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Terça-Feira, 23 de Abril de 2019
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Publicado em 08/04/19, às 11:26

‘Meia-sola’

Vinicius de Oliveira

A Viação Sul Flu-minense, principal empresa de transporte de passageiros na cidade do aço, detentora de 29 das 47 linhas municipais, está tendo que lidar com dois sérios problemas para não ir à bancarrota. Primeiro, lidar com uma crise financeira sem precedentes, que vem deteriorando o caixa do grupo ao longo dos últimos anos. Para quem já faturou R$ 5 milhões ao ano, hoje, quando os negócios vão bem, o que é difícil, ela consegue faturar cerca de R$ 2 milhões. Resultado: a qualidade cai, a manutenção dos veículos deixa a desejar e os impostos deixam de ser pagos. Conforme o aQui apurou, só para o INSS, a Sul Fluminense deve cerca de R$ 30 milhões. Deve ainda outros milhões de ISS.

 

Para garantir a sobrevida, a Sul Fluminense já demitiu dezenas de empregados, contratou um consultor financeiro do Rio de Janeiro, com salário a peso de ouro, e, acaba de tentar uma manobra ousa-da: renovou a frota de ônibus para atrair mais passageiros, reduzir as reclamações e, o que é mais importante, acalmar o prefeito Samuca Silva que, só na última semana, mandou apreender 11 veículos da frota da empresa. Todos em péssimo estado de conservação, é bom que se frise.

 

A estratégia foi anunciada, oficialmente, na manhã de terça, 2, durante entrevista coletiva de imprensa realizada na sede da empresa. Ao ser questionado pelo aQui sobre os motivos da crise e a dívida para com o INSS, Miguel Daler, o consultor, admitiu que a Sul Fluminense recorreu ao Refis (Programa Especial de Regularização Tributária das Microempresas e Empresas de Pequeno Porte) para equacionar as dívidas para com o Fisco. “Já tivemos 1.250 funcionários. Atualmente estamos com 900. Para vencer a crise, infelizmente, 19% da Folha de Pagamento foram cortados”, revelou Daler, sem abordar as dívidas de ISS (Imposto Sobre Serviços).

 

O consultor também foi questionado pelo aQui se a briga judicial travada entre os herdeiros da Sul Fluminense – são quatro grupos de herdeiros  – poderia ser um dos fatores da derrocada da empresa, afinal, como já diz o ditado, onde todos brigam, ninguém tem razão. Curiosamente, Daler garantiu que não há rixa (existem ações na Justiça, grifo nosso) entre os parentes.

 

Segundo ele, a crise tem outras explicações. “Atualmente as formas de transporte sofreram modificações. O ônibus não é mais a única alternativa barata para o usuário. Tem Uber, bicicletas e outros. Com isso, o faturamento não só da Sul Fluminense, mas de várias empresas de ônibus no Estado, caiu drasticamente”, explicou, afirmando que os ônibus recém comprados – 31 no total – representam a esperança da empresa voltar a crescer. É que, se não fizesse o investimento, certamente a Sul Fluminense perderia (e ainda pode perder) várias linhas municipais, inclusive as mais lucrativas.

 

Agora, enquanto espera por dias melhores, a Sul Fluminense tem de lidar com outra questão: a pressão que Samuca Silva impôs à empresa desde que assumiu o Palácio 17 de Julho. Nada fortuito, é claro. “Estamos cansados de ouvir tantas reclamações contra a empresa (Sul Fluminense)”, explica o prefeito, garantindo ainda que as vistorias também atingem outras empresas. A última foi na quarta, 27 de março. E o resultado, como o aQui noticiou, foi drástico para a Sul Fluminense. É que 11 ônibus foram retirados de circulação, muitos em péssimo estado de conservação. Também foram multados.

 

Para tentar resolver o problema político, a empresa decidiu renovar a frota e, em termos de marketing, dava a entender que tinha comprado ‘31 novos veículos’. Não é bem assim. Dos 31, nenhum é 0 km e quem escancarou a ‘fake’ (notícia) foi o próprio prefeito Samuca Silva. Segundo ele, os carros adquiridos pela Sul Fluminense (na capital) não seriam tão novos assim, como diziam os donos da empresa. Na verdade, como admitiu o consultor Miguel Daler, os 31 ônibus, que custaram a bagatela de R$ 6,5 milhões, são recauchutados (seminovos).

 

Daler fez questão de ressaltar na coletiva de imprensa, ao responder ao aQui, que os 31 ônibus em questão, comprados de empresas cariocas e financiados a perder de vista (a dívida total a ser paga, com juros etc, seria da ordem de R$ 12 milhões), embora não sejam 0 km, seriam ‘novos o suficiente’ para agradar a população, acalmar o coração (e a caneta, grifo nosso) de Samuca e ficar um bom tempo sem precisar de manutenção. “Preferimos comprar 31 ônibus seminovos a comprar apenas alguns saídos de fábricas. Além do que, os carros adquiridos têm apenas cinco anos, no máximo, de uso. Isso, para um ônibus, é muito pouco”, garantiu o consultor.

 

Até pode ser. Mas, segundo uma fonte do aQui, dos 31 veículos adquiridos pela Sul Fluminense alguns seriam mais antigos. Ou seja, teriam mais de cinco anos de uso. “Eles encostaram 15 veículos do ano de 2002”, destaca, como que tentando mostrar como era velha a frota  em uso. “O próprio prefeito (Samuca) chegou a dizer que quando nasceu, esses ônibus já estavam circulando”, ironizou.     

 

Apesar de tudo, segundo Daler, os ‘novos ônibus’ que vão rodar nas linhas municipais – as que apresentam maior reclamação – estariam de acordo com a legislação vigente e, claro, com as exigências de Samuca Silva. “Sabemos que o prefeito andou cobrando a empresa publicamente. Ele faz o mesmo em nossas reuniões. E ele está sempre certo. Mas temos certeza que esses novos ônibus vão agradar. Todos têm Wi-Fi, são adaptados para cadeirantes e equipados com ar condicionado”, enumerou o consultor, confiante.

 

O otimismo da Sul Fluminense não é compartilhado nem por todos os sócios. Um deles, inclusive, garantiu que não é só a Viação Sul Fluminense que está em dívida com a população. Segundo ela, o prefeito, que defende o uso de transporte alternativo, tendo sancionado o uso de aplicativos, já havia sinalizado aos representantes da empresa a intenção de criar meios para tornar o transporte público mais atrativo aos usuários. “Ele [prefeito] disse já há um tempo que gostaria de retirar os estacionamentos da via principal do Retiro, como fez na Amaral Peixoto, induzindo as pessoas a deixarem o carro em casa e usarem ônibus. Mas até hoje nada”, lamenta.

 

Ela vai além. Lembra que a Sul Fluminense já havia alertado ao prefeito sobre as condições precárias das ruas pelas quais os ônibus trafegam. “O que adianta colocar ônibus novo, zero quilômetro, rodando nessas ruas totalmente esburacadas? Não há veículo que aguente. Vão estar sempre precisando de manutenção, já que nem os motoristas ajudam na hora de dirigir”, avaliou.

 

Outro assunto tratado na coletiva de imprensa foi a polêmica da dupla função que alguns motoristas precisam desempenhar, ou seja, enquanto dirigem precisam receber a passagem dos usuários e dar troco. Sobre a questão, o consultor da Viação Sul Fluminense foi taxativo. Disse que cobradores são investimentos caros e que o futuro não prevê a existência dessa função. “Se por acaso uma lei proibir a dupla função do motorista em Volta Redonda, vamos preservar os cobradores. Mas não é essa a tendência”, avalia Daler.

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