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Domingo, 18 de Agosto de 2019
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Publicado em 13/08/19, às 11:04

Mesmo prato

O prefeito Samuca  Silva continua se desdobrando para agradar os voltarredondenses, mesmo enfrentando, como ele próprio diz, uma herança maldita deixada pelo governo anterior. O que ele não esperava é que a pasta da Educação fosse seu calcanhar de Aquiles. Funcionando como uma usina de polêmicas, a SME voltou a ser alvo da oposição por conta da contratação da empresa paulista Especialy Terceirização Eireli, que ficou responsável por fornecer merenda escolar aos mais de 37 mil alunos da rede municipal.

 

Ao assinar o contrato com a Especialy, a secretária de Educação, Rita de Cássia Andrade, anunciou que ia economizar 25% do valor total do contrato anterior. Em tempos de crise, seria uma tacada de mestre. Tem mais. A empresa, segundo ela, manteria a qualidade da merenda. Tudo daria certo se não fosse por um detalhe espinhoso: o fracionamento da comida.

 

Em um vídeo institucional, tendo como mediador o Relações-Públicas do governo, Adriano Lizarelli, Rita explicou que a nova empresa teria feito reajustes na fração per capta, o que significa que, em tese, teria diminuído a quantidade de comida a que cada criança tem direito. “Nós fizemos a adequação de acordo com a idade de cada criança para que elas não percam, não desperdicem a alimentação, não percam o que elas vão ingerir de acordo com orientação de uma nutricionista”, afirmou a secretária de Educação, salientando que dentro das escolas a ordem era manter o ‘free food’, ou seja, comida liberada para os pequenos. “Cada criança tem sua alimentação adequada, uma alimentação saudável onde elas podem quantas vezes quiserem repetir qualquer alimento, qualquer ingrediente, qualquer item do cardápio”, destacou.

 

Também no vídeo, Lizarelli e Rita explicaram como o município deixou de pagar por uma refeição inteira, referindo-se aos alunos das creches. “Com a empresa antiga, se a criança consumisse um pedacinho de uma fruta, ou a metade ou uma parte qualquer, o poder público pagava por uma fruta inteira. Hoje, não. Há uma economia, mas não quer dizer que a criança não possa comer uma, duas ou quantas frutas quiser”, salientou Lizarelli, ao que Rita completou. “Com certeza. Elas podem repetir, podem se alimentar da forma que se sentirem e da forma como elas quiserem fazer”, disparou.

 

Mesmo com as boas notícias, os internautas reagiram. O vídeo, por exemplo, gerou dezenas de comentários desmentindo a secretária de Educação, principalmente no que diz respeito à liberdade de repetição. Uma internauta, que se identificou como Simone, foi uma delas. “Eu te conheço (Rita) pessoalmente, pois já trabalhei com você, e sei o quanto você é competente. Eu te admiro muito, mas te peço: essas regras aí da merenda não está (sic) valendo na escola Graciema Coura, não”, denunciou.

 

Mariana Ribeiro também contestou as afirmações de Rita. “A teoria é tão linda! ‘CADA CRIANÇA TEM A SUA ALIMENTAÇÃO ADEQUADA’. Parece até que a criança chega no refeitório e a merendeira entrega a porção que lhe é recomendada individualmente. Não precisa trabalhar em escola pra saber que está longe disso acontecer.  Seria maravilhoso! Mas a realidade é que demanda muito trabalho e organização. Em apenas uma sala de aula temos alunos de faixa etária distintas, com biótipos diferentes, gêneros diferentes, e cada indivíduo com suas necessidades nutricionais específicas. Imagina a diferença que existe numa escola inteira. Na rede inteira. O que acontece quando a criança chega no refeitório é que o alimento está lá preparado, igualzinho, pra toda a turma. E que na maioria das vezes, também é igualzinha das demais escolas da rede. Cadê meus amigos nutricionistas que ainda não aprenderam essa técnica de “ALIMENTAÇÃO ADEQUADA, MAS PODE REPETIR QUANTAS VEZES QUISER”, questionou.

 

Daiane Moura foi outra que criticou o vídeo. “No próximo semestre a orientação vai ser que cada aluno divida a sua merenda com um amigo para não haver desperdícios… E no próximo, que cada aluno leve a sua própria merenda!!! Aí alcançaremos a excelência… 0% de desperdício para os cofres públicos”, ironizou.

 

Aos comentários menos ácidos e elogiosos, Rita respondeu com mais brandura. Fez questão de dizer que o processo estaria em “adaptação e o que tiver de ser corrigido, o será”, prometeu. Mas aos críticos, a secretária preferiu o assédio. Aconteceu por exemplo, quando uma professora fez o seguinte comentário na página de um veículo de comunicação de oposição ao prefeito Samuca Silva. “Quantas vezes quiser? Não sei Onde!”, ironizou.

 

Como resposta, Rita fez questão de informar à professora-internauta que ela, secretária de Educação, sabe não só o seu nome, mas, também, a escola onde trabalha. “Gabriela Porto, bom dia. No Centro Municipal de Educação Infantil Elza Costa Figueiredo, onde você trabalha! Lá pode repetir quantas vezes as crianças quiserem”, respondeu.

 

Coincidência ou não, tudo aconteceu depois de Samuca ter ido à rádio anunciar melhorias para a Educação. Em entrevista a Dário de Paula, na sexta, 2, o prefeito prometeu aparelhar o sistema educacional com tecnologia que possibilitará aos pais acompanhar de perto o desempenho dos filhos dentro das escolas. “A partir do ano que vem vamos mudar a sistemática pedagógica das escolas. A licitação já está ocorrendo, nós vamos, em apenas dois cliques, transformar e revolucionar a parte pedagógica e também a forma de atuação dentro de sala de aula. Estamos trazendo para Volta Redonda um projeto pioneiro de tecnologia que, através do smartfone, por exemplo, os pais vão poder saber se o filho está ou não dentro da sala de aula; se a chamada dele foi efetuada; se ele está presente ali. Além disso, se ele teve dor de cabeça ou se não teve”, pontuou.

 

Samuca foi além. Disse que a nova tecnologia facilitará a retirada do histórico escolar, uma burocracia que demanda até 30 dias de espera. “Hoje, por exemplo, demora dias para receber o histórico, [com a nova tecnologia] em apenas dois cliques você vai conseguir acessar seu histórico escolar. É um projeto amplo para as escolas de Volta Redonda, e tenho certeza que estamos dando um passo muito importante para inserção tecnológica, uma dinâmica melhor e deixar esse legado da tecnologia”, completou, voltando a mencionar a crise pela qual o município passa. “Além de ser tecnológico, é economia, esperamos também economizar. Eu nunca recusei que as escolas precisavam de manutenção, o problema é o endividamento histórico, mas estamos dando uma resposta muito positiva para as escolas de Volta Redonda”.

 

Sobre os problemas de merenda escolar, Samuca conversou com o aQui. E explicou como aconteceu a contratação da Especialy, garantindo que a quantidade de alimento oferecido às crianças continua a mesma. Confira a entrevista ao lado.

aQui: A quantidade de alimento oferecido pela Especialy aos alunos diminuiu?
Samuca Silva: Não diminuiu. A quantidade de alimento continua preservada. O novo contrato, que gerou uma economia de 25% aos cofres da prefeitura de Volta Redonda, manterá os padrões e terá melhoria na qualidade da merenda  fornecida aos estudantes das 104 escolas da rede municipal de ensino.
O valor inicial da licitação, que ocorreu na modalidade de pregão eletrônico, teve a participação de 11 empresas, com valor de mercado avaliado em R$ 22.016.836,45. O novo contrato foi assinado em  R$ 16.553.355,91, gerando uma economia da ordem de 25%.

aQui: As escolas estariam recebendo menos insumos (proteína, grãos, frutas etc)? Como é feito o cálculo para cada escola?
Samuca: A quantidade e qualidade continuam preservadas. Inclusive as escolas vão receber uma maior variedade de frutas, verduras e legumes. Aconteceu foi uma readequação com maior subdivisão para melhor atender as diferentes faixas etárias e suas necessidades nutricionais, segundo os parâmetros exigidos pelo Programa Nacional de Alimentação Escolar. 

aQui: Os funcionários reaproveitados pela Especialy não têm mais direito a plano de saúde, diferente do que acontecia. A prefeitura se sensibiliza de alguma forma, sabendo que a função de cozinheira é insalubre? 
Samuca: Por ser uma empresa terceirizada, cabe à empresa a forma de contratação. A prefeitura fiscaliza as questões trabalhistas referentes aos contratados. 

aQui: Como a prefeitura fiscaliza a quantidade e a qualidade dos alimentos fornecidos pela empresa? 
Samuca: A fiscalização é feita in loco, através de visitas técnica diárias da nutricionista responsável técnica pela SME, das conselheiras do Conselho de Alimentação Escolar (CAE) e também pelos diretores e adjuntos, que são subfiscais do contrato.  

aQui: Quanto a prefeitura paga para essa empresa? Se houve economia, ela valeria a pena?  
Samuca: Em se tratando de dinheiro público é importante a economia responsável. Houve uma subdivisão em função das diferentes faixas etárias. Por exemplo, antes havia um único per capita para todo o Ensino Fundamental e agora são dois per capitas diferentes, um para o Fundamental I (do 1º ao 5º ano) e outro para o Fundamental II (6º ao 9º ano), adequando e melhorando assim o atendimento aos alunos. 

aQui: O que a prefeitura pode fazer para que a Especialy melhore a quantidade e a qualidade da comida servida nas escolas? 
Samuca: Vale destacar que a empresa iniciou essa semana o atendimento à rede municipal de ensino. Até o presente momento a empresa vem apresentando um atendimento satisfatório, dentro do previsto no Edital, mostrando-se solícita para resolver qualquer situação. 

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