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Domingo, 30 de Abril de 2017
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Publicado em 09/01/17, às 10:57

Escravas para turistas

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O Ministério Público Federal instaurou inquérito civil público para apurar a violação de direitos humanos, racismo e ao patrimônio histórico na programação turística da Fazenda Santa Eufrásia, localizada em Vassouras. A Fazenda, particular, é tombada desde 1970 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional do Rio de Janeiro (Ipanema-RJ). Para o MPF, a violação ao patrimônio histórico leva em consideração a finalidade do local em educação e reparação simbólica de violações de direitos perpetradas no local em tempos passados.

 

Segundo o MPF, o inquérito foi instaurado após uma reportagem publicada pelo site “The Intercept Brasil”, mostrando que na Fazenda Santa Eufrásia pessoas negras vestidas como escravas estariam servindo aos turistas que visitam o local, onde são recebidos pela proprietária Elizabeth Dolson, que também se veste com roupas de época, representando uma sinhá. De acordo com a reportagem, a proprietária teria dito que a situação praticada não configura como racismo e que, apesar de se vestir como uma sinhá, não subjuga suas ‘escravas’.

 

A justificativa, porém, não convenceu o procurador do MPF, Júlio Araújo. Autor do inquérito, o magistrado  encaminhou ofício à proprietária da fazenda pedindo que ela se manifeste acerca da reportagem do “The Intercept”. Além disso, Júlio  Araujo pediu a expedição de ofício ao Iphan solicitando que se manifeste sobre as questões relatadas na reportagem. O MPF deu um prazo de 15 dias para o envio das respostas.

 

Turistas podem ser escravocratas por um dia em fazenda “sem racismo”

Na reportagem do The Intercept Brasil  (https://theintercept.com/2016/12/06/turistas-podem-ser-escravocratas-por-um-dia-em-fazenda-sem-racismo/), a jornalista Cecília Olliveira mostrou que a fazenda Santa

 

Eufrásia, em Vassouras, construída na década de 1830 e tombada  pelo Iphan, estaria explorando um estranho turismo. Apesar do clima agradável e da natureza e arquitetura preservadas, o fascínio ali é a escravidão.

 

“Trajando roupas de época como se fosse uma sinhá-velha e acompanhada por mulheres negras vestidas como mucamas, a proprietária recebe os visitantes que pagam até R$ 65 para serem servidos à mesa pelas “escravas”. Não se sabe se consta a opção pacote premium, com direito ao tronco e chicotadas no lombo”, escreveu a Folha de São Paulo ao abordar o tema. 

 

 No texto publicado no site, a jornalista foi bem feliz ao retratar o lado bucólico da fazenda. “Campos verdejantes, clima agradável. A combinação seria perfeita para degustar um café e descansar em uma fazenda no Vale do Paraíba fluminense, não tivesse corrido ali tanto sangue. A região, enriquecida pela exploração de trabalho escravo nas fazendas cafeeiras, era conhecida também pela peculiar brutalidade com que os escravizados eram tratados. Hoje a economia na região ganhou um novo fôlego: está no mapa da cultura do Rio de Janeiro (estava, grifo nosso) explorando um turismo que naturaliza o racismo e a escravidão”, pontuou Cecília.  “Se você desejar ser servido por uma pessoa negra vestida como escrava em pleno 2016, você pode visitar, por exemplo, na Fazenda, em Vassouras, a única fazenda particular tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio”, continuou.

 

Ainda de acordo com a reportagem de Cecília, a partir de 1895, sete anos após a abolição da escravatura, a propriedade teve diversos donos até ser adquirida pelo Coronel Horácio José de Lemos, cujos descendentes são até hoje proprietários da fazenda. Os planos de restauração foram aprovados em 2013 e, atualmente, a fazenda recebe visitas diárias com agendamento,

 

“Racismo? Por causa de quê? Por que eu me visto de sinhá e tenho mucamas que se vestem de mucamas? Que isso! Não! Não faço nada racista aqui!”, as colocações foram dadas a Cecília por Elizabeth Dolson, uma das bisnetas do coronel Lemos e proprietária da Fazenda Santa Eufrásia, que recebe turistas em suas terras, como se fosse uma sinhá. Segundo a reportagem,  Elizabeth viveu em Chicago (EUA)  por 23 anos, onde trabalhava com turismo, e diz ter trazido de lá a ideia de encenar a escravidão, desconsiderando todo o debate sobre escravidão e raça feito nos EUA e Brasil. Ela tem ainda um empregado que se veste de mucamo e contrata – de acordo com a demanda – mulheres para se vestirem de mucamas. “É um empregado que mora aqui, que me ajuda, que se veste de mucamo também. Mas ele é branquinho! Então, a cor não tem nada a ver. Eu sou mais morena que esse empregado”,  justifica.

Reação

Diante da  repercussão da matéria, a Fazenda Santa Eufrásia foi retirada do Mapa da Cultura. A decisão foi tomada porque o “verbete [da Fazenda] está sendo associado a práticas das quais discordamos com veemência”, justificaram os representantes do Mapa da Cultura.

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