Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
0
Publicado em 04/12/17, às 14:21

‘Não me representa’

“A elite branca não nos quer no Parlamento”. A sentença foi disparada pelo único senador negro brasileiro, o petista Paulo Paim quando das comemorações pelo dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Ela pode parecer dura, injusta, porém configura o atual panorama político do país, das grandes às pequenas cidades, como Volta Redonda, entre outras. Afinal, mais da metade da população brasileira (54%) é composta por cidadãos que se autodeclaram negros – grupo que, segundo o IBGE, reúne pretos e pardos. Mas isso não se reflete na representação política. Em Barra Mansa, por exemplo, dos 19 vereadores, apenas dois são negros, ou seja, corresponde a menos de 1% dos eleitos.

 

Contrastando com essa realidade, o prefeito de Barra Mansa, Rodrigo Drable, tentou fazer diferente e buscou meios de garantir a representatividade da população negra em seu governo. Está longe do ideal, mas já é possível observar mudanças. Além de ter convidado alguns negros para compor o primeiro escalão, como o titular da pasta de Desenvolvimento Econômico, Agnaldo Raimundo e o gerente de Promoção da Igualdade Racial, Walmiro Fabiano, Rodrigo fez questão de ter na sua chapa uma mulher negra, como vice, a professora Fátima.

 

Em Volta Redonda, cidade da também petista Cida Diogo (ex-vice-prefeita e ex-deputada estadual), autora da lei da Consciência Negra – que tem como objetivo promover o resgate cultural do povo escravizado por séculos no Brasil –, a representatividade política dessa camada da população ainda é mais incoerente. Embora apresente um quantitativo maior do que Barra Mansa de vereadores negros, ainda está longe de ser um município vanguardista na questão. São 21 vereadores eleitos na cidade do aço. Destes, cinco são negros, o que corres-ponde a apenas 1% dos legisladores em exercício.

 

Pastor Washington, que integra o pequeno grupo de vereadores negros de Volta Redonda, concorda que ainda há resistência por parte da sociedade quando o assunto é igualdade racial na política. “Concordo que o negro ainda encontra dificuldade de acesso a algumas instâncias. Não podemos negar que existe pouco caso com o negro. Mas podemos mudar isso participando mais. Deus me deu a oportunidade de ser eleito. Desde então, tenho trabalhado para isso”, afirmou o pastor vereador, que ainda não propôs nenhum projeto de lei específico para a população negra.

 

No Palácio 17 de Julho a situação é ainda mais preocupante. Dos 20 secretários escalados pelo prefeito Samuca Silva, inclusive os que já saíram, apenas a professora Rita de Cássia, da secretaria de Educação, se considera parda. Para o professor voltarredondense Thiago Ferreira, que milita em movimentos sociais em favor do povo negro, a baixa representatividade da população de pele preta é consequência das mãos brancas que, por mais de dois séculos, escravizaram homens e mulheres afrodescendentes.

 

 “Existe pouca participação de negros na política por conta do que chamamos de racismo institu-cional. A sociedade foi erguida com base no racismo. Se toda a construção social fosse um edifício, o cimento seria o racismo. Durante séculos, o negro foi escravizado e nesse sistema ele era considerado apenas como mercadoria, não como ser humano, que dirá político. O negro não era dotado de direitos políticos; não pôde votar ou se candidatar para cargos públicos por 4/5 da nossa história”, comentou o professor.

 

Um estudo realizado pelo cientista social Osmar Teixeira, autor de uma tese de doutorado sobre a representatividade da população negra no Legislativo, aponta que praticamente todos os negros que chegaram ao parlamento só tiveram êxito graças à fórmula do coeficiente eleitoral. “Ao final, os votos desses candidatos negros e pobres serão somados à legenda partidária que irá dividi-los e poderá somar um maior número de eleitos. Portanto, o trabalho destes candidatos negros, que acabam sendo numerosos, se dilui. Eles não têm mobilidade para sair de suas bases”, explicou.

 

O estudo de Teixeira concentrou-se no estado de São Paulo, mas, segundo ele, evidências apontam que a dificuldade de negros serem eleitos é um fenômeno nacional. E pode ter razão. Aqui em Volta Redonda, apenas o vereador Jari, o mais votado da Casa, foi o único que assumiu o cargo por meio de seus votos. Rosana Bergone, Tigrão e o pastor Washington, embora tenham recebido expressiva votação, entraram pela média, puxados por outros candidatos. 

 

Para o professor Thiago, historicamente mulheres, negros e outros excluídos da vida política do país se mantêm à margem da estrutura. “O negro não é visto como um ser politizado por uma parcela da sociedade. Muitos se sentem desestimulados de ingressar na vida política por talvez serem os únicos.   É mais fácil participar da vida pública quando se tem estrutura e estabilidade que te facilitem uma vida com menos trabalho”, argumentou.

 

Thiago salientou ainda que a exclusão do negro não se evidencia apenas na política. “Também acontece no judiciário, na mídia, medicina etc. De maneira geral, negros ocupam menos cargos de comando porque se formam menos negros nas universidades. Apenas em torno de 10% dos universitários são negros, e isso por causa das cotas. Por isso o negro continua sendo excluído. Não têm condições de participar da vida pública”, analisou, afirmando que a solução para desmascarar a utopia de democracia racial no Brasil estaria em políticas as sertivas de inclusão. “Ações específicas como cotas de participação de negro nos três poderes poderiam mudar. Não resolveria, mas auxiliaria”.

 

Ainda de acordo com Thiago, o Brasil necessita de uma reforma ampla na política. “Seria interessante ações mais amplas, além de cotas raciais, programas de educação política para negros, mulheres e LGBTs.

Os textos e as fotografias veiculadas nas páginas do aQui se encontram protegidos por direitos autorais, sendo vedada sua reprodução total ou parcial para finalidades comerciais, publicitárias ou qualquer outra, sem prévia e expressa autorização de Jornal Aqui Regional. Em hipótese alguma o usuário adquirirá quaisquer direitos sobre os mesmos. E no caso de utilização indevida, o usuário assumirá todas as responsabilidades de caráter civil e/ou criminal.