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Terça-Feira, 18 de Junho de 2019
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Publicado em 20/05/19, às 09:15

‘Gambiarra oficial’

Por Roberto Marinho

À primeira vista, parece tudo surreal no Residencial Girassol, um condomínio do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, no Jardim Cidade do Aço, em Volta Redonda. São seis blocos com um total de 96 apartamentos de dois quartos, onde vivem cerca de 400 pessoas. Muitas não estão nem aí para uma espécie de ‘aranha’ de aço, que é formada por enormes treliças de ferro que servem de sustentação para as paredes dos prédios (ver foto). A impressão que se tem é que foram colocadas para manter tudo bem firme, evitando que o prédio vá abaixo. “É a Muzema do aço”, ironizou um dos moradores, referindo-se ao risco de desabarem como aconteceu recentemente em um dos bairros do Rio de Janeiro.
Ele pode ter razão. É que a ‘aranha de aço’ foi feita justamente para ‘impedir’ que o prédio caia. O perigo de um desabamento foi o que levou alguns moradores, assustados com a ‘gambiarra’ a procurar o jornal para denunciar a existência de rachaduras em alguns apartamentos. “Nunca mais entro lá”, desabafou um deles que, não tendo para onde ir, continua morando no Residencial Girassol. Outros, entretanto, apesar de reclamarem da constante falta de água no condomínio, não estão nem aí para o que um arquiteto procurado pelo aQui batizou de ‘decoração’: a armação que sustenta as paredes de um dos edifícios do Jardim Cidade do Aço.
Segundo informações obtidas pelo aQui, junto a uma fonte ligada à Casaviva, construtora responsável pela obra, que estava sob responsabilidade da Caixa Econômica Federal, a ‘aranha de aço’ foi a solução encontrada para impedir, tecnicamente, o desmoronamento do edifício da foto. Detalhe: a empresa, pertence ao empresário Rafael Capobiango, dono de uma das maiores lojas de material de construção em Volta Redonda. E assessor especial do Palácio 17 de Julho. Samuca, antes que seja criticado pelos seus adversários, não tem nada com a obra. Muito menos com a gambiarra, que foi aprovada pela Caixa Econômica Federal.
Problemas
De acordo com a fonte, a obra do Residencial Girassol nasceu, em 2010, cercada de problemas. “Até onde sei, até o terreno do condomínio teve problemas de titularidade”, disparou, garantindo, contudo, que a gambiarra de aço teria tido o aval da própria Caixa Econômica Federal (ver box). “A obra tem RGI (Registro Geral de Imóveis), e como a Caixa é bastante exigente em relação à titularidade dos imóveis que negocia, acho que tudo foi resolvido”, diz ela, pedindo para não ser identificada.
Sobre o reforço na estrutura do prédio (a ‘aranha de aço’), a fonte garante que as treliças foram feitas para garantir a estabilidade do mesmo, que foi construído em estrutura metálica. “O peso dos moradores (com a ocupação dos apartamentos), dos móveis e tudo mais, ajuda a estabilizar a construção. Mas, uma mudança no projeto da caixa d’água do edifício (previa apenas uma caixa de água) pode ter prejudicado a estabilidade da estrutura, diz ela, informando que cada apartamento passou a ter seu próprio reservatório (caixa) de água. “Não há problemas de fundação no prédio (do Residencial Girassol), nada disso”, jurou.
Segundo a fonte, a estrutura metálica usada para escorar os blocos de apartamentos teria sido calculada para que o prédio não ‘balançasse’. “Não quer dizer que vai cair; é um movimento natural, normal”, garantiu. “A construtora anterior, ou a Caixa Econômica, resolveu mudar o projeto do residencial, que previa um único reservatório de água, bem grande, no alto de cada bloco de apartamento, para um sistema de abastecimento contínuo, direto do castelo de água do condomínio”, acrescentou.
Isso, no entanto, teria gerado muitos problemas em outros prédios do ‘Minha Casa, Minha Vida’, de Três Poços, para ser exato, onde o problema foi detectado e a solução encontrada – “uma modificação substancial”, afirmou – foi a construção de mais um castelo d’água. Obra que, inclusive, ficou a cargo da mesma Casaviva, sob contrato com a Caixa Econômica. “A falta do reservatório no alto do prédio do Jardim Cidade do Aço, cujo peso também ajudaria a estabilizar a construção, e o tempo que a obra ficou parada – cerca de sete anos – poderia gerar um movimento anormal na estrutura metálica. Por isso, depois de um estudo criterioso, quando outras opções foram analisadas, decidiu-se por instalar os reforços de metal, os contraventos”, dispara. “Na engenharia civil, isso significa estabilizar uma obra contra a ação do vento”, detalha.
Tem mais. Ela destaca que o procedimento da Casaviva foi feito de comum acordo com a Caixa Econômica. “Tudo foi feito junto com a Caixa, que verificou todo o processo. A construtora deu a sugestão do reforço (colocação da ‘aranha de aço’), e ganhou a anuência da Caixa”, aponta, dando outro detalhe da obra: “A construtora e a Caixa teriam optado por instalar reservatórios individuais de mil litros para cada apartamento”. Que é insuficiente para atender à demanda dos moradores do Residencial Girassol.

Com aval
Questionada pelo aQui, a Caixa Econômica Federal enviou uma nota reconhecendo os problemas estruturais da obra no Residencial Girassol. No entanto, de acordo com o banco estatal, a solução encontrada teria sido satisfatória. “A Caixa informa que o empreendimento Jardim Cidade do Aço foi retomado pela empresa Casaviva Construção Civil e Incorporações Eireli, que executou reforços estruturais para solução do problema identificado e concluiu a obra, entregue em 20/12/2017. Desde então, a Caixa não tem conhecimento de outros problemas na estrutura das edificações”, informa o banco, que afirma também que o empreendimento está regularizado.
A CEF também informa que mantém o programa ‘De Olho na Qualidade’, um canal exclusivo para recebimento de reclamações e sugestões (0800 721 6268), para auxiliar os clientes a obterem, junto à construtora, os “reparos devidos nos imóveis nos casos cabíveis”.

Nota da redação: O empresário Rafael Capobiango foi procurado pelo aQui e chegou a manter contato com a reportagem para falar da obra do Residencial Girassol. Depois, prometeu indicar alguém para falar por ele. E, ao procurar por ele novamente, o jornal foi informado que o mesmo estaria viajando.

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