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Terça-Feira, 17 de Julho de 2018
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Publicado em 26/03/18, às 08:35

‘Histórias de Princesas’

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Roberto Marinho

A epidemia moralizadora que envolve o Brasil colocou Volta Redonda em foco na mídia nacional e até internacional. Pior. Foi por motivos nada nobres: a proibição de um livro de contos africanos, que tem princesas negras como protagonistas. Na obra, elas são tradição ketu e representam Oxum, Oiá, Ajê Xalugá, Olocum, Oduduá e Iemanjá – todas entidades femininas das religiões afro-brasileiras. O fato ocorreu na escola mantida pelo Sesi, no Aterrado.

 

Tudo começou quando alguns pais reclamaram do que consideraram uma censura, e a direção da unidade prontamente enviou um comunicado a todos prometendo apresentar outro título para substituir o livro “Omo-Oba: Histórias de Princesas (Mazza Edições, 2009)”, escrito pela professora Kiusam de Oliveira.

 

Inconformada com a decisão, uma das mães, que também é professora e cujos filhos são negros, colocou o comunicado da escola sobre o livro nas redes sociais, e rapidamente a postagem viralizou. “Sempre que me deparo com esse tipo de ques-tionamento, o sentimento é de perplexidade. Não falo apenas pelos meus filhos negros, mas para além da necessidade imediata da visibilidade afro-descendente, precisamos formar pessoas que se sensibilizem e busquem uma sociedade mais justa”, justificou Juliana Pereira de Carvalho.

 

A postagem foi feita no domingo, 18, e até ontem, sexta, 23, conta-bilizava mais de 3,5 mil curtidas e outros 5.996 compartilhamentos. O caso tomou uma proporção tão grande que, além de jornais da capital fluminense, veículos estrangeiros que atuam no Brasil, como The Intercept e El País, fizeram extensas matérias sobre o ocorrido, destacando o papel de Juliana na história.

 

Neste meio tempo, a Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, que gerencia a rede Sesi) desautorizou a unidade de Volta Redonda. “A Escola Sesi de Volta Redonda cometeu um erro ao anunciar livro opcional à obra”, justificou. Além disso, a Firjan afirmou que a direção do Sesi de Volta Redonda se reuniria com os pais e ainda faria um evento para tratar da questão ‘diversidade’.

 

A autora do livro, Kiusam Oliveira, que é professora da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e trabalha com formação de docentes há mais de 15 anos, conversou com exclusividade com o jornal aQui, e confirmou que virá a Volta Redonda, provavelmente em abril, a convite da direção estadual do Sesi, que entrou em contato com ela para se desculpar. “Eu aceitei a retratação, afirmando que os danos são irreparáveis, desde que o Sesi me levasse para o Rio de Janeiro, onde eu pudesse estar à frente de um processo de formação para os professores da rede, contar histórias para as crianças, e conversar com os pais”, disse ela, que completou: “E isso parece que vai acontecer em abril, em um grande evento que eles já tinham programado. Estou confiando que entrarei nessa programação, conforme foi combinado na tarde de ontem (segunda, 19), por telefone”, completou.

 

Kiusam – que é Doutora em Educação, Mestre em Psicologia, especialista em temáticas étnico-raciais, contadora de histórias e professora de danças afro-brasileiras – afirmou que o trabalho dela com formação de professores gerou uma grande rede de amigos, o que ajudou na repercussão do caso. “Eu trabalho com formação de professores há 15 anos, viajando o Brasil inteiro, e nestes 15 anos fiz muitas amizades, pautadas em um respeito profundo à dignidade humana. E quando isso acontece, do fundo do coração, reverbera. E é isto que está acontecendo, reverberando”, pontuou.

 

A autora ressaltou que o livro “Omo-Oba: Histórias de Princesas” foi escolhido após “um processo de seleção intenso” feito pelo Sesi, e que a decisão de substituir o livro foi tomada unicamente pela gestora da unidade Volta Redonda. “Equivocadamente”, avaliou. “O título foi escolhido como livro paradidático (complementar, grifo nosso) para 15 escolas da rede Sesi. Portanto, o que aconteceu foi algo à parte, independente de ter sido tocado, equivocadamente, por uma das gestoras, que acabou resolvendo do jeito dela uma situação de conflito, e acabou dando no que deu”, afirmou.

 

Kiusam garante que apesar da repercussão, ninguém da unidade do Sesi de Volta Redonda a teria procurado: “O que eu acho bastante preocupante, porque era o mínimo de decência em relação a tudo isso, não é? Isso não aconteceu (faz uma longa pausa), e aí eu temo de fato pelas vidas das crianças negras na mão de profissionais que não dão conta da diversidade”, avaliou.

Kiusam disse que a tentativa de substituir o livro – que tem como objetivo colocar princesas negras como protagonistas de histórias, dando uma referência para as crianças negras nos colégios – pode, na avaliação dela, colocar em xeque a própria LDB (Lei de Diretrizes e Bases), que rege o conteúdo do currículo escolar, e tem o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas como uma das suas diretrizes (leis 10.639/03 e 11.645/08).    

 

“Nesse sentido eu fico pensando que há um caminho muito árduo, muito duro, para formação de profissionais da Educação, até porque a LDB é que acaba sendo questionada, de uma forma que ela não é em outros casos. Esse é o grande problema: nós temos uma lei que as pessoas não dão conta de aplicar em sua essência”, aponta.  

Sesi: ‘Encaminhamento equivocado’

O gerente de Educação Básica do Sesi Rio, Giovanni Lima, conversou com o aQui e reconheceu que o encaminhamento da equipe em Volta Redonda teria sido equivocado, e que o livro Omo-Oba permanecerá sendo usado na escola e em todas as outras unidades do Sesi no estado. “Antes de tudo, devemos salientar que foi um encaminhamento equivocado, no qual, na escola, após o posicionamento de alguns pais que não se sentiram à vontade com o livro adotado, foi indicado que seria dada uma sugestão de um livro opcional, que tratasse do mesmo tema. Mesmo que a situação ficasse restrita ao ambiente escolar, este não é o procedimento orientado pelo Setor de Educação Básica e a situação seria: o único livro adotado para discussão do tema, junto a todos os alunos da série, permanece o mesmo, ou seja, Omo-Oba”.

 

O gerente de Educação Básica também afirmou que o livro foi adotado nas 14 escolas do Sesi no estado, e que “a única situação diferenciada” teria sido a de Volta Redonda. “Nem deveria ter acontecido, pois nunca foi cogitada a possibilidade de mudança do livro”, afirmou Giovanni, que confirmou que toda a direção do Sesi de Volta Redonda tinha conhecimento da nota enviada aos pais.

 

“Em reunião com a equipe, deixamos de forma mais clara que este procedimento, de oferecer opção ao livro paradidático adotado, não é condizente com nosso projeto pedagógico”, disse ele, pontuando: “O livro “Omo-Oba: Histórias de Princesas” será utilizado. Nunca se cogitou sua exclusão”, garantiu.

 

Giovanni também confirmou que a autora do livro, a professora Kiusam de Oliveira, foi convidada para participar de encontro sobre diversidade e multiculturalismo que será realizado na escola. “Em breve a escola promoverá um encontro para debate sobre diversidade e multiculturalismo com toda a comunidade escolar. Fizemos contato com a professora Kiusam no mesmo dia para esclarecer o equívoco, oportunidade em que foi feito um convite informal para que ela, dependendo de sua agenda, participe de ações ligadas ao tema na escola. Ela, de forma muito gentil, se disponibilizou, o que para nós é importante”, disse ele, reafirmando que nunca foi cogitada a exclusão da obra, “pelas inúmeras possibilidades de produção de conhecimento que a obra pode determinar”, complementou.

 

Paralelo ao debate, Juliana, a mãe que tornou pública a questão, segue recebendo os cumprimentos nas redes sociais por sua coragem e iniciativa de denunciar o que julgou ser discriminação. Uma das manchetes – de um jornal estrangeiro que atua no Brasil – dá uma ideia do impacto da atitude da jovem: “Mãe negra impede censura a livro de cultura africana no Sesi”.   

 

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