Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 23 de Abril de 2019
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Publicado em 01/04/19, às 11:10

“O filho é meu!”

Por Vinicius de Oliveira

“Cada cidade tem o vereador que merece”, diz a máxima popular acerca da atuação dos vereadores que usam o poder que o cargo lhes confere para dar vazão à criatividade, criando projetos ou suscitando debates que, muitas vezes, nada contribuem para o bem estar da população. Para que o leitor possa ter uma ideia, há três anos nada mais nada menos que 57 mil vereadores foram eleitos e, com tanta gente ‘batendo cabeça’, não é de se surpreender que sobre tempo e ideias controversas que não vão levar a lugar nenhum. 

 

Em Barra Mansa, por exemplo, os vereadores costumam extrapolar os limites até do bom senso. Na semana passada, o vereador Gilson ‘Poxa Vida’ quis dar uma ‘carteirada’ em uma festa na comunidade onde mantém eleitores. Segundo denúncias, o evento não tinha autorização das autoridades para ser realizado. Após  a chegada da Polícia Militar, o parlamentar não perdeu tempo. Jurou de pé junto que a festa estava autorizada e que ele era amigo pessoal da comandante do 28º Batalhão, Luciana Rodrigues de Oliveira. 

 

Entretanto, quando os agentes da PM solicitaram a documentação com o ‘nada opor’ das autoridades, o vereador desconversou. Disse que não o tinha em mãos. O que ele não sabia era que sua ‘amiga’ já tinha mandado acabar com a festinha. E o caso foi parar na 90ª DP.  

 

Embora chame a atenção, a tentativa de ‘Poxa Vida’ de dar uma carteirada nos PMs não foi páreo para o que o vereador Marcell Castro aprontou. Marinheiro de primeira viagem, o jovem criou polêmica ao fazer um vídeo nas imediações da Floresta da Cicuta que, segundo ele, pertence totalmente a Barra Mansa. Marcell foi até ao local e, sem a anuência do Poder Executivo das duas cidades, fincou uma placa indicando, na sua interpretação pessoal, os limites entre Barra Mansa e Volta Redonda.

 

“Estamos na (Floresta) Cicuta, onde foi instalada a placa de limite dos municípios. A Cicuta é Barra Mansa. Eu sempre falei isso. E Barra Mansa tem que cuidar da floresta e de cada palmo de seu território”, defendeu o vereador no vídeo que passou a ser exibido nas redes sociais. 

 

O problema é que boa parte dos internautas que seguem o vereador não viu com bons olhos o fato de Marcell se dedicar a uma questão que caberia aos prefeitos definir. “Vai caçar um serviço. Os bairros limites com Volta Redonda estão esquecidos (…). Dá uma volta na Vila Elmira, Paraíso, Boa Vista, 9 de Abril, onde tem grande arrecadação de impostos”, sugeriu Anderson Luiz Gonçalves. 

 

Bhawan Júnior também questionou a atuação de Marcell, dando a entender que não aprova a empreitada. “Daí eu me pergunto, para que gastar tanto dinheiro com políticos: Para eles fazerem isso:”, indagou, seguido por Leandro Duarte, que disse: “É para isso que tem vereador: tanta coisa para vocês correrem atrás e fica fazendo isso. Mas eu não mereço ver isso. Acorda Barra Mansa!”, postou. 

 

“O voto de revolta é caro, gente”, disse o internauta Manoel Machado, alegando que Marcel teria sido uma opção de protesto na eleição. “E olha que ele está recebendo um excelente salário e benefícios da Câmara de Barra Mansa. Malucos são vocês. De bobo esse aí não tem nada”, disparou. 

Sem graça

O prefeito Samuca Silva não achou a mínima graça na atitude do jovem vereador barra-mansense. Em entrevista a Betinho Albertassi, Samuca ironizou a atitude do parlamentar. “Eu nem comentei porque achei desnecessário. Acho isso inconexão com a realidade, parece que estão jogando War (jogo de tabuleiro que simula uma guerra para conquistar territórios). Vou mandar um ofício solicitando a manutenção daquela área a partir de então”, comentou o prefeito de Volta Redonda. 

 

Na entrevista, Samuca deu um tapa de luva em Marcell, dando a entender que o moço estaria perdendo tempo ao levar uma placa para a área da Cicuta quando deveria se preocupar com áreas de Barra Mansa que podem, na verdade, pertencer a Volta Redonda. “Na realidade é uma divergência: a prefeitura (de Volta Redonda) está entrando no Judiciário para rever algumas áreas, como do Getúlio Vargas, Santa Inês, Região Leste. Estamos pedindo a revisão ao IBGE e aos órgãos da revisão territorial de Volta Redonda. Segundo os especialistas, tem uma área ali no Getúlio Vargas com empreendimentos, cujos alvarás os empresários deveriam solicitar em Volta Redonda e não em Barra Mansa. O mesmo no Santa Inês. Vamos discutir isso em juízo. E vai entrar a Cicuta também”, ponderou. 

 

Não é a primeira vez que Marcell Castro envereda por esse tema. Antes mesmo de ser vereador, o rapaz já tinha levantado a hipótese de que as demarcações que separam os dois municípios estariam erradas. Ele chegou, inclusive, a defender que a cidade do aço deveria voltar a pertencer a Barra Mansa. Mas nunca tomou iniciativa tão drástica como, por conta própria, fabricar uma placa e fixá-la no local onde acha ser o correto. Coincidência ou não, ele voltou a tratar do assunto meses depois de o prefeito Samuca anunciar a instalação de uma empresa de Call Center em Volta Redonda, mais especificamente na Cicuta, ao lado do campus do Centro Universitário de Barra Mansa. 

 

Para quem não sabe, Samuca atraiu os empresários da Youtility Center, empresa de contact center que funcionava em Piraí, para a cidade do aço, e a companhia inaugurou, no fim de setembro, no campus Cicuta, a sua unidade de operações de telecomunicação que deveria funcionar em Volta Redonda. Desde o lançamento, cerca de 1.700 empregos foram gerados e Samuca passou a contabilizar o lucro político da empreitada, com a geração de empregos e mais ISS (Impostos Sobre Serviços). 

 

Além de oferecer oportunidades de renda para os alunos do UBM e para a comunidade em geral, a parceria entre Samuca e a Youtility obrigou a criação de uma nova linha de ônibus municipal entre a Vila e o campus, além da urbanização da área interna e externa. Só que, para azar de Samuca, fiscais da própria prefeitura teriam ido a Barra Mansa para dizer que o ISS da nova empresa estaria sendo indevidamente cobrado por Volta Redonda. Foi um Deus nos acuda. “Samuca vai oferecer uma nova área, dentro dos limites de Volta Redonda, para a Youtility se mudar para a cidade do aço”, anuncia uma fonte.    

 

Procurado pelo aQui, Marcell não comentou o caso da Youtility nem disse se a iniciativa de colocar a placa teria a ver com a vinda e a nova mudança da empresa que, até determinação em contrário, continua pagando ISS para Volta Redonda.

 

Sobre a provocação de Samuca, Marcell preferiu não medir forças com o chefe do Executivo voltar-redondense. “A Cicuta é 85% Barra Mansa. Respeito e gosto do Samuca. A placa é somente para sinalizar, e o vídeo para mostrar onde começa Barra Mansa e Volta Redonda. UBM Cicuta é Barra Mansa e ali é o local de realização de provas de concursos públicos”, argumentou, sem dizer muita coisa.  

 

Sobre a enxurrada de críticas que recebeu dos internautas após a postagem do seu vídeo, Marcell sugeriu que eles pesquisem mais sobre seu trabalho. “Convido os internautas que me criticaram e que ainda não conhecem os trabalhos desenvolvidos no Legislativo, pelo vereador Marcell Castro, que pesquisem no site da Câmara de Barra Mansa e lá comprovem quais projetos de leis apresentei até a presente data, quantos projetos tenho aprovado, requerimentos solicitando  informações ao Executivo em diversos setores da administração pública, indicações apresentadas e aprovadas, audiências públicas sobre vários assuntos de interesse coletivo, das comissões que faço parte, dentre outras atividades de minha autoria”, listou.   

 

Ao ser perguntado se ainda defende a junção de Barra Mansa com Volta Redonda, o vereador saiu pela tangente. “Eu defendo que nossa região esteja sempre unida economicamente e socialmente, que nós estejamos empenhados em proporcionar o bem-estar de toda a população que nos escolheu como representantes”, disse. 

 

Considerado uma autoridade no assunto, o arquiteto e urbanista Ronaldo Alves disse que Marcell Castro teve boa intenção, mas não agiu da forma correta. “Os limites entre Volta Redonda e Barra Mansa são mais ou menos o que o vereador disse. Mas não são bem onde ele botou a placa. A posição correta é depois do portão do UBM, que fica no território de Barra Mansa, mas seu portão fica em Volta Redonda. No ponto de vista téc-nico e logístico, acredito que era uma atitude a ser combinada entre as duas prefeituras, se Barra Mansa tiver o interesse. Deveria ter sido feita uma parceria para colocar a placa tecnicamente no lugar correto, num ato conjunto. Isso seria o ato legítimo”, considerou Ronaldo. 

No entanto, o arquiteto faz questão de frisar que a polêmica existe desde 1954, ano da emancipação de Volta Redonda. “É importante ressaltar que essas mudanças são frequentes na cultura brasileira. O ideal para a definição de limites é o uso de acidentes físicos conhecidos como rios, lagoas, mares e elevações de morro. Na história, quando Volta Redonda ainda era o oitavo distrito de Barra Mansa, as divisas eram o Rio Brandão até o Paraíba. Com isso, a CSN ficaria no território de Barra Mansa. Uma discussão foi travada e os emancipacionistas correram para mudar os limites, pegaram a definição da zona urbana que fala nessa sucessão de linhas retas, paralela ao perímetro urbano que vão do bairro 60, perto da Apae até a Vila Elmira, numa linha de 600 metros que desce até o Paraíba. Teve até mandado de segurança na época, que Barra Mansa perdeu”, lembrou Ronaldo, que já escreveu um livro sobre o assunto.

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