Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 26 de Março de 2019
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Publicado em 11/03/19, às 09:42

Nada a comemorar

Por Roberto Marinho

Ainda impactada pelas cenas chocantes de uma semana atrás, quando uma mulher de Barra Mansa teve o rosto desfigurado a golpes de soquete de alho pelo ex-companheiro que não aceitava a anunciada separação, a população do Sul Fluminense se depara com outro possível caso de feminicídio que teria sido cometido contra Maria Edjane de Lima, 35, grávida de 27 semanas (cerca de 7 meses). No Hospital da Mulher, onde procurou socorro, ela teria confessado ter sido espancada pelo marido, Oberdan Gonçalves Braga, 45, que já está preso.
O crime foi na quarta, 6, na antevéspera do Dia Internacional da Mulher, lembrado ontem, sexta, 8. O bebê, uma menina, nasceu prematuro de uma cesárea de emergência, e está na UTI Neonatal do Hospital da Mulher, onde Maria Edjane, que chegou a ser atendida ainda com vida, morreu por causa de uma hemorragia provocada pelas agressões que teria sofrido, inclusive com chutes na barriga.
Sem motivos para comemorar o Dia Internacional da Mulher, a população do Sul Fluminense vê os casos de violência doméstica se multiplicarem por todas as cidades. Além dos dois casos acima, a região registrou outras ocorrências bárbaras neste início de ano, como o chicoteamento com um fio elétrico de uma mulher de 26 anos, em Angra dos Reis, pelo marido, que foi preso. A vítima estava com o filho de oito meses do casal no colo durante a agressão. O motivo? Ela teria saído de barco com os pais do agressor para um passeio e demorado demais.
Também em Angra, um adolescente de 17 anos, inconformado com o fim do relacionamento, que havia começado duas semanas antes, espancou com uma pá a ex-namorada, de 19 anos. A maioria dos golpes foi no rosto da vítima, que teve múltiplas fraturas na face. O adolescente autor das agressões foi apreendido.
536 agressões por hora
Em um estudo recém lançado pelo Fórum Nacional de Segurança Pública – Visível e Invisível: A vitimização de mulheres no Brasil (2a edição) -, os números comprovam a realidade: 536 mulheres por hora sofreram agressão física no último ano – somando mais de 4,7 milhões de vítimas. As mulheres jovens, entre 16 e 24 anos, são as que mais sofrem, representando 42,6% das agredidas. A violência também atinge mais as mulheres negras, que representam 28,4% das vítimas, enquanto pardas representam 27,5%, e brancas 24,7%.
De acordo com os dados da pesquisa, 76,4% das mulheres que sofreram algum tipo de violência afirmaram que o agressor era alguém conhecido. Em 23,8% dos casos era o cônjuge, companheiro ou namorado; e em 15,2% dos casos, o ex. Os vizinhos também responderam por 21,1% das agressões. Em quase a metade dos casos (42%), as mulheres foram agredidas em casa.
O levantamento – que foi feito por meio de questionários em 130 cidades brasileiras – mostra que 27,4% das mulheres maiores de 16 anos sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses. A maior parte da violência (21,8%) foi verbal, com xingamentos, insultos e humilhações, enquanto 9% foram empurrões, chutes ou batidas. Em 8,9% dos casos, houve agressões físicas ou toques com motivações sexuais – ou seja, 9 casos de ataques sexuais por minuto. As mulheres também relatam ameaças com armas e facas (3,9% dos casos), e ainda espancamento e tentativas de estrangulamento – 3,6% dos casos, totalizando três vítimas por minuto, ou 1,7 milhão de mulheres agredidas, só no ano passado.
‘Famosa cantada’
Além da violência explícita, as mulheres sofrem outro tipo de agressão, mais dissimulada, mas nem por isso menos traumatizante: o assédio, quando a mulher sofre cantadas, comentários desrespeitosos, contato físico inapropriado e não consensual, abordagens agressivas, e até mesmo agarrões ou beijos à força, seja na rua, ambiente de trabalho, na balada ou no transporte público.
Mais uma vez a região teve um caso do tipo, que chamou a atenção neste início de ano: um policial militar lotado no 28o Batalhão da PM (Volta Redonda) foi preso em Pinheiral, após importunar e assediar mulheres, na terça de Carnaval, 5. O agente, que estava à paisana e de folga, chegou a apontar uma arma para os agentes que foram prendê-lo, na tentativa de resistir à prisão. Não deu certo.
De acordo com o levantamento do Fórum Nacional de Segurança Pública, 37,1% das mulheres brasileiras com mais de 16 anos – 22 milhões de pessoas – relatam ter sofrido algum tipo de assédio nos últimos 12 meses. O mais comum são os comentários desrespeitosos enquanto andavam na rua, ouvidos por 32,1% das mulheres, seguido das cantadas ou comentários inadequados no ambiente de trabalho, que atingiram 11,5% da população feminina. O assédio físico no transporte público (7,8%), na balada (6,2%), ou mesmo o agarrão e beijo à força (5%) são outras formas de violência sofridas pelas mulheres brasileiras. As mulheres jovens, entre 16 e 24 anos, mais uma vez são as maiores vítimas: 66% delas sofreram algum tipo de assédio nos últimos 12 meses.
O relatório não detalha os motivos, mas apenas 10,2% das vítimas procuram uma delegacia especializada no atendimento à mulher (Deam). Outras 8% procuram uma delegacia comum, enquanto 5,5% ligam para o número de emergência da polícia – o 190. E cerca de 15% das vítimas procuram o apoio da família. Mas, infelizmente, mais da metade das mulheres vítimas de violência – 52% delas – por medo, vergonha ou dependência financeira do agressor, não faz nada sobre os abusos sofridos. O número é o mesmo da primeira edição da pesquisa, feita em 2016, o que mostra que ainda há muito a ser feito para combater a violência contra a mulher.

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