Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Sábado, 17 de Novembro de 2018
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Publicado em 03/09/18, às 08:35

O tema é… VIOLÊNCIA

Administrar o Rio de Janeiro será uma missão ousada e cheia de desafios para um dos 12 postulantes ao Palácio Guanabara. Não é para menos: os últimos anos foram tenebrosos, a começar pela sangria dos cofres públicos – saqueados por políticos corruptos, o que gerou um caos financeiro que, segundo especialistas, ainda será sentido por um bom tempo. Além disso, demissões em massa, atraso nos salários de servidores e aposentados passando fome. Mas nada chamou tanto a atenção dos fluminenses quanto a violência. A criminalidade atingiu índices inimagináveis, fazendo com que, em acordo com o governador Luiz Fernando Pezão, o presidente Michel Temer decretasse intervenção federal, colocando nas ruas soldados do Exército armados até os dentes – apenas na capital e em algumas cidades da Baixada.

 

A iniciativa, aliás, foi uma das mais controversas já adotadas por Temer desde que assumiu o poder após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A atuação dos milicos surtiu pouco efeito prático. Mas, o que ninguém pode negar é que, desde a intervenção, o interior foi o que mais sofreu. A violência deixa rastros de sangue de Angra dos Reis a Volta Redonda, passando por Barra Mansa e se estendendo até Resende, Pinheiral e outros municípios antes pacatos. O morador do Sul Fluminense assiste de perto o aumento acelerado de assassinatos e roubos. Mais ousados, traficantes se apossaram do interior aproveitando que as forças de segurança estão com suas atenções voltadas para a capital.

 

No último final de semana, mais quatro pessoas foram executadas no Sul Fluminense. Em Barra Mansa, um grupo de milicianos, vindos de Angra dos Reis, foi preso às vésperas de invadir territórios e dominar o tráfico de drogas. E é para falar justamente desse tema que o aQui convidou os principais candidatos ao governo do Estado. Numa série de entrevistas, que começa nessa edição, os políticos tratarão de questões diversas com enfoque no interior e, você, leitor, poderá conhecer um pouco melhor as propostas de cada um deles para o Sul Fluminense.

 

A equipe de reportagem se debruçou sobre esse projeto, que ainda se estenderá até a eleição. Alguns candidatos responderam prontamente, outros simplesmente preferiram não comentar e alguns não foram encontrados. Por decisão do jornal, o formato será de ‘perguntas e respostas’ para que o leitor conheça, na íntegra, o que pensa seu candidato.

O tema dessa semana é violência:

aQui: O índice de criminalidade no interior, em especial Angra dos Reis, vem aumentando paulatinamente. Alguns especialistas em segurança indicam que bandidos da capital andam migrando para o interior. Alegam ainda que o êxodo invertido se intensificou após a intervenção federal no Rio de Janeiro. O que o(a) senhor(a) pretende fazer para salvar o interior da violência? Viu algum benefício na atuação do exército?

deyse

Dayse Oliveira (PSTU): A intervenção militar não trouxe nenhum benefício para a população. Nós do PSTU fomos contra essa intervenção desde o primeiro dia e defendemos o fim imediato da intervenção. Temos denunciado que a violência tem aumentado com a intervenção militar. Aumentou também a repressão nas comunidades pobres e o genocídio da juventude negra. A melhor forma de combater a violência é atuando na prevenção com medidas sociais e de combate ao desemprego.

 indio

Índio da Costa (PSD): A segurança pública tem que ser feita com as polícias. Nós chegamos a um nível de insegurança não só no interior, mas no estado como um todo. A violência cresce no geral. Tudo porque as polícias não estão estruturadas para combater o crime. Durante muitos anos, as políticas de segurança pública não observaram a polícia como instrumento fundamental para combater a segurança. As polícias estão sucateadas. Até aqui, os governos criaram planos de segurança pública e entregaram prontos às polícias para que elas aplicassem. Mas em nenhum momento procuram saber como é que a polícia vai lidar com isso.  O fato dos governos terem abandonado as polícias está verificado no sucateamento das polícias militar e civil, em toda a estrutura, na falta de atenção com o treinamento, com armamento, com equipamento e etc. Falta uma política de segurança pública voltada para as polícias e que as ouça.

 

Na atuação do exército não vi nenhum benefício. Porque o exército veio para cumprir o papel da polícia sem ter o conhecimento do território que a polícia tem para combater o crime. O exército veio para o Rio para fazer policiamento ostensivo que é o papel da Polícia Militar. Não houve benefício nenhum.

 

O que chama mais a atenção da gente é que Angra dos Reis tem sido há muito tempo berço do lazer do governador, dos amigos dele. E, no entanto, a violência tem crescido muito lá. Angra está dividida em dois pedaços. Um que é o espaço ocupado pelos poderosos e ricos, que são as ilhas. E, o outro, a cidade onde moram as pessoas que trabalham, estudam, são residentes em Angra e estão entregues a própria sorte. É preciso dar atenção a Angra dos Reis. Essa criminalidade enorme que tem na cidade vai se estender, sem sombra de dúvida, para essas ilhas e não vai demorar muito. Mas aplicando e investindo em quem sabe fazer, os bons policiais, é absolutamente possível voltar a oferecer segurança no interior, que vou olhar como uma das prioridades, e em todo o estado.

 tarcisio mota

Tarcísio Motta (Psol): A intervenção é uma farsa. Ela foi uma jogada de marketing do Temer com viés puramente eleitoreiro. Os resultados são desastrosos: em seis meses de intervenção, as chacinas aumentaram em 80%, os tiroteios aumentaram em 37% e a apreensão de fuzis e metralhadoras caiu 39%. É muito tiro e pouca inteligência.

 

Não é de hoje que o Estado do Rio de Janeiro é alvo de operações militares sob a justificativa de garantia de segurança. Somos laboratório desse tipo de intervenção desde a Rio-92. Só para citar alguns exemplos: o Exército esteve no Morro da Providência em 2008, no Alemão em 2010, na Maré em 2014 e na Rocinha em 2017. E qual foi o resultado positivo dessas incursões? Nenhum. Pelo contrário, o que os moradores sentiram na pele, principalmente os mais pobres, foi o aumento da violência durante essas investidas.

 

Recentemente, as Forças Armadas foram acionadas para combater o roubo de cargas nas rodovias do estado, em especial a Rio-São Paulo. Três mil militares estavam policiando as vias expressas, mas foram as polícias civil, federal e rodoviária federal que deflagraram a operação Barba Negra, desbaratando a maior quadrilha de roubos de carga do estado. Expediram 80 mandados de busca e prenderam 16 pessoas sem precisar dar um tiro sequer. E os militares ficaram a ver caminhões… Nada conseguiram. Afinal, não cabe a eles cumprir a função de polícia.

 

O Rio não precisa de intervenção, o estado precisa de outro modelo de segurança pública. Chega de tratar o exército como polícia e a polícia como exército. Isso não funciona em nenhum lugar do mundo. Para sair dessa crise, precisamos priorizar a investigação e a prevenção dos crimes. Por isso, quando assumirmos o governo, vamos integrar os diferentes órgãos de segurança pública estabelecendo um programa de metas, um plano de ação e um sistema permanente de compartilhamento de dados e informações. Nosso objetivo será reduzir os índices de violência, em especial, homicídios e estupros, e construir uma rede pública de apoio, acolhimento e denúncia para familiares e vítimas. Mas nossa principal medida será implementar um novo modelo de polícia, mediante a reformulação dos atuais estatutos, a reordenação das prioridades estratégicas, a reestruturação das técnicas de treinamento, a valorização dos servidores da segurança pública e a oferta de uma formação fundamentada na promoção da democracia, na garantia de direitos e na defesa das liberdades.

 Wilson Witzel

Wilson Witzel (PSC): A intervenção federal trouxe benefícios significativos na reorganização das forças de segurança do Estado e seu legado será aproveitado em nosso governo. Criaremos um gabinete de segurança que implantará a “Operação Lava Jato da Segurança” baseada na investigação, que vai desmontar o crime organizado em todo o estado. Faremos também o reforço das Guardas Municipais que serão treinadas e armadas em razão da impossibilidade de contratação de novos policiais, devido ao regime de recuperação fiscal.

 trindade partido novo

Marcelo Trindade (Novo): A intervenção federal na segurança pública já está produzindo resultados, que pude conhecer em visitas ao Interventor federal, general Braga Netto, e ao Secretário de Segurança Pública do Rio, general Richard Nunes. É um processo em curso que precisa ser continuado. Por isso, eu defendo a manutenção do modelo de segurança implantado, focado em gestão e planejamento. Ao meu ver, este será o grande legado da intervenção.

A segurança precisa ser prioridade, e as polícias civil e militar precisam ter comandos estáveis para executar as metas de curto, médio e longo prazos. Não podem ser trocados a cada pressão política ou ação ousada de bandidos. O uso intensivo de tecnologia tornará as ações policiais mais seguras para o cidadão e para os próprios policiais. As ações precisam ser mais inteligentes para melhorar os índices de elucidação de crimes, desbaratar o crime organizado e manter os bandidos presos. Aumentar o medo de ser preso é fundamental para fazer a pessoa pensar duas vezes antes de cometer um crime.

Nosso plano prevê uma unidade de inteligência reunindo as polícias, a Secretaria de Administração Penitenciária, o MP e a PF, sob coordenação do secretário de Segurança, para enfrentamento do crime organizado e acompanhamento rotineiro e permanente das metas de segurança e de atuação policial pelo Instituto de Segurança Pública.  Se tivéssemos um processo mais avançado e consolidado de investigação e inteligência, muitos desses bandidos que saem de suas áreas de atuação para se aventurar pelo interior já teriam sido presos no meio do caminho. Vamos nos inspirar em todas as experiências nacionais e internacionais de monitoramento para reverter essa situação.

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Márcia Tiburi (PT): De fato, os indicadores de violência têm aumentado no Interior do Estado. Enquanto na cidade do Rio de Janeiro a taxa de homicídios é de 32,7 por 100 mil habitantes, em Paraty e Angra dos Reis essa taxa é de, respectivamente, 74,8 e 58,1 (fonte: Instituto de Segurança Pública – ISP). A prioridade para a segurança pública no Estado do Rio de Janeiro tem estado muito concentrada na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Teremos uma política mais integrada para o conjunto do Estado, utilizando instrumentos de inteligência.

Outro fator importante é a grave desigualdade social no município de Angra dos Reis. Este município é o que apresenta, de acordo com o Censo de 2010, o maior percentual de moradores, 35,46%, residindo em favelas no Estado do Rio de Janeiro. Em parceria com a Prefeitura de Angra, o Governo Federal e instituições internacionais, como o Banco Mundial e Banco Interamericano, iremos fazer um programa de urbanização de favelas.

A intervenção federal não resolveu os problemas que afirmava procurar resolver e ainda gerou efeitos perversos, como o aumento do número de mortos e o deslocamento da criminalidade para outras áreas, como, por exemplo, Angra dos Reis. Iremos desenvolver ações de inteligência policial para prevenir delitos e construir uma cultura de respeito à legalidade estrita, com ações em diversas áreas como a cultura, a educação e os esportes, voltadas a evitar crimes, punir adequadamente quem viola a lei e evitar arbítrios.

 pedro henrique

Pedro Fernandes (PDT): Certamente a migração da criminalidade é um fato. Dentro do próprio município há essa movimentação. Sou testemunha desse processo, quando disparou a violência em Irajá, bairro do subúrbio que fui criado, com a implantação de UPP’s em outras áreas da cidade. Tive inclusive amigos vítimas dessa migração, que tiveram carros, casas ou bens roubados. A situação no interior é dramática por causa dessa desastrosa política de segurança. Sem integração, inteligência e tecnologia, continuarão ocorrendo ações isoladas que somente espalham a criminalidade pelo Estado e até pioram o problema. Queimados, São Gonçalo, Niterói, Mesquita e Cabo Frio são outros casos, dentre muitos, de municípios cuja segurança pública está fora de controle. Não adianta intervenção se não ocorrer integração, principalmente com os Municípios do interior, maiores vítimas das ações descoordenadas. As forças armadas serão fundamentais nesse processo de integração, principalmente na questão da defesa das fronteiras do Estado contra a entrada de armas, drogas e contrabando, incluindo entradas via transporte marítimo e aéreo. Mas volto a dizer, sem integração e inteligência as forças armadas não vão resolver. E, o que é pior, vão sofrer um perigoso dano de credibilidade.

 

Nota da Redação: Os candidatos Romário (Podemos) e Eduardo Paes (DEM) não responderam às perguntas enviadas pelo aQui. Já as assessorias de imprensa dos candidatos Antony Garotinho (PR), André Monteiro (PRTB) e Luiz Eugênio Honorato (PCO) não foram encontradas.

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