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Terça-Feira, 17 de Outubro de 2017
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Publicado em 12/06/17, às 08:40

‘Enterro dos ossos’

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Luiz Vieira

Na manhã de terça, 6, a pequena Micaela, de apenas 5 anos, estava surpresa com tanta agitação no bairro onde mora. Assim, tratou de perguntar o que estava acontecendo ao primeiro adulto que encontrou pela frente: “Vai ter festa aqui hoje?”. Paulo Groke, com quem ela iniciou a conversa, a surpreendeu com a resposta: “Não. Hoje dia é de enterrar os ossos”. É claro que Micaela não entendeu nada. Nã era para menos. 

 

O motivo que despertou a curiosidade da linda menina era a presença de dois oficiais de Justiça, advogados da CSN e da Associação de Moradores do Barreira Cravo, sem contar os curiosos, diretores e amigos de um clube de peladas (no bom sentido, é claro), além de poucos repórteres, dois do aQui e um do A Voz da Cidade. Todos aguardavam para testemunhar a ação de despejo do Ressaquinha, clube esportivo criado há mais de 30 anos e que, desde então, usava os campos de futebol de uma área da CSN.

 

O despejo, anunciado com exclusividade pelo aQui nas redes sociais na manhã de domingo, 3, só não surpreendeu os diretores do Ressaquinha, que foram informados na sexta, 1, que a ação movida pela CSN seria cumprida, por determinação do juiz André Aiex, da 6ª Vara Cível, às 11 horas de terça, 6. Antes do horário marcado, em clima de desânimo e melancolia, vários diretores do clube começaram a recolher móveis de uma pequena sala, a de troféus, e utensílios, que eram usados nos churrascos e festas de aniversários.

 

Até lâmpadas do salão da churrasqueira, da sala de troféus e dos banheiros, tanto o feminino quanto o masculino (que fedia muito, por sinal), foram retiradas, assim como vários fotografias, de tamanhos variados, de algumas das equipes que defenderam as cores do Ressaquinha. Chamou atenção quando foi retirada da parede a foto póstuma de um dos fundadores do clube, Paulo Roberto Coura.  

 

Duas dúvidas foram resolvida na hora, de comum acordo. A primeira com relação às duas traves do campo de peladas, que devem guardar milhares de gols feitos e perdidos ao longo das duas décadas. A solução no caso delas foi dada por um dos oficiais de Justiça: “A CSN vai ficar como depositária fiel”, disparou, proposta devidamente aceita pela jovem advogada da CSN. A segunda dúvida também teve um final feliz. Foi a da interdição da área, na divisa entre os campos do Ressaquinha e do Comdor (ver box).

 

Como todos estavam bem imbuídos de suas ações (cumprir e acatar uma determinação Judicial), ficou estabelecido ainda que a CSN poderia erguer uma cerca entre as áreas do Ressaquinha e do Comdor, afastando uma das traves do campo do Comdor – coisa de dois metros. Coube também aos diretores do clube despejado espalhar placas com o aviso de “interditado” em vários pontos do gramado do campo do Ressaquinha. Só esqueceram de combinar o que seria feito das duas ‘arquibancadas’ de madeira, que serviram para que as ‘ressaquetes’ pudessem vibrar com os gols dos seus craques veteranos.

O despejo

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Os dois oficiais de Justiça encarregados de executar a ação de despejo chegaram cedo, quase meia hora antes da hora marcada – 11 horas. E, desde logo, deixaram claro que não ficariam muito tempo à espera dos representantes da CSN. “Eles só vão esperar meia hora. Se não chegar ninguém da empresa, eles vão embora”, dizia a presidente da Associação de Moradores do Barreira Cravo, Nely Cleide Moreno da Costa. Eles não se atrasaram. Ou melhor, chegaram com um minuto de atraso. “Esperávamos por alguma manifestação, mas felizmente tudo foi tranquilo”, comentou o jornalista da CSN, Alexandre Campbell, referindo-se aos comentários de boa parte dos internautas que ficaram sabendo do despejo pela página do aQui no Facebook.

 

Ele estava certo, tanto que nenhum dos dois lados chegou a pedir ajuda ou interferência da Polícia Militar ou Guarda Municipal para garantir a ação de despejo. Duas viaturas, uma da PM, outra da GM, chegaram a estacionar em frente ao campo do Ressaquinha, mas os agentes só estavam indo buscar o ‘rango’ – marmitex servidos em uma pensão existente na rua principal do bairro.  

 

A cordialidade entre as partes foi marcante. “Nós não vamos mexer em nada. Não vamos destruir nada. Só estamos cumprindo uma ordem Judicial e a empresa está de portas abertas para negociar”, foi logo avisando um dos representantes da CSN. A advogada da empresa concordou com ele. Francisco, conhecido como Chicão, diretor financeiro, lembrou que na véspera (segunda, 5), o clube teria tentado reabrir as negociações com a direção da CSN, através do prefeito Samuca Silva. Segundo ele, o clube estaria disposto a apresentar outra proposta, melhor que a de pagar meio salário mínimo de aluguel, que já tinha sido sumariamente rejeitada pela CSN.

 

Aliás, conversando com um dos repórteres do aQui, a advogada, de um escritório de advocacia contratado pela CSN, confirmou a informação divulgada pelo jornal de que a proposta do Ressaquinha era mesmo de meio salário mínimo, o que não chega a R$ 500 por mês. “O caminho está aberto para uma nova negociação”, insistiu. A declaração foi suficiente para animar um pouco os diretores do Ressaquinha e da presidente da Associação de Moradores do bairro, que destacou a importância em se buscar um acordo amigável para que o clube pudesse manter a área de lazer. “Todos têm que ser compreensivos. Tem que ser bom para os dois lados”, avaliou, referindo-se à possível reabertura das negociações.

 

Enquanto os oficiais de Justiça e os representantes da CSN e do Ressaquinha conversavam, quem chegou foi o vereador Dinho, presidente da Câmara de Volta Redonda. Ele estava sem entender nada. “O que é que a CSN quer com isso?”, indagou o parlamentar ao encontrar-se com Paulo Groke, um dos peladeiros de carteirinha do Ressaquinha. Os dois conversaram cerca de 20 minutos, sem que ninguém da CSN se aproximasse deles.

 

Na conversa, Groke apresentou ao parlamentar uma proposta, que Dinho prometeu levar adiante. Passa pelo Ressaquinha assumir o pagamento do IPTU da área que utiliza, até que a CSN decida levar adiante o seu projeto de urbanização e investimento no bairro. “Aqui (disse ele, mostrando a área dos dois campos) deve ter uns 11 mil metros quadrados em uma área de um milhão de metros quadrados (do Aero Clube). Quanto a CSN paga de IPTU? Se for um milhão, por exemplo, 1% disso equivale a R$ 10 mil por ano. O Ressaquinha assumiria o compromisso de ficar pagando o IPTU da área que usa, é simples”, propôs.

 

Disposto a entrar no circuito para ajudar, Dinho revelou que fez contato com o Jurídico da CSN, em São Paulo, e propôs que Groke montasse uma comissão de diretores para tratar do assunto. “O Luiz Paulo (diretor) nos convidou a ir a São Paulo. Monte uma comissão e vamos até ele para acertar isso. Podemos procurar também o advogado da CSN, Egberto Bastos, pois este também se colocou à disposição para conversar, pontuou Dinho. 

 

Se todos se entenderem – e se, como frisou Nely, a proposta for boa para os dois lados -, a pequena Micaela, da abertura da matéria, poderá um dia participar de uma grande festa – a da reinauguração do campo do Ressaquinha em um terreno da CSN. Amém!

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