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Publicado em 30/07/2012, às 07:35 - Postado por Jornal aQui

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Cúria Diocesana lança campanha sobre política; bispo não acredita em candidato perfeito

Vinícius de Oliveira

Quem disse que fé e política não se misturam? Prova de que as duas instâncias andam tão unidas, feitas unha e carne, é que a Diocese de Barra do Piraí/Volta Redonda, pela segunda vez, deu início à campanha ‘Fé e Política: missão possível’ na tarde da última quarta, 25. O objetivo principal do movimento, segundo o bispo Dom Francisco Biasin, é “conscientizar o fiel católico a exercer sua cidadania através do voto, escolhendo o candidato menos inadequado”. Para o religioso, que não acredita em político perfeito, é dever da igreja, ao contrário do que muitos possam pensar, se envolver em situações de ordem pública. “A igreja se entende como povo de Deus e tudo o que atinge o povo, atinge a igreja. Nós não podemos ficar indiferentes num momento de eleição, mas também não fazemos política partidária”, explicou.

D. Biasin explicou à imprensa que a diocese preparou um vasto material baseado nos documentos e diretrizes da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) com informações envolvendo fé e política. “Utilizamos as cartilhas da CNBB, traduzidas em linguagem popular. São 30 mil folders. Além disso, a Diocese está preparando um vídeo que poderá ser exibido nas comunidades. Todo esse material tem a finalidade de, à luz da Palavra de Deus, levar o cristão a refletir sobre sua cidadania e a importância do voto”, disse.

Durante o lançamento da campanha, Dom Francisco fez menção a Jesus Cristo e disse que se Ele não era isento, sua igreja também não poderia ser. “Encontramos nos Evangelhos o mestre chamando os fariseus de víboras e Herodes de raposa. Claro que os padres não são orientados a dizer o mesmo sobre os políticos da região durante as missas”, comparou, indo além. “Os cristãos em geral precisam saber que não basta colocar o candidato no poder. Precisa haver um controle social de seus programas, lembrando sempre das pessoas mais carentes e necessitadas. Essa campanha quer conscientizar os fieis neste ponto”, disse, frisando que a igreja não tem candidatos.

Agora, a iniciativa vai dar trabalho. Pelo menos no que diz respeito aos candidatos a prefeito. Em Barra Mansa, por exemplo, os três políticos que concorrem ao cargo de chefe do Executivo já estiveram envolvidos de forma direta ou indireta com a Lei. O caso mais recente foi protagonizado por Inês Pandeló que, coincidência ou não, agora já aparece em terceiro lugar nas intenções de voto, foi acusada e condenada em primeira instância por Rachidi – a prática criminosa de rachar o salário de seus assessores a fim de montar um caixa dois.

Para quem não se lembra, o escândalo foi revelado com exclusividade pelo aQui em 2005. Inês negou tudo. E continua negando. De acordo com sua assessoria, a estrela maior do PT barramansense entrou com um recurso a fim de anular a decisão que poderia mantê-la inelegível por oito anos. A petista conta com a morosidade da Justiça para se manter na corrida eleitoral.

O prefeito Zé Renato, que tenta a reeleição e amarga, até o momento, o segundo lugar nas intenções de voto, também já passou aperto nas mãos da lei. Depois de eleito em 2008, foi acusado pela coligação de Ademir Melo – seu concorrente na época – de abuso de poder econômico, captação ilícita de sufrágio (a famosa compra de votos, grifo nosso), e irregularidades na campanha. O processo se arrastou por alguns meses, mas a Justiça não encontrou nenhuma prova que referendasse a acusação contra Zé Renato.

Jonas Marins não teve que ficar cara a cara com um juiz, mas também não passaria ileso por uma varredura ética. Em 2011 o presidente do PCdoB de Barra Mansa, que despontou como primeiro lugar em recente pesquisa do Ibope, foi acusado pela CDL-BM (Câmara de Dirigentes Lojistas de Barra Mansa) de causar um rombo de mais de R$ 170 mil no comércio local quando ainda era presidente da Asbam (Associação dos servidores de Barra Mansa).

Segundo a CDL, a cifra milionária é o que a Asbam deixava de pagar às lojas conveniadas todos os meses enquanto Jonas esteve à frente da entidade que, dentre outras funções, facilitava o crédito para os servidores públicos. Só que a ASBAM nega ser responsável pela posse da outra ponta do novelo, aquela que desenrolaria o problema. Jonas negou, claro. Colocou a culpa da inadimplência da associação na própria prefeitura de Barra Mansa que, segundo ele, não estaria fazendo os descontos devidos nos contracheques dos funcionários públicos, impossibilitando o pagamento da dívida com os lojistas. “Desde fevereiro de 2010, o prefeito restringiu a um teto de 30% do salário o valor máximo do desconto em folha. Contudo, em muitos casos, os servidores, já endividados, possuíam um percentual bem maior que esse já comprometido em compras parceladas no comércio”, justificou na época, sem saber que se envolveria em outro escândalo: o do pagamento de seguros pessoais da Asbam.

Em Volta Redonda a tarefa da igreja católica de conscientizar os fieis na hora de votar no “menos inadequado” poderá ser mais fácil. Dos políticos que concorrem ao Palácio 17 de Julho, apenas o atual prefeito, Antônio Francisco Neto, teve de resolver um imbróglio com a Justiça. Neto foi acusado pela oposição representada, na época, por Zoinho, Cida Diogo, Washington Granato e Maria das Dores Mota, a Dodora de compras de voto. Segundo os acusadores, o prefeito teria oferecido aos moradores do Loteamento Nova Primavera casas populares caso fosse eleito.

Quando o caso chegou ao TSE, em Brasília, Neto foi finalmente absolvido. Na ocasião, o desembargador Alberto Motta Moraes decidiu que ele não praticou captação ilícita de sufrágio durante as eleições de 2008, mas sim fez meras promessas de campanha ao afirmar que pretendia construir casas populares. "O TSE tem entendimento de que promessas genéricas não configuram captação ilícita de sufrágio", entendeu o desembargador Motta.

Contudo, há poucos dias, Neto se viu às voltas novamente com a Justiça. É que ao apagar das luzes o procurador do MPF, Rodrigo Lines (hoje em São Pedro da Aldeia, região dos Lagos) moveu uma Ação Civil Pública contra ele, o ex-prefeito Paulo Baltazar e a construtora Galvão Queiroz, acusando-os de superfaturarem as obras da Rodovia do Contorno, o que teria causado um prejuízo de R$ 16 milhões aos cofres públicos. Com a mesma rapidez que a denúncia surgiu, ela se foi. O juiz José Carlos Zebulum, da 2ª Vara Federal de Volta Redonda, negou, em decisão divulgada na quinta, 12, o pedido de liminar do MPF. O magistrado não encontrou elementos na ação movida pelo MPF que comprovassem as denúncias.

Em outras palavras, até prova em contrário, Volta Redonda e Barra Mansa estão livres de candidatos corruptos. Agora resta ao eleitor escolher o político que, como mencionou o bispo dom Francisco Biasin, seja o “menos inadequado”. “Nossa intenção é criar consciência nos fieis. Não existe candidato perfeito e se formos analisar a fundo, nenhum estaria a altura de um cargo público, pois política é feita de acordos que nem sempre são do nosso agrado”, sinalizou o bispo.
 

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