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Quinta-Feira, 21 de Junho de 2018
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Publicado em 04/06/18, às 09:17

‘Os sem controle’

No Brasil, dados do Ministério da Saúde revelam que nos últimos 10 anos a taxa de obesidade aumentou 60% e a de sobrepeso 26%. Em pesquisas recentes, também foi possível observar que estar acima do peso pode aumentar o risco de desenvolver diversos tipos de câncer, além do Diabetes Mellitus. “A obesidade é uma das doenças mais estudadas hoje em dia, pois é um problema mundial que está piorando a cada dia, não somente por afetar a qualidade de vida de modo geral, mas por contribuir com diversos outros problemas de saúde, entre eles o Diabetes Mellitus, doença que traz muitas complicações e de difícil controle medicamentoso”, afirma Ivan Sandoval de Vasconcellos, cirurgião bariátrico da rede de hospitais São Camilo de São Paulo.

 

A cirurgia bariátrica é um dos métodos utilizados para o controle de peso e, consequentemente, de outras doenças relacionadas. A técnica consiste em realizar um procedimento cirúrgico sobre o estômago ou intestino, visando restringir a quantidade de alimento ingerido, reduzindo sua absorção sem comprometer o equilíbrio do organismo e, assim, melhorar o metabolismo e gerar saciedade precoce (sensação mais rápida de estar satisfeito com o alimento ingerido).

 

Existem vários tipos de cirurgia e todas as técnicas são, atualmente, realizadas por minincisões, por onde finas longas pinças e micro câmera passam. Com o comando do cirurgião (diretamente ou por meio de um robô), o procedimento é feito na cavidade abdominal sem necessidade de grandes cortes, método denominado como videola-paroscopia.

 

Em todos os casos, é realizada a redução do estômago, por grampeamento (aparelhos modernos que permitem cortar e suturar o estômago ou intestino com rapidez e precisão). O que pode mudar é a realização do desvio intestinal, a qual traz vantagens (maior emagrecimento e melhora de doenças associadas à obesidade) e desvantagens (menor absorção de alguns nutrientes necessitando reposição vitamínica mais intensa, além de maior ocorrência de aderências, dumping ou hipoglicemia).

 

No entanto, para passar pelo procedimento, é necessário estar dentro de critérios estabelecidos pelas entidades científicas, gestoras e reguladoras, em nível nacional e mundial (CFM, Anvisa, Sociedades Médicas Clínicas e Cirúrgicas). Entre os critérios, o paciente precisa estar há mais de dois anos com obesidade em níveis considerados críticos, que, portanto, pode trazer riscos para a saúde. Estes níveis correspondem a acima do grau II (índice de massa corpórea 35 a 40 kg/m²), na presença de outras doenças associadas à obesidade, ou simplesmente acima de grau III (índice de massa corpórea superior a 40 kg/m²).

 

Em todos os casos, o especialista afirma que é obrigatório já existir tentativa de tratamento clínico antes de se decidir por cirurgia. “As pessoas que desejam mudar a qualidade de vida podem contar com espaços como o Centro de Obesidade da Rede de Hospitais São Camilo de São Paulo, que oferece informação e acompanhamento multidisciplinar, contando também com suporte nutricional e psicológico, para conduzir todo o processo de emagrecimento. O espaço foi pensado para atender os pacientes e seus familiares de forma segura e prática em um só lugar, pois possui equipe treinada e integrada, alinhado com a tendência mundial no tratamento da obesidade”, diz o especialista.

 

De modo geral, a cirurgia traz grande melhora; em alguns casos, até mesmo de resolução de algumas doenças causadas ou agravadas pela obesidade. No entanto, o cirurgião esclarece que é necessário o controle da alimentação após o processo. “É fundamental entender que a cirurgia é uma ajuda, ou seja, não é uma solução definitiva, pois caso o paciente não melhore a alimentação e pratique atividade física, o tratamento pode falhar e, com o passar do tempo, ocorre o reganho de peso com retorno da obesidade”, finaliza.

 

Obesidade de crianças e adolescentes aumentou 11 vezes em 40 anos

obesidade infabtil

O aumento nos índices de obesidade infantil no mundo é alarmante. Um estudo liderado pelo Imperial College, de Londres, e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), realizado em 2016, revelou que a obesidade atinge 124 milhões de crianças – um salto quase duas vezes superior ao aumento no número de adultos obesos. Em 1975, o segmento da população entre 5 e 19 anos acima do peso era de 11 milhões. Já o de adultos saltou de 100 milhões para 671 milhões. Nas últimas 4 décadas, o índice de obesos no mundo cresceu de 0,7% para 5,6% entre meninas; e de 0,9% para 7,8% em meninos. O Brasil encontra-se acima da média mundial: 9,4% das meninas e 12,7% dos meninos estão obesos.

 

A obesidade pode ser desencadeada por fatores ambientais, biológicos, hereditários e psicológicos, mas, segundo especialistas, certamente são os hábitos os principais causadores. “Menos de 5% dos casos são decorrentes de doenças endocrinológicas e a hereditariedade só se manifestará se o ambiente permitir”, explica a endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM-PR), Rosana Bento Radominski.

 

Segundo ela, os índices de sedentarismo e a alimentação inadequada no ambiente familiar são os principais colaboradores para o crescimento exponencial no número de crianças e adolescentes obesos. “As crianças estão passando muito tempo em frente ao computador e celular e fazendo pouca atividade física”, reforça a médica. “Além disso, é preciso uma mudança de hábitos na alimentação de toda a família para que a criança seja motivada a se alimentar melhor”. A médica ressalta ainda que há poucas opções de medicamentos para auxiliar no emagrecimento infantil. O tratamento é baseado em atividade física e reeducação alimentar.

 

Tratar a obesidade não é uma questão estética. Problemas de saúde relacionados ao excesso de peso vêm afetando crianças cada vez mais novas. Complicações como hipertensão arterial, colesterol e triglicerídeos elevados, resistência à insulina (que pode evoluir para o diabetes tipo 2) e até mesmo apneia de sono são alguns desses problemas. “A obesidade nos meninos é ainda mais grave devido ao acúmulo de gordura abdominal, que traz maior risco de problemas cardiovasculares”, alerta a médica.

 

Aspectos psicológicos

A família também deve considerar os aspectos psicológicos da obesidade infantil. Segundo os especialistas, conforme o avanço na idade, maior a probabilidade de sofrer preconceito e bullying devido ao excesso de peso. Isso afeta a interação da criança com os grupos, a socialização e pode levar, até mesmo, a um quadro de depressão. “É um círculo vicioso: a criança sofre com a diferença, se isola e tende a praticar menos atividades físicas e compensar a tristeza na alimentação”, revela a endocrinologista.

 

Outro fator importante a ser observado é se o quadro de obesidade não é decorrente de fatores psicológicos. Muitas vezes, desequilíbrios emocionais e até mesmo casos de abuso sexual desencadeiam a doença. Nesses casos, o acompanhamento de psicólogos e uma equipe multidisciplinar é essencial.

 

Conduta saudável

Rosana Bento Radominski ressalta a importância da participação de toda a família no tratamento e prevenção da obesidade. “Comer de forma saudável não é recomendação exclusiva para o paciente obeso. Toda a família deve cuidar da alimentação e não deve haver diferenciação entre magros e obesos. Uma dieta nutricional equilibrada faz bem a todos”, afirma. A atividade física também deve ser equilibrada e fazer parte do cotidiano. “Não basta matricular a criança em uma academia. É preciso incentivar hábitos diários mais saudáveis, como caminhar todos os dias, procurar subir escadas e brincar, por exemplo”, reforça a médica.

Outra dica importante é regular o tempo da criança em frente às telas de computador, celular e televisão – o que não deve exceder mais que duas horas diárias. E também buscar ajuda em grupos de apoio ao tratamento da obesidade.

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