostra seu caráter. Disse apenas que indica quem ele quiser. Ele está certo. Pode nomear qualquer mulher, homem, até o papagaio da sua casa. É uma questão de princípios.

Mas, como profissional, acredito que Marcelo Cabeleireiro tenha ultrapassado os limites da ética e do respeito que se espera de um homem, de um político, de alguém que representa a população. Mesmo que eu não fosse jornalista, ainda assim teria o direito constitucional de investigar, cobrar, questionar e divulgar qualquer ação do parlamentar, de qualquer parlamentar. Mas eu sou jornalista e tenho muito orgulho de, por mais de dez anos, desempenhar esse papel com considerável competência. Não fosse assim, não teria passado pelos principais veículos de comunicação de Barra Mansa e Volta Redonda. 

Não sei se a intenção do parlamentar ao me aconselhar a rezar à noite (dado no dia da entrevista) foi a de me ameaçar. Não acredito que chegaria tão baixo a ponto de cometer um crime previsto no artigo 147 do Código Penal Brasileiro que ele, como ‘doutor advogado’, deve conhecer bem. Prefiro acreditar que ele estava sendo sincero, que estava me tratando como um irmão. Só que não posso deixar de dizer ao deputado, para encerrar, que sim, eu rezo.

Rezo todas as noites para que nossos representantes sejam honestos, que possam nos representar com dignidade e ética. E, acima de tudo, eu rezo para que os políticos entendam o papel da imprensa. E mesmo que minhas orações não cheguem a Deus – ou que cheguem e Ele resolva não atendê-las –, vou continuar trabalhando, apurando, investigando, escrevendo… doa a quem doer, incomode a quem incomodar. Afinal, a imprensa ainda é um dos pilares mais importantes e sólidos que mantêm de pé a democracia tão frágil deste país. Graças a ela, os eleitores podem até eleger alguns energúmenos.

 

Contas do Tutuca 
Conforme mencionado no início da reportagem, o deputado estadual Gustavo Tutuca, que é de Piraí e mora em Volta Redonda, cidade onde pretende se candidatar a prefeito, também foi questionado sobre seus gastos. Mas, ao contrário de Cabeleireiro, o parlamentar foi menos dramático. Nem perdeu a linha. Segundo o site da Alerj, Tutuca gastou, entre abril e maio, com viagens e aluguéis de carro e de um imóvel, a importância de R$ 16.304,40.  

O que chama atenção é que o parlamentar alugou um Toyota no ‘Rei dos Blindados’, uma empresa de aluguel de carros localizada no bairro de Bonsucesso, no Rio de Janeiro. Por cada período desembolsou R$ 5 mil, ou seja, Tutuca gastou R$ 10 mil para se sentir mais seguro nas suas viagens da cidade do aço à cidade maravilhosa e vice-versa. A assessoria de imprensa do deputado, ao ser perguntada sobre os motivos que levaram Tutuca a usar um veículo blindado, saiu pela tangente. Limitou-se a dizer que “o carro não é blindado”.  

A assessoria de Tutuca também deu explicações sobre uma viagem que teria feito em 17 de maio – pela Ital Câmbio Turismo – ao custo de R$ 4.358,78. “A viagem foi para Brasília, onde (Tutuca) teve um dia e meio de agenda parlamentar com uma série de reuniões com deputados federais”, justificou. 

Por fim, a equipe de Tutuca falou sobre o aluguel de um imóvel no valor de R$ 1.945,62. O contrato é datado de 8 de abril, com término previsto para o dia 7 de abril de 2022, ano em que se encerra o seu mandato. “O aluguel é de um escritório em Volta Redonda, no qual vai funcionar o gabinete avançado do deputado na cidade. A ideia é facilitar o acesso de demandas da região”, explicou a assessoria, sem revelar o endereço do gabinete.

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