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Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
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Publicado em 21/11/17, às 09:52

Na mesa

“A gente até prefere fazer uma greve, fazer uma paralisação, fazer qualquer coisa, menos o turno de oito horas”

“A gente até prefere fazer uma greve, fazer uma paralisação, fazer qualquer coisa, menos o turno de oito horas”


Há quase dois meses, o Sindicato dos Metalúrgicos e a CSN iniciaram as negociações pela volta do turno de oito horas na Usina Presidente Vargas. Foram quatro reuniões até então e três propostas rejeitadas na mesa. No último encontro, realizado na manhã de quinta, 16, a CSN não melhorou sua oferta e o Sindicato, mais uma vez, a recusou. A proposta foi de R$ 3 mil, parcelado em três vezes – R$ 1.500 em até cinco dias da assinatura do acordo; R$ 1 mil junto com o pagamento de maio de 2018 e R$ 500,00, no salário de novembro de 2018. “Não”, esbravejou Silvio.

Para o sindicalista, o parcelamento do abono seria péssimo para o trabalhador, que não vê o dinheiro ‘entrar’ e ainda sofre os descontos devidos sobre o valor recebido. Silvio acredita que a CSN pode melhorar, não apenas no valor do abono, mas também na forma como ele será pago. Outro item que Silvio faz questão, e que a CSN ainda não aceitou negociar, é a garantia da estabilidade no emprego para quase mil operários que formam uma letra na atual escala de trabalho da UPV. “Pra nós isto é mais importante que o abono”, comentou o sindicalista, acrescentando que a CSN ainda não explicou como vai absorver a mão de obra da letra excedente.

No final da tarde de quinta, 16, Silvio conversou com os trabalhadores sobre a oferta da CSN. Foi durante assembleia na Praça Juarez Antunes. Ele falou da proposta, mas não a colocou em votação. Em entrevista exclusiva ao aQui, antes deste último encontro com a CSN, Silvio citou cinco itens importantes, dos quais o Sindicato não abre mão na negociação com a CSN. E adiantou que, se a empresa oferecer uma proposta que contemple todos estes cinco itens, dificilmente haverá resistência dos trabalhadores em entregar o turno de seis horas.

Confira, ao lado, a entrevista exclusiva com o líder sindical e saiba mais sobre estes itens
aQui
– O interesse na volta do turno de 8 horas é totalmente da CSN. Mas os trabalhadores já demonstraram que estão dispostos a negociar a mudança da jornada. O que o senhor espera da CSN em termos de proposta?
Silvio Campos – A bandeira do Sindicato, a bandeira do trabalhador é de (turno) seis horas. Tem uma confusão que as pessoas fazem, foi em 1988 que morreram os trabalhadores na greve, naquela época implantou-se o turno de 6 horas e ficou até 2000. De 2000 a 2008 o turno era de oito horas e em 2008 ele voltou a ser de 6 horas. Em 2006 nós entramos (diretoria liderada por Renato Soares) e em 2008 voltou a ser de 6 horas. Voltou com esta diretoria que hoje está aqui. É bom esclarecer isto, porque dá a impressão de que o turno de seis horas existe desde a morte dos três metalúrgicos. Ele foi e voltou e aí em 2008 ele voltou de novo e nós conseguimos manter até hoje. O Renato é o ex-presidente, eu assumi em 2014 e a gente vem mantendo o turno até hoje. Só que agora, a CSN, com a nova reforma, está vislumbrando voltar com o turno de 8 horas de novo. A briga começa por aí. O que a gente espera é que, primeiro, ela respeite a decisão dos trabalhadores, coisa que ela não está fazendo. Quando a gente fez o plebiscito e o trabalhador falou que não queria oito horas, a primeira coisa que ela fez foi tachar o turno fixo, que para o trabalhador é a pior opção (…). O trabalhador precisa entender que se ele não se mobilizar com o Sindicato, se não estiver junto, fica muito difícil achar uma saída. A gente fala em greve, colocamos a opção (na cédula de votação do plebiscito) ‘escutar a CSN ou greve’, o trabalhador optou por escutar a CSN, até aí, tudo bem. Só que se a gente colocar greve novamente e ele não votar, então não adianta. A gente não pode decidir por ele. A gente até prefere fazer uma greve, fazer uma paralisação, fazer qualquer coisa, menos o turno de oito horas.

aQui – Se a CSN aumentar o valor do abono financeiro e resolver pagá-lo em forma de crédito a mais no cartão-alimentação, o senhor levaria à apreciação dos operários?
Silvio
– A partir do momento que a gente entende que é uma proposta que o trabalhador pode optar por ela, a gente até levaria. Ela já falou em R$ 1.000, R$ 1.500, R$ 2 mil, e agora chegou a R$ 2.500 mil pra pagar R$ 1.500 agora e R$ 1.000 daqui a um ano. A gente entende que o trabalhador já vai pagar imposto sobre aquilo ali, então não é vantagem, por isto a gente nem levou a proposta (à apreciação). Não importa se a proposta vem por meio de cartão, não importa. O importante é que ela venha, mas algo que seja justo. R$ 2.500 a gente entende que está muito pouco, muito aquém do que o trabalhador está querendo.

aQui – Por ser fixo, sem permitir o revezamento, o senhor não acha que determinados horários propostos pela CSN para o novo turno prejudicariam os trabalhadores que estudam à noite?
Silvio
– Com certeza. O turno fixo prejudica. O turno fixo foi uma maldade. A partir do momento que ela põe alguém pra entrar às 21h45, esse trabalhador vai ficar a noite inteira acordado, ele não vai nem poder ver a novela das oito, nem a Bibi ele vai poder ver mais (risos). Também a novela já acabou, né? A CSN fez isto porque o horário que se começa a pagar a hora noturna é às 23h, então só (quem faz) o ‘zero hora’ vai ganhar. O trabalhador que está das 6h da manhã até às 14h45min não vai ganhar nada. O outro, que for das 14h até as 21h45 também não vai ganhar nada, só o da madrugada que vai ganhar. Com isto, dois não ganham, um ganha e este cara que ganha, não tem vida social nenhuma. A CSN já colocou o turno fixo uma vez e o cara que trabalha na madrugada, com um mês de trabalho, ele começa a cair de sono. Outra coisa, a turma que folga junto, vai para as ‘peladas’, pros churrascos, acabou, daquela turma ninguém mais vai folgar junto. Não terá mais a folga coletiva, acaba com a vida social de todo mundo, acaba com a saúde. O trabalhador que está de dia tem um horário melhor, mas não tem dinheiro, ele perde aí uns 30%. O do zero hora ganha mais, mas perde a saúde. O outro ganha a saúde, mas perde dinheiro, e não tem vida social porque está sem dinheiro pra curtir.

aQui – O que poderia ser feito para flexibilizar isto?
Silvio
– A proposta da CSN tem que contemplar cinco itens importantes. Primeiro: uma tabela em que o trabalhador possa escolher, não somos nós do Sindicato e nem mesmo a CSN, mas o trabalhador é que deverá escolher. Ele é que quem vai dizer se quer 4×1, 4×2, 5×1, 5×2, 6×1 ou 6×2. Existem várias tabelas, pelo menos umas 10 que a gente pode fazer e que está dentro da lei. Segundo: uma hora de refeição. A CSN quer meia hora, a gente está brigando por isto daí, e ela está começando a abrir mão, mas por ela é apenas meia hora. Se você pegar um vídeo do UOL, você vai ver uma entrevista do Benjamin onde ele diz que nos Estados Unidos o trabalhador só tem meia hora de refeição. Ele fica com um pão numa mão e a outra fica operando a máquina. Pra ele, o trabalhador não precisa parar para a refeição. Conhecendo a CSN como nós conhecemos – só eu tenho 37 anos de CSN e conheço ela todinha – você não consegue fazer a refeição e voltar pra sua área em apenas meia hora. Os refeitórios não são pertos e meia hora é praticamente o tempo de você chegar ao refeitório. Chegando lá você vai pegar fila e ainda vai comer correndo. Então, em meia hora é humanamente impossível almoçar. O terceiro item que a gente está brigando é a alimentação, a comida da CSN está muito ruim. Tem que melhorar a alimentação, oferecer algo mais saudável, ainda mais para quem vai fazer turno. Do jeito que está não dá.

aQui – E como está?
Silvio
– Hoje não tem. No turno de seis horas o que existe é um lanchinho. Pra quem está de dia, a alimentação caiu muito. Por causa da crise, a CSN fez um contrato muito ruim. Eles têm que fazer uma alimentação mais robusta para o trabalhador aguentar o tranco. Tem que reforçar. Dar algo mais saudável. Pra quem trabalha na aciaria, coqueria, sinterizações, que são as piores áreas, tem que se alimentar muito bem. Se não tiver um leite pra ele tomar, uma fruta, bastante proteína, o cara não aguenta.

aQui – Sim, e o quarto e quinto itens, quais seriam?
Silvio
– O quarto é o abono. Os trabalhadores me pediram também que a tabela tenha um horário ímpar. Eles alegam que sair às 23h é melhor do que sair à meia noite. Então seria de 7 às 15h, de 15 às 23h e de 23 às 7h. O horário de meia noite é horrível, se ele perder o (ônibus) de 00h20, ele tem que ir a pé pra casa. Então às 23h tem mais chances de ele pegar o ônibus. O quinto ponto é importantíssimo, considero até que este ponto seja o principal, mais importante até do que o próprio abono. Hoje são cinco letras de mil (operários) cada, quatro letras trabalham pra dar 24 horas, uma letra folga e quatro trabalham. Mudando para o turno de oito horas, estas cinco letras passarão a ser só quatro. Então, sobrariam mil pessoas (uma letra inteira). A CSN não é boazinha, ela não vai aproveitar todo mundo. Não vai. Alguém vai pra rua. Então a gente só vai fechar o acordo se tiver estabilidade pra todo mundo. Estabilidade por dois anos. Não pode mandar ninguém embora, com exceção das exceções, que é o cara que falta demais, que quer sair, o que rouba, que briga lá dentro. Mas o trabalhador que cumpre suas obrigações, este tem que ter estabilidade. Estes cinco pontos são o que fecha pra gente levar pra categoria.

aQui – O Sindicato, em algum momento, apresentou uma proposta financeira, em nome dos trabalhadores, para a mudança do turno?
Silvio
– Não. Nós estamos sem parâmetro. Hoje, nas grandes (siderúrgicas) do país, CST, em Tubarão; Cosipa em Cubatão (SP); Usiminas, em Ipatinga (MG); Aço Minas, que também fica em Minas, a jornada é de 12h ou 8 horas, e para conseguir este horário elas pagaram um abono considerável. Mas com a crise, tem quatro anos que os trabalhadores destas empresas trocam o turno pelo emprego. Não existe mais um valor. Trocaram (o turno) pela estabilidade. Se eu tivesse um parâmetro – tipo, na Usiminas paga-se R$ 6 mil, na Açominas R$ 8mil, em outra paga R$ 7mil – daí daria pra gente fazer uma média. Só que isto não está ocorrendo. O parâmetro que a gente tem hoje é zero. Há 8 anos a CSN pagou R$ 4 mil, mas este era o parâmetro que tinha na época. Hoje nas outras este valor é zero. Este é um detalhe que o trabalhador precisa entender, não tenho um parâmetro para dizer pra CSN que só vamos aceitar se for R$ 10 mil. Não há um parâmetro em que a gente possa acompanhar as outras (siderúrgicas), como sempre fizemos. Veio a crise e os trabalhadores tiveram que trocar o abono pelo emprego pra não ser mandado embora. Aqui a gente tem que ficar esperto, porque a CSN pode aproveitar isto e dizer que só pagar alguma coisa agora porque é a primeira vez. Só vamos aceitar o turno se a validade dele for de dois anos. Assim, a cada dois anos a gente volta a negociar uma compensação. A oposição tem dito aos trabalhadores que o Sindicato vai aproveitar a Reforma (Trabalhista) pra fazer um acordo eterno. Isto não é verdade. O nosso acordo é de dois anos. Mínimo um ano e máximo dois anos. A gente não aceita acordo maior do que este.

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