Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Quinta-Feira, 17 de Outubro de 2019
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Publicado em 07/10/19, às 09:32

Perdendo a linha

O conselheiro Rodrigo Melo do Nascimento, do Tribunal de Contas do Estado (TCE), jogou um balde de água gelada na cabeça do prefeito Samuca Silva ao mandar suspender a licitação das 31 linhas da Sul Fluminense, que seria realizada na manhã de ontem sexta, 4. A abertura dos envelopes não aconteceu e nem deverá acontecer tão cedo. Por vários motivos. Além da pendenga judicial, o certame, segundo fontes, não atraiu até agora nenhuma empresa do setor.
“O edital é muito confuso. Tem a questão da exigência da outorga de R$ 6 milhões a ser paga à prefeitura e o prazo de apenas 10 anos para a vencedora explorar as linhas da Sul Fluminense. É pouco”, avalia uma das fontes, pedindo para não ser identificada. “O edital tem que ser refeito por uma empresa especializada. E, principalmente, tem que ser por 30 anos ou mais. Só assim a licitação poderá atrair os empresários do transporte de passageiros”, acrescenta. “Nem as empresa de Volta Redonda se interessaram pela licitação das linhas da Sul Fluminense”, ironiza.
Ela pode ter razão. Na quarta, 2, o prefeito Samuca Silva, o secretário de Transportes, Maurício Batista, o presidente do Sindpass, Paulo Afonso, empresários da Cidade do Aço, Elite e Pinheiral, e ainda o interventor judicial da Sul Fluminense, advogado João Ricardo Uchoa, estiveram reunidos no Palácio 17 de Julho. A ideia era resolver, de imediato, o problema gerado com a apreensão dos cerca de 30 ônibus da Sul Fluminense, que estão alienados a uma instituição bancária. Detalhe: que não estaria disposta a fazer novas concessões com relação à falta de pagamento das prestações (seriam três de R$ 200 mil cada) e ao uso dos veículos apreendidos nas linhas de Volta Redonda.
“A empresa está passando por dificuldades e não está conseguindo prestar serviços de qualidade. Inclusive está sendo administrada por interventor judicial e tendo até ônibus recolhidos. Vamos buscar meios legais para realizar essa licitação o mais rápido possível”, disse Samuca, referindo-se aos ônibus que, como mostra a foto exclusiva do aQui, ainda estão em um depósito improvisado, localizado no Jardim Guanabara, em Barra Mansa. Os demais continuam em Lorena (SP), às margens da Via Dutra.
O que poucos sabem é que, dos 12 veículos localizados na quarta, 2, pelo aQui em Barra Mansa, seis ainda não tinham sido levados para São Paulo. “A maioria dos ônibus foi levada para São Paulo na noite de terça (1). Esses 12 (seis, grifo nosso) que estão na fazenda foram deixados lá de forma proposital. Fazia parte de um plano desde a primeira intervenção. O primeiro interventor já dizia que esses carros não passavam de velharia. Nem pegavam”, pontua outra fonte do aQui com trânsito entre os trabalhadores da Sul Fluminense. “Ele queria trabalhar só com carros novos”, completou.

Desânimo
A novela da intervenção, da briga com o prefeito Samuca e a possibilidade da licitação sair do papel, tem criado um clima de total insatisfação entre os empregados da Sul Fluminense. Teria provocado até a morte de um antigo colaborador da viação, com 29 anos de casa. “O seu Jovenal morreu de infarto ao saber que tinha sido dispensado”, revela a fonte, pedindo para não ser identificada. “Morreu de desgosto”, desabafa.
A fonte jura que mais de 200 funcionários já teriam sido demitidos da Sul Fluminense. Detalhe: antes e durante o primeiro processo de intervenção Judicial. “A intervenção não perdoa. Manda embora sem dó”, dispara, indo além. “O interventor passado mandou 90 embora; quando ele deixou a empresa, os patrões voltaram e mandaram mais 128”, detalha, aproveitando para garantir que o problema das indenizações trabalhistas não foi resolvido. “Na época dos patrões, eles parcelaram as rescisões e estavam pagando direitinho. Com a intervenção, eles pararam de pagar. Não pagaram mais ninguém. Até os 90 que eles (primeiro interventor) dispensaram ficaram sem nada”, diz, referindo-se, na verdade, ao fato de a empresa ter entrado em recuperação judicial.
Foi justamente a recuperação judicial que provocou a apreensão dos ônibus que a Sul Fluminense tinha adquirido, por leasing, para tentar atender as exigências da prefeitura de Volta Redonda em melhorar o serviço nas 31 linhas que operava. “Com a recuperação, a Sul Fluminense passou a não pagar mais nenhum fornecedor. É de lei. Assim, as prestações do leasing foram acumulando. Com a nova intervenção, a recuperação judicial foi sustada e o banco correu atrás do prejuízo. Deu 24 horas ao interventor para receber todas as prestações vencidas. Ele não pagou. E o banco entrou com uma liminar pedindo a apreensão dos ônibus que estavam vencidas”, conta a fonte.
Como trabalha na empresa, a fonte diz que seus colegas estão inconfor-mados com a situação, principalmente com os donos e herdeiros da viação. “Ela (empresa) está quebrando por má administração, por brigas entre eles. Tudo por causa de dinheiro”, lamenta, dando a entender que alguns diretores estariam fazendo retiradas de R$ 50 mil por mês. Ou investindo em bens particulares. “Compravam lanchas, e não ônibus”, ironiza. “Todos nós pensamos do mesmo jeito, até porque ninguém é bobo. Estávamos vendo como eles estavam conduzindo errado a empresa”, lamenta.
Mas, nem tudo está perdido. É que, segundo a fonte, os trabalhadores acreditam que o novo interventor poderá dar um jeito no caos. “Ele pode pôr a empresa nos eixos. Nas linhas”, brinca, explicando a razão do otimismo. “Na primeira intervenção, o doutor Antônio, nomeado pelo juiz da 4ª Vara Cível, montou uma equipe de pura excelência, profissionais de qualidade. Quando a intervenção caiu, eles saíram, mas essa equipe voltou a trabalhar com o novo inter-ventor nomeado pelo juiz da 3ª Vara Cível”, relata. “Nós acreditamos desde já que vai ser melhor para nós. São profissionais que têm responsabilidade”, crê.
O único porém, diz a fonte, é que se a solução do imbróglio passar pela realização da concorrência, nem todos os trabalhadores serão beneficiados. “Não funciona como eles combinam. Mesmo que o prefeito insista em dizer que todos os empregados serão aproveitados, o empresário que assumir a Sul Fluminense não terá essa obrigação. É uma questão política. Faz se quiser”, dispara.

Nas redes sociais
A pendenga sobre a Sul Fluminense tem ocupado os internautas que acompanham o noticiário do aQui. E, para surpresa geral, um dos herdeiros da viação, o jovem Fernando Lima, postou sua versão em 28 de setembro último, logo após o jornal ter divulgado que a frota da empresa, não apreendida, estaria circulando normalmente nas 31 linhas municipais. “Único jornal (aQui, grifo nosso) que publicou a verdade dos fatos. Parabéns pela seriedade da verdade”, iniciou.
Fernando aproveitou para garantir que o atraso do pagamento das parcelas do contrato de leasing, que originou a apreensão dos veículos, não seria da Sul Fluminense, por já estar sob intervenção judicial. “As parcelas que deixaram de ser pagas são de responsabilidade da MVB consultores”, destacou, indo além: “Mesmo a Empresa (Sul Fluminense) tendo caixa para pagar (as prestações), (a MVB) suspendeu o pagamento das parcelas. As mesmas não se aplicavam à Recuperação (Judicial). Quando os administradores estatutários recuperaram (o controle) a empresa, o caos estava instalado”, pontuou, referindo-se ao fim da primeira intervenção, conforme decisão judicial favorável aos donos da Sul Fluminense.
“Entramos em contato com o banco e pagamos a parcela do mês. Ficamos de ir a São Paulo negociar o atrasado (prestações)”, detalhou Fernando, esclarecendo que, por ‘um erro de comunicação’, isso não teria ocorrido. “O jurídico do banco já tinha entrado com a medida (pedido de apreensão dos ônibus)”, disse, esperando que o caso fosse resolvido. “Graças ao bom relacionamento entre o banco e a empresa, tudo voltará ao normal….”, pontuou, o que não ocorreu até ontem, sexta, 4.
Fernando Lima fez questão até de dar os parabéns ao novo interventor João Ricardo Uchoa e à equipe da K2 Consultoria, “pela agilidade e seriedade”, justificou. “Vocês sim são uma verdadeira empresa de administração judicial”, completou o jovem herdeiro da Sul Fluminense.
Aproveitando a posta-gem de Fernando Lima, uma internauta abordou a questão das demissões já feitas desde o início do processo. “Eu, como funcionária, sei que foi a MVB que deixou de pagar as dívidas, pq assim que ela entrou ela parou de pagar até mesmo os acordos com os funcionários demiti-dos,,sobre os ônibus não foram vcs donos que deixaram de pagar igual a maioria estão falando ,,FOI A PRIMEIRA INTERVENÇÃO QUE DEIXOU DE PAGAR TODAS AS DIVIDAS,,”, escreveu no linguajar próprio das redes sociais. “Fiquei feliz em saber que vc confia nessa equipe da nova intervenção ,,que DEUS abençoe a tudo e a todos que querem fazer o melhor pela VIAÇÃO SUL FLUMINENSE!!!, completou.
Pedindo para não ser identificado, um leitor enviou um e-mail à redação para fazer um alerta. “Não estou aqui para defender a empresa, longe de mim. Defendo os trabalhadores que estão sofrendo com essa pressão da prefeitura e da população”, disparou, relembrando recente projeto aprovado na Câmara, o da dupla função. “Acompanhei o vereador, que ajudei a eleger, quando a Câmara de Volta Redonda apreciou um projeto de lei que favorecia a classe dos rodoviários na função de cobrador. Por unanimidade, os vereadores aprovaram o fim da dupla função. Mas o prefeito não concordava. Ele precisava de apoio, e não queria bater de frente com os poderosos dos ônibus”, disse.
Segundo o leitor, que é funcionário da Sul Flu-minense, o prefeito Samuca Silva acabou sancionando a lei e ela valeu por apenas quatro meses. “A nossa alegria durou pouco, pois o Tribunal de Justiça derrubou a lei que autorizava o fim da dupla função no município. Vemos, claramente, que foi uma perseguição contra a Viação Sul Fluminense”, avaliou, lamentando que Samuca não tenha orientado os advogados da prefeitura a tentar derrubar a decisão do TJ.
Ele, inclusive, entende que o Jurídico do Palácio 17 de Julho não estaria orientando o prefeito na questão da licitação das 31 linhas da Sul Fluminense. “O corpo jurídico não lhe orientou como funciona um processo licitatório. Pare de balelas, senhor prefeito! Vai trabalhar! Deixe o trabalhador em paz! Dentro da Viação não temos somente ônibus ou velharia, temos trabalhadores, pais de família e mães. Caso ache ser uma autoridade municipal, por que não fez valer sua assinatura na lei municipal? Faça mobilidade urbana, só assim verá resultados positivos nos horários dos ônibus”, encerrou.

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