Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 26 de Março de 2019
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Publicado em 11/03/19, às 09:48

‘Machismo e racismo’

Por Vinicius Oliveira

“Me solta! Você está me machucando…”, disse ela, já nervosa. 
                 “Não solto. É você quem está se machucando…”, retrucou o homem,  transtornado. 
“Eu quero ir embora para minha casa”, suplicou a mulher, sentindo o pânico invadindo o peito. 
                “Você não vai!”, determinou o ‘machão’.
“Socorro! Socorro!…”, gritou a mulher para a escuridão. 
                “Você é louca!”, finalizou ele, já com as duas mãos sobre ela.

A discussão acima são trechos de uma gravação feita no último domingo, 3, em Volta Redonda. A mulher em questão estava dentro do carro com o namorado. Era madrugada. Não tinha testemunhas. As únicas provas da agressão são os áudios que conseguiu gravar pelo WhatsApp, sem que o homem percebesse, e as marcas roxas espalhadas pelo corpo, que latejam na alma. Envergonhada por ter sido obrigada a gritar pela vida e por ter se permitido passar meses ao lado de um psicopata, a mulher pediu para não ter seu nome nem rosto revelados, mas fez questão de contar sua história para que outras, de alguma forma, consigam se defender ou evitar o pior. 
A vítima conta que o agressor a prendeu no carro com o cinto de segurança e sempre que ela tentava se desvencilhar, ele a segurava, quase que subindo nela. “Ele não queria me deixar sair. Ficava gritando que eu era maluca, que eu mesma estava me machucando por tentar fugir. Ele dizia o tempo todo que não me deixaria sair. Em dado momento, na escuridão, achei que morreria. Que ele ia me matar e jogar o meu corpo no rio. Foi quando decidi gritar por socorro”, contou, lembrando-se dos safanões e mordidas que levou. 
“Ele estava drogado. Totalmente transtornado”, continuou a mulher. “Eu escondi meu celular dentro da bolsa e comecei a gravar. Num momento, para que ele permitisse que eu abrisse a porta e saísse, joguei a bolsa pela janela. Mas nem assim. Ele me prendia cada vez mais forte. Felizmente alguém me ouviu e apareceu. Só assim ele se acalmou. Se a pessoa não tivesse aparecido, acho que estaria morta agora”, contou. 
Foram horas de angústia e terror, mas definitivamente a voltarredondense teve sorte. Embora ela tenha marcas que a acompanharão para sempre, mesmo depois dos hematomas sumirem da pele, sua vida foi mantida, ao contrário do que acontece com tantas outras. Segundo dados recentes da Organização das Nações Unidas (ONU), um número absurdo de mulheres são agredidas e mortas todos os dias, fazendo do Brasil o quinto país no ranking do feminicídio.   
Pior. O Atlas da Violência 2018 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta uma possível relação entre machismo e racismo, assinalando que a taxa de assassinatos que vitimaram mulheres negras cresceu 15,4% na década encerrada em 2016. Ao todo, a média nacional, no período, foi de 4,5 assassinatos a cada 100 mil mulheres, sendo que a de mulheres negras foi de 5,3 e a de mulheres não negras foi de 3,1. Já neste ano, até fevereiro, foram reveladas pela imprensa 21 mortes e 11 tentativas de assas-sinatos contra mulheres. 
O termo feminicídio, usado para classificar a discriminação à condição de mulher – que parte geralmente dos homens –, é usado há pouco tempo no país. Os corretores ortográficos de aparelhos tecnológicos pouco antigos nem reconhecem sua grafia, mas esse tipo de crime já faz vítimas há milhares de anos. Nos últimos meses, no entanto, os casos de feminicídio parecem que explodiram como uma bomba relógio. Nem o fato de ser enquadrado como crime hediondo desde 2015 inibe a fúria assassina dos agressores, que continuam avançando em direção às vítimas. 
O caso mais emblemá-tico aconteceu no mês passado, na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio de Janeiro. Não terminou em morte por puro milagre. Elaine Caparróz, 55, foi espancada durante quatro horas pelo advogado Vinícius Batista Serra, 27, com quem havia se encontrado pela primeira vez na noite do crime após meses de conversa através das redes sociais. O agressor foi preso em flagrante, depois que os vizinhos ouviram pedidos de socorro e chamaram a polícia. O apartamento revirado da vítima e as manchas vivas de sangue espalhadas pelo piso, móveis e paredes dão a dimensão da violência que se passou no local. 
Mas casos como estes não acontecem apenas nos grandes centros. Muito pelo contrário. No interior, os números do feminicídio são ainda maiores, mas, segundo informações extraoficiais de Organizações Não Governa-mentais que tratam do assunto, os casos em cidades pequenas são subnotificados. Os agres-sores usam as convenções sociais que calam as vozes das vítimas para esconder seus crimes. Contudo, alguns acabam sendo conhecidos. Mas, infelizmente, na maioria das vezes quando o público toma conhecimento de que sua vizinha, amiga ou uma conhecida qualquer são espancadas, já é tarde demais. 
Foi o que aconteceu, por exemplo, em Barra Mansa no mês de fevereiro. Luana da Silva da Cunha, de 35 anos, teve de ser internada às pressas após ser atacada a pauladas. A arma do crime foi um soquete de madeira. O criminoso, segundo testemunhas próximas à vítima, seria seu ex-namorado, Paulo Roberto Lopes da Silva, de 30 anos, por não se conformar com o fim do relacionamento. Depois de dias foragido, a Polícia finalmente encontrou o suspeito, que foi preso e levado para a cadeia pública de Volta Redonda, no Roma. De acordo com informações do próprio Hospital São João Batista para onde a vítima fora encaminhada, a surra foi tão grande que Luana chegou inconsciente. 
Um mês antes, Estefani Gomes Tagnochi, 19, foi agredida pelo namorado, no bairro Bracuhy, em Angra dos Reis. O menino, com apenas 17 anos, pegou uma pá e desferiu os golpes acertando, principalmente, o rosto da jovem, que teve de ser internada e submetida a cirurgias de repa-ração facial. A família da vítima relata que o motivo do crime foi o mesmo de quase sempre: o agressor não aceitava o fim do namoro. 
Para a pedagoga Thaís Rodrigues Martins, integrante do setorial de Mulheres do Psol de Volta Redonda e estudiosa do feminicídio bem como de todas as questões que envolvem agressões contra mulheres, uma forma de diminuir ou, ao menos, minimizar as mortes provocadas pelo feminicídio seria, justamente, debatê-lo de forma ampla e sincera em todas as instâncias sociais. “O contexto atual aponta a necessidade de trazer o debate à sociedade sobre a violência crescente contra a mulher. O machismo mata todos os dias mulheres por sua condição de gênero. Isso tem um significado que pre-cisa ser debatido”, frisou. 
Thaís explica que o modelo estrutural cultural e social vigente é o grande responsável pelas mortes de mulheres no mundo, inclusive no Brasil. “Parte da sociedade, na figura dos homens, vê as mulheres como propriedade. Isso se estabelece em relações de desigualdade, discriminação e ódio. Os homens se consideram mais poderosos e as mulheres são sujeitadas às violências mais brutais, físicas e simbólicas. Todos os dias. Isso é sistemático até chegar à sua expressão mais fatal, que é o assassinato de mulheres neste contexto”, resumiu a pedagoga. 
Thais vai além. Explica que o termo feminicídio tem conotações específicas justamente para retirá-lo do hall dos crimes comuns de agressão. “É importante destacar que o feminicídio é uma alcunha para mostrar que esse não é um crime comum nem passional. É alimentado por uma visão construída cultural e historicamente. Podemos dizer que, entre outras, seu objetivo é responsabilizar o estado brasileiro por sua omis-são, mas, também, para dar visibilidade à existência dessas relações opressoras e criminosas e para ajudar a transformação de mentalidades”. 
A pedagoga diz ainda que só a lei do feminicídio não é, por si só, suficiente para transformar mentes e comportamentos tão arraigados na sociedade. Segundo ela, é preciso que o Estado ofereça debates de gênero, uma condição que assusta religiosos e conservadores de todos os cantos. “Diferente dos discursos majoritários, vindos principalmente das bancadas religiosas, dizendo que a discussão de gênero distorce a realidade e necessidade de uma sociedade harmônica, o debate precisa ser feito justamente para combater desde a origem esse tipo de violência e opressão. Inclusive, a lei sofreu alterações por pressão dos conservadores para a retirada da palavra ‘gênero’. O que é lamentável, porque essa palavra é justamente para explicar a origem da violência e ampara ações do Estado no combate à violência desde a sua origem”, criticou. 
Thaís lembra que as mulheres negras são os principais alvos dos agressores. “As mulheres como um todo sofrem, mas de alguns setores sofrem mais ainda. Vale lembrar que, enquanto o número de morte de mulheres brancas permanece quase o mesmo, com pouco crescimento ao longo das décadas, o de mulheres negras cresceu impressionantes 15,4% entre 2010 e 2016, segundo o Atlas da Violência de 2018”, apontou.  
Para Thaís, os crimes provocados pela discriminação ao gênero são totalmente evitáveis. E, quando acontecem, escancaram a ineficiência do Estado para cuidar de seus cidadãos e, neste caso em especial, de suas mulheres. “Essas mortes são consi-deradas evitáveis. Se chegam a acontecer é porque outras medidas falharam. Ou seja, a ação do Estado não evitou o feminicídio e aí entra a discussão de gênero e a necessidade de se pensar quais são outros instrumentos necessários para transformar a cultura do machismo e a lógica patriarcal que se reflete nas relações de poder que subordinam a mulher. É preciso que os debates de gênero estejam dentro das instâncias educacionais, na mídia, nas famílias e que o Estado o promova porque a discussão de gênero nos permite entender como se dá esse crime”, avaliou. 

Grávida é espancada e morre; bebê foi salvo

Por mais que os casos citados causem indignação, nenhum deles cala tanto à alma quanto a história da mulher grávida que morreu na madrugada de terça, em Barra Mansa. A vítima, Maria Edjane de Lima, de 35 anos, que deu entrada no Hospital da Mulher com sangramentos e sinais de espancamento um dia antes de morrer, estava grávida de 27 semanas. Chegou a dizer aos médicos e à Polícia que o marido, um homem de 45 anos, lhe atacou com pontapés, inclusive na barriga. O agressor, cujo nome ainda não foi divulgado, está solto. Chegou a ser encaminhado para prestar esclarecimentos na 90ª DP de Barra Mansa, mas foi liberado em seguida.
De acordo com informações do hospital, o espancamento forçou um parto prematuro e dele nasceu uma menininha. Logo em seguida, a mãe apresentou problemas respiratórios, descolamento de placenta e hemorragia intensa, e acabou morrendo. Ainda não há notícias do estado da criança e haverá uma investigação para determinar a causa da morte.
Vale lembrar que mais uma vez o socorro partiu de estranhos, geralmente dos vizinhos. Prova de que a velha máxima “em briga de marido e mulher não se mete a colher” está mais do que obsoleta, é um erro. Em caso de flagrante de violência, a testemunha pode chamar imediatamente a polícia pelo 190. Se souber de agressões constantes, mesmo que a própria vítima ainda não tenha denunciado, é possível alertar sobre o caso pelo Disque Mulher (180). Detalhe: pelo 180, não é aberta uma chamada de emergência e, portanto, a polícia não aparece imediatamente – só quando é acionada pelo 190.

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