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Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
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Publicado em 18/07/17, às 09:47

Hora de reinventar

Silvio Campos_COR

Pollyanna Xavier

Na terça, 11, a Reforma Trabalhista do governo Temer foi aprovada e com ela, para desespero de muitas sindicalistas, especialmente os que só vivem do ‘dia da viúva’, passou a regra do fim da obrigatoriedade da contribuição sindical. A mudança pode quebrar a “espinha dorsal” de grande parte dos sindicatos existentes na região. Os que conseguirem sobreviver, por exemplo, terão que se reinventar e buscar um novo modelo de gestão.

 

Em entrevista exclusiva ao aQui, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos – um dos maiores e mais importantes da região –, Silvio Campos, falou sobre o fim da obrigatoriedade do imposto sindical e disse o que pretende fazer para evitar o estrangulamento financeiro da instituição. “Teremos que nos reinventar, criando novas políticas e linguagem de convencimento; associar o maior número de possível de trabalhadores para mostrar ações voltadas para adquirir vantagens e benefícios para que o trabalhador perceba que sem o sindicato não se consegue”, comentou.

 

Para Silvio, a maior dificuldade será negociar os acordos coletivos dos trabalhadores da CSN, entre outros. Isto porque a nova regra tirou o poder de discussão dos Sindicatos e transferiu para o indivíduo a negociação dos contratos de trabalho. Em outras palavras, a Reforma Trabalhista limitou, de forma severa, o acesso do operário à Justiça do Trabalho. Sobre isto, Silvio é enfático: “Não temos dúvida que os acordos (da CSN) serão ainda mais difíceis já que a flexibilização das leis do trabalho fragiliza ainda mais os trabalhadores. É por isto que teremos que nos reinventar”, reforçou.

 

Nesta entrevista, Silvio Campos fala da expectativa de gestão daqui para frente e sinaliza os rumos que o Sindicato deverá tomar para se manter de pé. Confira!

aQui –  A Reforma Trabalhista prevê o fim da obrigatoriedade do imposto sindical. Com esta mudança, o Sindicato dos Metalúrgicos deverá se adaptar e encontrar um novo formato de gestão. O que o senhor pretende fazer para que a receita do Sindicato não caia ou pelo menos se mantenha num patamar que garanta a sua sobrevivência?

Silvio Campos – Teremos que nos reinventar, criando novas políticas e linguagem de convencimento; associar o maior número possível de trabalhadores para mostrar ações voltadas para adquirir vantagens e benefícios para que o trabalhador perceba que sem o sindicato não consegue. Teremos que enfrentar o desafio de fortalecer ainda mais a luta já que o capital mais flexível terá mais lucro. Não há patrão bonzinho e sabemos disso. Vamos continuar enfrentando a correlação de forças, nem que seja acirrando, de forma mais radical, nossas armas que são as greves para superar a pressão das empresas. Para que não tenha a sua dignidade ainda mais prejudicada, o trabalhador vai precisar entender a importância da existência do seu sindicato. Mas ainda haverá um estudo por parte do governo de extinção gradual da contribuição sindical obrigatória, que, segundo eles, será de forma a assegurar o planejamento financeiro e o adequado funcionamento das entidades sindicais e patronais. A ideia é a extinção gradual e escalonada.

 

aQui –  É provável que esta mudança acarrete na extinção de sindicatos “menos representativos” (o que não é o caso do Sindicato dos Metalúrgicos). Na opinião do senhor, qual sindicato corre o risco de desaparecer?

Silvio – Não podemos afirmar com certeza. Mas podemos arriscar dizendo que os sindicatos considerados “cartoriais” serão os mais atingidos, aqueles que intermediam interesses de patrões e trabalhadores só para manter estruturas de dirigentes que se perpetuam nos cargos. Desde 1988 os sindicatos ganharam o direito à liberdade sindical para não prestar contas à sociedade da receita com a taxação obrigatória, o imposto sindical.

 

aQui – Atualmente o Sindicato dos Metalúrgicos mantém parcerias com diversas entidades de ensino e de lazer, entre outras. Como o senhor pretende expandir estas parcerias?

Silvio – Achamos que, nesse aspecto, nada muda. Da mesma forma que já fazemos hoje, buscamos essas parcerias para proporcionar aos nossos associados alguns descontos e vantagens, que interessam tanto aos trabalhadores, que são consumidores, quanto aos nossos parceiros, que são empresas que sofrem concorrência no mercado e que precisam aumentar suas vendas. Vai ser preciso intensificar mais essa prática.

 

aQui – O senhor acredita que este “estrangulamento” do financiamento dos sindicatos  prejudique as futuras negociações para renovação de acordos coletivos? Por quê?

Silvio – As reformas propostas pelo governo Temer têm exatamente esta finalidade, a de enfraquecer as lutas dos trabalhadores por melhores salários e condições de trabalho. Eles querem acabar justamente com os direitos dos trabalhadores e a organização da classe trabalhadora, justamente para fragilizar os movimentos que atuam no sentido de defender e lutar por direitos e mais equilíbrio na relação entre capital e trabalho.

 

aQui –  Hoje, o jurídico do Sindicato dos Metalúrgicos tem lutado para que mais e mais operários saiam vitoriosos em processos trabalhistas, como Hora da Refeição, PLR, dentre outros. Este é um diferencial que o senhor pretende explorar para garantir a filiação de novos associados ou pelo menos a manutenção dos atuais?

Silvio – Isso já é o papel que o sindicato cumpre. O que podemos fazer é aumentar as demandas de atendimento, como atuar em áreas do direito civil, direito do consumidor, vara de família, entre outros, que poderão ser introduzidos na vida dos trabalhadores metalúrgicos.

 

aQui – A Reforma Trabalhista tirou o poder de negociação dos Sindicatos e transferiu para o indivíduo a negociação dos contratos de trabalho. De uma forma geral, ela limitou severamente o acesso à Justiça do Trabalho. Como o Sindicato pode driblar isto?

Silvio – Ainda temos a esperança que haja mudança em pontos do projeto que foram objeto de discussão e acordo na base do governo quando a matéria estava em discussão no Senado, como o trabalho intermitente, jornada 12×36, salvaguardas à participação sindical na negociação coletiva, gestantes e lactantes, insalubridade e negociação coletiva, dano extrapatrimonial, autônomo em trabalho exclusivo, e contribuição sindical. Caso contrário, teremos mais um desafio pela frente para garantir a dignidade. Não vejo outra saída se não a ofensiva no enfrentamento.

 

aQui – A CSN sempre foi uma empresa difícil e morosa na hora de negociar os acordos coletivos. O que o senhor espera daqui para frente?

Silvio – Não temos dúvidas que os acordos serão ainda mais difíceis já que a flexibilização das leis do trabalho fragiliza ainda mais os trabalhadores. É por isso que digo que os sindicatos terão que se reinventar. Ou seja, terão que buscar estar ainda mais próximos dos trabalhadores para fortalecer a luta. Essa reforma faz com o capitalismo fique mais selvagem para a classe trabalhadora e seus valores sobre a qualidade de vida e, sobretudo, a própria vida sejam superados pelo lucro incessante e sem limites. Os sindicatos que sobreviverem terão o papel essencial para essas garantias.

 

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