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Terça-Feira, 23 de Abril de 2019
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Publicado em 01/04/19, às 09:19

Espiões de araque

Ao longo das últimas décadas, o Palácio 17 de Julho sempre teve, apesar de alguns percalços, bons comandantes à frente da Guarda Municipal. Foi assim com o popular tenente Marcílio Dias, no governo Gotardo; e o nada popular major Luiz Henrique, no governo Neto. Os dois tinham a tropa sob controle e tudo o que acontecia na cidade do aço chegava ao conhecimento deles. Inclusive o que não era oficial. “A GM sempre teve um serviço de arapongas a serviço do prefeito”, confessa uma fonte com trânsito no Palácio 17 de Julho.
Eles tinham algo a mais. Foram escolhidos a dedo pelo próprio chefe do Poder Executivo. O que já não aconteceu com o prefeito Samuca Silva que, por força de uma nova lei federal, não pôde escolher o comandante da sua Guarda Municipal. Ele foi obrigado a optar por um dos três nomes de uma lista que lhe foi apresentada pelos GMs, logo após a sua posse. E acabou escolhendo o polêmico Paulo Dalbone. E deu no que deu.
Se não fosse por esse ‘pequeno grande’ detalhe, talvez Samuca não saísse atirando contra um pseudo fake, um internauta de pele e osso, nome e sobrenome, e que, revoltado com a morte de uma mulher, que diz ser sua sobrinha (ocorrida na noite de domingo, 24), usou as redes sociais para questionar e atacar a saúde pública de Volta Redonda. A jovem, identificada pelo jornal A Voz da Cidade como Janaina da Silva Mendes, 23 anos (foto), teria ficado internada 17 dias no Hospital do Retiro, onde acabou falecendo.
Mal informado pelos arapongas de plantão, Samuca foi levado a crer que a morte de Janaína seria mais um caso de fake news. E usou duas notas oficiais – uma da OS Mahatma Gandhi, que administra o Hospital do Retiro, outra da secretaria de Saúde – e ainda uma nota de esclarecimento, para atacar o internauta que levou o caso às redes sociais. Na terça, 26, duran-te entrevista ao Programa de Betinho Albertassi, na Rádio 88, Samuca chegou a dizer que levaria o caso das fake news à 93ª Delegacia de Polícia.
O que seria o fake, que não foi encontrado pelos arapongas de Dalbone, acabou facilmente identi-ficado pela equipe de reportagem do aQui. Trata-se de Julio Silva, que publicou o primeiro desabafo na sua página do Facebook na manhã de segunda, 25. Exatamente às 9h40min. “Mais uma vítima de descaso e da irresponsabilidade com a saúde de nossa cidade, perder uma paciente tão jovem, e dizer que o motivo foi falta de medicamento chega a ser crime, olha aí Prefeito Samuca a situação que está a sua cidade, quando eu a visitei no hospital municipal do retiro, a Dra me pediu pra levar remédios de casa por que no hospital não tinha, quando o estado dela agravou, o médico disse para recorrer a Deus em oração, por que o medicamento que a salvaria não seria usado por estar em falta no hospital, até quando Sr Prefeito Samuca Janaína vão ter que morrer pra essa pouca vergonha acabar, por favor, faça o seu papel e administre essa cidade”, desabafou, usando o linguajar dos internautas.
A postagem caiu como uma bomba, e atingiu tanto a OS Mahatma Gandhi, que administra o Hospital do Retiro, onde Janaina foi atendida, quanto o Palácio 17 de Julho. No final da tarde de segunda, 25, a OS e a prefeitura reagiram emitindo Notas Oficiais a respeito. E foram radicais. “LAMENTAVEL FAKE NEWS”, escreveram em letras garrafais, o que nas redes sociais quer dizer que estariam gritando para chamar atenção.
Pelo texto, que teria sido elaborado pela OS, deu para entender que tudo teria começado na noite de domingo, 24, quando a paciente, não identificada por eles, foi a óbito. “A Organização Social que administra o Hospital Munir Raful e a Secretaria Municipal de Saúde informam que no início da noite deste domingo, dia 24, veio a óbito uma paciente internada no CTI da unidade, em decorrência de complicações pulmonares causadas por doença de base grave. A paciente era portadora de uma forma agressiva da doença e (estava, grifo nosso) sendo acompanhada pelos médicos, seguindo protocolo de tratamento para o quadro clínico apresentado, inclusive sendo medicada. No entanto, infelizmente, ela não resistiu e faleceu”, informaram.
Ainda nesta nota, a OS e a secretaria de Saúde garantiram que seguiram todos os protocolos legais. “Sempre quando há um óbito no Hospital, e neste caso também, foi aberto pela OS que administra o HMMR, um procedimento interno para avaliar todos os procedimentos adotados pelos médicos. De forma independente a Secretaria de Saúde também abriu procedimento administrativo para apuração e confirmação dos fatos”, finalizaram.
Inconformados com o que entendiam ser uma manobra de adversários, a OS e a secretaria de Saúde de Volta Redonda voltaram à carga e emitiram uma segunda nota com o título garrafal de ‘LAMENTÁVEL FAKE NEWS’, onde lamentaram o ocorrido da jovem, que insistiam em não identificar. “A OS E SMS lamentam que pessoas inescrupulosas, não respeitam nem mesmo a dor da família, e sem qualquer referência médica, nem base científica, e com inverdades, tentam usar de um óbito num hospital público, para disseminar ódio através de mentiras e inverdades infundadas, com interesses escusos. À família, nossos sentimentos e a certeza de que o HMMR e a SMS estão prontos para receberem os parentes da paciente falecida para que, com base na total transparência, acompanhem de perto todos os procedimentos adotados”, escreveram.
Entre uma postagem e outra, o Palácio 17 de Julho liberou, através da sua secretaria de Comunicação, uma terceira nota de esclarecimento, assinada pelo médico Hugo Barcelos Baliza, diretor técnico, que transcrevemos abaixo, na íntegra:
“Referente às falsas denúncias veiculadas em redes sociais, versando sobre assuntos relativos ao falecimento de uma mulher com mais de 20 anos no Hospital Municipal Dr. Munir Raffur, esta Instituição esclarece que tais denúncias são absoluta-mente inverídicas.
Objetivando a transparência nos serviços prestados, bem como levar a população usuária dos serviços de saúde a veracidade dos fatos, a Associação, esclarece que a paciente procurou a Unidade, na data 09/03/2019, e foi internada, apresentando agravo da doença de base “Lúpus”.
Ressaltamos que a paciente foi transferida para UTI da Unidade em função da evolução do quadro, sendo prestada toda assistência, incluindo medicamentos, exames e outros.
Na data do dia 24/03/2019 a paciente foi a óbito as 18:35h com diagnóstico hemorragia alveolar difusa e anemia hemolítica.
Ressaltando que o sangramento alveolar é uma condição gravíssima, de alta letalidade e associada à gravidade da apresentação da doença. É um reflexo da agressividade da apresentação do LES neste caso, assim como a hemólise.
Deixamos a disposição para maiores esclarecimentos e dos órgãos fiscalizadores, para apresentação do Relatório da Revisão de óbito que já se encontra no hospital. Não podendo ser divulgado, em anexo a esta nota de esclarecimento, por questões éticas e legais”.
A postura das autoridades foi contestada pelo autor do desabafo original, o internauta Julio Silva, que não era nenhum fake. “Pessoas inescrupulosas? Inverdades? Eu sou o tio dela e eu fiz a publicação quando a visitei no CTI a Dra me pediu para levar remédios de casa por não ter no hospital, no domingo a família saiu pra comprar o medicamento por não ter no hospital e quando chegaram já a encontraram sem vida, e vocês vem falar de pessoas inescrupulosas? Que se faça uma investigação, procurem apurar realmente os fatos e se expliquem melhor assumindo talvez não a falta de profissionalismo da equipe médica, mas sim a falta de recursos para que possam fazer um bom trabalho. Façam-me o favor Sr”, desabafou.
Voltando ao tema da abertura da matéria, quando a GM sabia o que ocorria em cada canto da cidade do aço, desta vez os espiões da corporação deixaram o prefeito literalmente na mão. Tanto que Samuca, ao ser provocado a falar sobre o caso na entrevista semanal no Programa Fato Popular, pôs lenha na fogueira. “Então Júlio, por favor apareça, não se esconda atrás das redes socais. Os amigos do Júlio ali no perfil, por favor, entrem em contato que eu faço questão de ouvir o que ele colocou nas redes sociais”, disse, dando a entender que o internauta estaria fugindo da responsabilidade de assumir o que escreveu no Facebook.
Antes, Samuca chegou a fazer ameaças. “Nosso objetivo é não fugir das polêmicas. É fato que de forma geral temos muitas fake news, mentiras. A população tem que tomar cuidado com isso, temos as redes sociais e cada situação deve ser cuidadosamente verificada antes de tomar sua conclusão, esse é meu pedido. Nós todos estamos à disposição disso, homens públicos e não vai terminar. Mas eu fico preocupado onde isso vai parar, porque efetivamente quem perde muito é a população. Nesse caso específico, houve todo um tratamento à paciente Janaina, que chegou no dia 9 de março. Ela tinha uma doença grave já caracterizada, já tinha sido atendida e, inclusive, tido alta. Infelizmente veio a óbito. Então, um tal de Júlio nas redes sociais, acho que Júlio Silva, quero que ele apareça porque a sindicância quer ouvi-lo, inclusive se for caracterizado que ele não tinha tantos documentos nós vamos tomar medidas judiciais, inclusive boletim de ocorrência contra ele”, disse Samuca a Betinho Albertassi.
As postagens de Julio Silva foram feitas na segunda, 25; a entrevista de Samuca foi dada na manhã de terça, 26, e ainda nesse mesmo dia, por volta das 15 horas, o aQui conseguiu descobrir, em menos de cinco minutos de pesquisa, que o fake do Palácio não é fake. É Julio Silva, voltarredondense, amigo de vários políticos, como os vereadores Paulo Conrado e Rodrigo Furtado, a ex-vereadora América Tereza, o ex-vereador Luiz Soró etc. É amigo até da família do radialista Betinho Albertassi. Ou seja, não é um ilustre desconhecido. Nem é fake.

Versão oficial

Procurado para falar a respeito, o prefeito Samuca Silva pediu à sua secretaria de Comunicação Social que respondesse as perguntas que lhe foram enviadas pelo aQui. Do total de sete perguntas, o Palácio 17 de Julho limitou-se a, burocraticamente, informar que:
“Questões de FakeNews, trata-se de um comportamento nas redes sociais, cuja investigações cabe à justiça, sendo um tema, inclusive discutido de forma mais ampla no Supremo Tribunal Federal.
A OS que administra o HMMR, como sempre faz em situações de óbitos, nesse caso também abriu o procedimento interno para acompanhar o caso.
A SMS também, de forma independente, está acompanhado essas apurações da OS. Já ouviu inclusive a mãe, que é a parente direta da Janaina. De acordo com os registros da OS, não houve falta de medicamento. A paciente desde o início foi acompanhada pela equipe médica, mas ela tinha uma grave doença, não resistiu e infelizmente foi a óbito. Outras questões serão convidadas por esses procedimentos internos de apuração””.

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