Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 25 de Setembro de 2018
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Publicado em 05/03/18, às 10:42

‘Nas coxas, não!’

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Vinícius de Oliveira

Desde que a Educação de Barra Mansa passou a ser regida pela batuta do maestro Vantoil de Souza, o ritmo, vira e mexe, perde o compasso, gerando ruídos polêmicos. Desta vez, o secretário – autor da ordem que obrigava professores e alunos a rezarem o Pai Nosso e a entoarem hinos cívicos dentro da escola – assina um projeto de educação em tempo integral que vem chamando a atenção da população. Embora o município não seja o primeiro a oferecer essa modalidade de ensino na região (Volta Redonda, por exemplo, já o faz, ainda em modo experimental, desde 2015), um reboliço tão grande nunca foi visto em nenhum outro lugar.

Durante a última semana, pais e professores foram às ruas protestar contra a escola em tempo integral de Vantoil. Se vestiram de preto, escreveram cartazes com palavras de ordem e fizeram passeatas, criticando a iniciativa. Segundo os responsáveis pelas manifestações, tudo teria sido feito ‘nas coxas’, de modo que a população não tivesse sequer direito de escolha. “Não seríamos contra o ensino integral se houvesse estrutura nas escolas para abrigar nossas crianças”, pontuou um dos presentes.

 

Isa Maria, uma das diretoras do Sindicato dos Profissionais da Educação de Barra Mansa (Sepe-BM), concorda. Diz que as adaptações feitas em uma das escolas são sofríveis. “Eu estive visitando as escolas na Vista Alegre contempladas com o horário integral, junto com os manifestantes. Tive vontade de chorar quando vi a Escola Eliete de Oliveira Ferreira. Vi barracões que funcionarão como salas de aula. O material é  de Madeirite e o telhado é de Brasilit. É como se quisessem enfiar qualquer coisa ali, menos um ser humano”, desabafou Isa, desmentindo a propaganda de Vantoil de que tudo teria sido “feito para garantir o total conforto dos estudantes”.

 

Segundo Isa, na escola (Eliete de Oliveira Ferreira) a emenda foi pior que o soneto. “Parece que a construção das salas foi feita em uma rua que a prefeitura desativara. Isso é um problema porque, quando chove, a água da enxurrada passa por lá. Quando o Rio Paraíba sobe também é por lá que as águas escoam”, comentou a sindicalista, preocupada.

 

Pais e sindicato também reclamam da falta de diálogo do governo Rodrigo Drable (PMDB). Tal como faz em uma orquestra, Vantoil gira a batuta e manda ‘seguir o baile’. “Alguns alunos fazem curso fora da escola, são bolsistas no Senai, por exemplo, mas a orientação que tivemos é que eles vão ter que procurar outro colégio para estudar se quiserem manter as duas coisas. Fomos apenas comunicados sobre a mudança; não houve diálogo. As coisas não podem ser assim; deveria ser op-cional”, reclamou outro manifestante.

 

Para Isa, a falta de transparência pôs em xeque o projeto para a Educação barramansense. “O que a gente questiona é a falta de discussão com a comunidade escolar (pais, professores e alunos), porque a infraestrutura do ensino regular já é péssima: falta material didático, professores, merenda, enfim, uma série de situações. Imagina se tudo isso acontecer em uma escola integral? Seria complicado”, avaliou, ressaltando que nem mesmo o Sepe foi procurado para discutir a questão e dar opiniões. “Não foi discutido em momento nenhum, em lugar nenhum, faço parte do Conselho de Educação e só vim a saber mesmo na semana passada quando os pais foram reclamar. Aí o secretário fez uma exposição muito friamente para os conselheiros”, completou.

 

Vantoil desmente. Segundo ele, o espaço das escolas foi readequado e, diferente do que denuncia Isa, não foram utilizados contêineres ou barracões. “Foram construídos módulos, com excelente qualidade, com isolamento termo-acústico e climatizados com ar-condicionado. O município adquiriu mobiliário escolar para suprir a demanda e o material adquirido segue os padrões estabelecidos pelo FNDE (Fundo Nacional de Educação). Além disso, o aluno não passará o dia todo sentado em uma carteira escolar. O projeto prevê atividades diversas, interativas e dinâmicas, incluindo prática de esportes, informática e outras oficinas atrativas”, defende-se.

 

Com relação à falta de diálogo, o maestro foi incisivo. Disse que não precisava ouvir mais ninguém, pois sua pasta contaria com ‘funcionários de expertise inquestionável’. “A secretaria possui um departamento pedagógico com profissionais de excelente qualidade, com larga experiência. São funcionários concursados, professores e pedagogos, que prepararam a proposta. Houve estudo e planejamento. Recentemente o Conselho Municipal de Educação visitou as instalações das escolas e ficou satisfeito com o que viu”, crê o secretário.

 

A ideia do maestro não é despropositada, inclusive está prevista no Plano Nacional de Educação cuja meta número 6 estabelece que “no mínimo, 50% das escolas públicas do Brasil ofereça horário integral de forma a atender, pelo menos, 25% dos alunos da educação básica”. O problema é que oferecer um projeto pedagógico realmente integral para desenvolver os conteúdos básicos previstos nas diretrizes curriculares, aprovadas pelo Ministério da Educação e complementadas pelos demais sistemas de ensino, além de outras atividades (artísticas, culturais, esportivas, sociais), não é tarefa fácil.

 

Só que Vantoil garante que o município terá condições de dar conta do recado. Para tanto, de acordo com ele, foi feita praticamente uma revolução dentro da Educação de Barra Mansa. O maestro garante até que a prefeitura construiu novas salas e módulos educacionais, tendo comprado móveis novinhos em folha e equipamentos de toda ordem. Esclareceu ainda que, para garantir o desenvolvimento de projetos pedagógicos para suas escolas em tempo integral, que funcionarão por 10 horas diárias, chegou a contratar professores que ensinarão desde xadrez a alemão, bem como artesanato, robótica e empreendedorismo.

 

Outro tema importante é a alimentação dos alunos. Passar o dia inteiro dentro da escola dá fome, e não é de saber apenas. Vantoil explicou como pretende resolver a questão: “eles (alunos) receberão cinco refeições diárias, com café da manhã, colação, almoço, lanche da tarde e jantar. As escolas foram adaptadas para que os alunos tomem banhos após a prática de atividades físicas. Apesar das adequações que já foram realizadas, se houverem outras necessárias, serão tratadas como prioridade pela secretaria de Educação”, avisou.

 

Para bancar os custos com uma folha de pagamento elevada, suprir a carência de professores capacitados e garantir um projeto diferenciado e múltiplo de educação funcionando dez horas diárias, Vantoil espera ajuda do governo Federal e não descarta a hipótese de fazer parcerias com empresas privadas. “A manutenção de atividades de tempo integral possibilita o aumento do recurso recebido pelo município vindo do governo Federal. Está em estudo a possibilidade de participação da iniciativa privada como incentivadora da Escola”, explicou, frisando que o município está iniciando a implantação redirecionando as despesas. “Como no caso da Merenda, que a redução chegou a valores altos, sem mudar a qualidade da alimentação. Com isso, foi possível fazer a implantação (do horário integral), sem que houvesse impacto muito grande”, garantiu.

 

Para tudo isso dar certo é preciso, segundo o pedagogo Wellington Soares, que os princípios pedagógicos sejam de fato aplicados e condições ideais de aprendizagem são fundamentais. “E elas requerem investimentos pesados. O primeiro item da planilha de custos é o dinheiro para fornecer a infraestrutura adequada. As instituições que possuímos hoje estão preparadas – em sua maioria – para atender a alunos em dois ou três turnos. Com a passagem para um único período, é necessário espaço suficiente para que todos estejam ali ao mesmo tempo, desenvolvendo atividades que não se restrinjam à sala de aula”, explicou.

 

Ainda de acordo com Wellington, isso significa ampliar as unidades já existentes. “É preciso criar classes, bibliotecas, quadras e salas de informática, entre outros. Para as instituições que possuem equipamentos públicos nos arredores – infelizmente uma parcela pequena -, parte desses recursos pode ser reduzida com a articulação de parcerias. Isso não quer dizer que a opção seja isenta de custos. Ela exige investimentos em transporte e na manutenção dos espaços”, comentou.

 

Wellington ressaltou ainda que o dinheiro nunca será demais para garantir o funcionamento de uma rede de escolas em tempo integral. “Feitas essas adaptações iniciais, é preciso recursos para manter os estudantes por um período de tempo maior no ambiente escolar e viabilizar as atividades. O programa ‘Mais Educação’, por exemplo, disponibiliza apenas 4 mil reais por ano para uma escola com 500 alunos custear a aquisição de materiais permanentes e de consumo e contratar os serviços necessários”, pontuou.

 

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