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Sábado, 25 de Novembro de 2017
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Publicado em 30/10/17, às 08:28

O defensor

conrado

Vinícius de Oliveira

Paulo Conrado é mesmo um vereador antenado e tem se vangloriado por defender a honra não só da tradicional família voltarredondense. Sua cruzada em favor dos bons costumes atingiu níveis nacionais. Recentemente, ele encrencou com a exposição “Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, patrocinada pelo Santander Cultural, no Rio Grande do Sul. A mostra causou polêmica no Brasil inteiro, pois apresentava obras ilustrando, entre outras, personagens aparentemente praticando atos de pedofilia e zoofilia.

 

Dizendo-se preocupado com a agressão que as obras de arte poderiam gerar nas crianças, por exemplo, Paulo Conrado, autor da lei natimorta que proíbe as discussões de gênero nas escolas, fez um requerimento verbal exigindo explicações do Santander. Quis saber, entre outras, por que cargas d’água  a instituição, que é uma empresa privada, decidiu investir dinheiro em um evento cultural que, segundo ele, expõe “de forma negativa e agressiva símbolos religiosos cristãos, abordando ideologia de gênero e temas nocivos às nossas crianças, à família e à sociedade de modo geral”.

 

Acreditem ou não, o banco respondeu ao requerimento do parlamentar. Tem mais. Mandou, na terça, 24, que dois representantes procurassem Conrado para que este pudesse receber em mãos um ofício redigido pelo alto escalão do Santander. Negando-se a dar entrevista, os superintendes Mauro Sant Angelo e Mauro Padovani Murad (ambos representam a instituição no Sul Fluminense), entregaram para Paulo Conrado o documento assinado pelo chefe do escritório de Relações Institucionais em Brasília do Santander, Marcelo Sperandio.

 

O ofício, ao qual o aQui teve acesso com exclusividade, esclarece qual era o objetivo da exposição em questão. “Tal como todas as mostras do Santander Cultural, a exposição visava, tão somente, incentivar as artes e promover debate crítico e construtivo sobre questões relevantes do mundo contemporâneo”, diz o ofício.

 

O banco fez questão de frisar que não defende nem propaga nenhum tipo de ideologia, valor ou crença. “Nosso único e exclusivo intuito em patrocinar o referido Centro Cultural como espaço neutro é criar e promover um espaço de convívio, de reflexões e de crítica construtiva por intermédio das artes visuais. Portanto, jamais tivemos a intenção de transformar a exposição em palco ou motivo de discórdia, desavença ou de conflito hostil de ideias entre as pessoas”, justificou o banco.

 

Por conta das críticas, como as de Paulo Conrado, que chegaram à direção do banco, a exposição foi cancelada, de forma definitiva, conforme mencionado no ofício apresentado ao vereador. “Ao constatar a discórdia na sociedade, decidimos, no dia 10 de setembro último, encerrar antecipadamente a exposição, a despeito de pressões em sentido contrário. Tal decisão foi tomada em nome da prudência para não permitir que o Centro Cultural pudesse servir de palco para violências e agressões”, informou.

 

Mas vale registrar que no dia 11 de setembro, um dia após o fechamento da mostra, dois promotores do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Júlio Almeida e Denise Vilela, representantes da Vara da Infância e da Juventude, visitaram o local a fim de apurar as denúncias veiculadas na internet. Nesta visita, os promotores constataram que as obras de arte expostas não incitavam ou sugeriam à pedofilia. Da mesma forma, o procurador da República Fabiano de Moraes, titular da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão e representante do Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul, chegou a recomendar a reabertura da exposição.

 

Só que igrejas evangélicas não deixaram barato. A ordem dos Pastores Batistas do Brasil usou duas táticas infalíveis, que domina muito bem, para pressionar o Santander: a Bíblia e o dinheiro. Em nota balizada em conceitos bíblicos, ameaçou o banco, dizendo que seus milhões de fiéis, clientes da instituição, fechariam suas contas levando embora consigo todo o seu sagrado dinheiro.

 

Não deu outra, o Santander cedeu à pressão e ainda deixou o seguinte recado. “Cabe lembrar que dentre nossos 47 mil empregados, temos orgulho de ter entre eles várias famílias evangélicas, protestantes, católicas, além de várias outras religiões. Somos uma empresa, tal qual o Brasil, constituída por um leque de diferentes credos e raças e provemos um ambiente de respeito profundo em varias frentes e não menos na questão religiosa. Dessa forma, nos colocamos à disposição para qualquer outro esclarecimento que se faça necessário, pois apoiamos sempre o diálogo, a compreensão e a boa-fé”.

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