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Sábado, 25 de Novembro de 2017
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Publicado em 13/03/17, às 09:52

Nada a comemorar

Violência-contra-a-mulher (1)

Dois terços dos brasileiros (66%), ou seja, duas a cada três pessoas, afirmam ter presenciado uma mulher sendo agredida física ou verbalmente nos últimos 12 meses. O dado inédito integra a nova pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com financiamento do Instituto Avon e do Governo do Canadá por meio do Fundo Canadá para Iniciativas Locais.

 

A pesquisa nacional identificou que 28,6% das mulheres entrevistadas, com 16 anos ou mais, disseram ter sofrido algum tipo de violência (verbal, física ou psicológica) nos 12 meses anteriores à entrevista. Por se tratar de uma pesquisa de autopreenchimento, a margem de erro foi de 3 pontos porcentuais para mais ou para menos.

 

Assim, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública estima que ao menos 16,1 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência no período de um ano, mas o número pode chegar a 19,9 milhões (teto da margem de erro). A maior incidência de agressão foi manifestada pelas mulheres que se identificam como pretas (32%) ou pardas (31%); entre brancas, o índice foi de 25%.

 

Pelos mesmos critérios, entre 12,2 milhões e 15,8 milhões de brasileiras sofreram ofensa verbal; de 5 milhões a 7,6 milhões foram ameaçadas com violência física. A projeção do FBSP e do Datafolha é a de que ao menos 1,4 milhão de mulheres foram espancadas e/ou estranguladas, mas o número pode chegar a 2,9 milhões. Pelo mesmo levantamento, entre 3,9 milhões e 6,2 milhões de mulheres sofreram ofensas sexuais.

A pesquisa mostra também que ao menos 12 mil mulheres foram vítimas de agressão física por dia no Brasil no período de um ano, totalizando cerca de 4,4 milhões de mulheres em 12 meses. Deste total, 39,2% foram vítimas dos namorados, cônjuges, ou ex-namorados e ex-cônjuges, o que representa 1,7 milhão de agredidas.

 

“Os dados demonstram que 45% das adolescentes e jovens de 16 a 24 anos sofreram algum tipo de violência no período de um ano. Em 61% dos casos o agressor era conhecido e, em 43%, a violência aconteceu dentro de casa, na evidência de que a violência começa a fazer parte do cotidiano das mulheres muito cedo” afirma Samira Bueno, diretora-executiva do FBSP.

 

Das entrevistadas que reconheceram ter sofrido algum tipo de violência, 52% afirmam não ter feito nada após o episódio, 13% procuraram ajuda da família e 12% dos amigos. Apenas 11% disseram ter procurado uma delegacia da Mulher.

Assédio

Os dados coletados mostram, ainda, que ao menos 20,4 milhões de mulheres receberam cantadas ou comentários desrespeitosos na rua e outras 6,9 milhões foram assediadas da mesma forma no ambiente de trabalho. O assédio físico no transporte público foi relatado por 10,4% das mulheres, o que significa que entre 5,2 milhões e 7,9 milhões de brasileiras com mais de 16 anos passaram por essa situação nos 12 meses que antecederam a pesquisa. Pelo menos 2,9 milhões de mulheres foram abordadas de maneira agressiva, com contato físico, em baladas e 2,2 milhões já foram agarradas e/ou beijadas à força.

A pesquisa mostra também que as situações de assédio foram mais recorrentes entre as mulheres negras do que entre as brancas no ano passado. Cerca de 47% das mulheres negras relataram ter vivenciado situações de assédio na rua, transporte público, ambiente de trabalho ou festas. Entre as pardas, o índice foi de 41% e, entre mulheres brancas, de 35%.

Uso de armas brancas e armas de fogo

De acordo com a pesquisa, projeta-se que ao menos 257,5 mil mulheres com mais de 16 anos tenham sido vítimas de tiros de armas de fogo nos 12 meses anteriores à pesquisa. O resultado está dentro do intervalo de confiança produzido pela margem de erro da pesquisa, sendo que o percentual válido de mulheres vítimas destas ocorrências fica entre 0,4% e 1,8% da amostra com autopreenchimento. Se projetado para o universo das mulheres adultas (com 16 anos ou mais), que aceitaram responder ao módulo (78% do total – cerca de 63 milhões de brasileiras), chega-se, pelo piso do intervalo, a pelo menos 257,5 mil mulheres que revelaram a experiência. Desse total de mulheres, 44% declararam que os autores da violência e/ou do disparo de armas de fogo eram os seus cônjuges ou companheiros.

 

Nesta mesma lógica, além das agressões sofridas, no mínimo 1,9 milhões de brasileiras foram ameaçadas com facas ou armas de fogo ao longo do ano passado. Mas o montante pode ser bem superior, chegando a 3,6 milhões, considerada a margem de erro da pesquisa. “Os números são chocantes e mostram que precisamos rever, urgentemente, as políticas de enfrentamento da violência contra a mulher no País e reforçar ações de controle de armas”, alerta Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

Metodologicamente, é importante destacar que, como não há maior esclarecimento sobre o significado de cada categoria pesquisada no momento da entrevista, o repertório da respondente prevalece nas respostas, ou seja, o que a entrevistada declarou como “tiro” foi computado, mesmo que, eventualmente, os disparos tenham sido feitos para o alto, errado a vítima, ocorrido fora do período dos últimos doze meses (efeito possível em pesquisas sobre crimes graves), entre várias outras interações violentas. Este bloco do questionário foi preenchido diretamente pela própria entrevistada, sem a interferência ou conhecimento das respostas pelo(a) pesquisador(a). Em pesquisas que envolvem vitimização e temas como violência e agressão, o Datafolha solicita o autopreenchimento do questionário com o objetivo de minimizar eventuais constrangimentos nas declarações por abordagem pessoal.

Metodologia

O Datafolha, a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), entrevistou 2.073 pessoas, entre homens e mulheres de diferentes faixas etárias, regiões e classe econômica de todo o Brasil, do dia 9 de fevereiro de 2017 ao dia 11 do mesmo mês. No total, foram entrevistadas 1.051 mulheres, sendo que 833 aceitaram responder as perguntas sobre ameaças e agressão. Nestes casos, o questionário foi aplicado para o autopreenchimento, ou seja, as mulheres respondiam as questões sobre agressão sem que o entrevistador visse as respostas, para evitar constrangimento e respostas falsas. A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos, exceto para as perguntas de autopreenchimento pelas mulheres, em que a margem de erro é de 3 pontos porcentuais para mais ou para menos.

Sobre o FBSP

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública foi constituído em março de 2006 como uma organização não-governamental, apartidária, e sem fins lucrativos, cujo objetivo é construir um ambiente de referência e cooperação técnica na área de atividade policial e na gestão de segurança pública em todo o País. O foco do FBSP é o aprimoramento técnico da atividade policial e da gestão de segurança pública. Por isso, avalia o planejamento e as políticas para o setor; a gestão da informação; os sistemas de comunicação e tecnologia; as práticas e procedimentos de ação; as políticas locais de prevenção; e os meios de controle interno e externo, dentre outras; sempre adotando como princípio o respeito à democracia, à legalidade e aos direitos humanos. O FBSP faz uma aposta radical na transparência enquanto ferramentas de prestação de contas e de modernização da segurança pública.

Sobre o Fundo Canadá para Iniciativas Locais

O Fundo Canadá para Iniciativas Locais é um programa do Governo do Canadá gerenciado pelas representações diplomáticas canadenses ao redor do mundo, e no caso do Brasil, pela Embaixada do Canadá em Brasília. O Fundo Canadá oferece assistência de financiamento direto para organizações não-governamentais e instituições governamentais. O financiamento se destina a pequenos projetos em defesa dos direitos humanos, a igualdade de gênero, o empoderamento das mulheres, a governança democrática, o desenvolvimento sustentável, e a segurança e a estabilidade, entre outros valores. O programa enfatiza a necessidade dos projetos fomentarem capacidade, habilidade, desenvolvimento e empoderamento da comunidade, além de apresentarem resultados alcançáveis e benéficos.  Mais informações no site: http://www.canadainterna tional.gc.ca/brazil-bresil/developpement-development/index.aspx?lang=por

 

Sobre o Instituto Avon

O Instituto Avon é a organização ligada a uma empresa privada que mais investe financeiramente em ações voltadas para a mulher no Brasil. Sua missão é mobilizar a sociedade para o combate ao câncer de mama e o enfrentamento da violência contra a mulher. Desde sua fundação, em 2003, a organização já investiu R$ 137 milhões em 257 projetos e ações relacionadas a essas causas.

Por meio do conhecimento, articulação e influência em políticas públicas, apoio a projetos e engajamento da sociedade, o Avon busca reduzir a violência contra as mulheres. Para isso, desde 2008, já investiu mais de R$ 25 milhões em 116 projetos e ações em todo o País.

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