Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Quarta-Feira, 26 de Setembro de 2018
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Publicado em 24/04/18, às 09:15

Empresa-bomba

ACIDENTE_COR1

Em sã consciência, ninguém pode negar a importância da CSN para Volta Redonda. Emprega cerca de três mil trabalhadores diretos, outros quatro mil indiretos, administra quatro ativos diferentes só na cidade do aço – aço, cimento, energia e logística –, movimenta milhões na economia local e mantém firme seu braço social atendendo 1.550 crianças e adolescentes através da Escola Técnica Pandiá Calógeras e dos projetos da Fundação CSN. Apesar de todos esses números positivos, a matemática dos acidentes na Usina Presidente Vargas é pesada. Nos últimos 20 dias, por exemplo, a UPV registrou dois acidentes em áreas vitais para a usina: Alto Forno e Aciaria.

 

Os acidentes na CSN, teoricamente, são acompanhados por comissões de Sindicatos, e ainda por engenheiros e técnicos de segurança do trabalho da própria empresa. Mesmo assim, o saldo é preocupante. Em 2014, por exemplo, ocorreu uma morte na CSN; duas em 2015; e quatro em 2016. No ano passado, 178 acidentes foram registrados. A CSN, porém, contesta os números. Só admite duas mortes em 2015 e quatro em 2016. A morte de 2014, para ela, foi na CSN Porto Real. E de acordo com a empresa, em 2017 foram registrados 155 acidentes, uma queda de 22% frente a 2015, na média do setor siderúrgico.

 

No último acidente, registrado no início da noite de segunda, 16, ninguém se feriu, mas o estrondo que foi ouvido por moradores do entorno da usina e a fumaça que se formou nas proximidades do Alto Forno assustaram bastante. “Está explodindo tudo”, postou um dos moradores, alarmando quem não conhece a CSN.  “Quem estava por perto da usina pôde sentir um cheiro forte de benzol. E as labaredas de fogo, como se fossem de artifício comuns na passagem do ano, eram vistas até em Barra Mansa. 

 

Em nota, a CSN explicou que o acidente foi causado por uma falha mecânica em um dos quatro regeneradores do AF-3. Bombeiros da CSN e do Estado chegaram a ser acionados e as atividades no forno foram paralisadas até que os peritos concluíssem a perícia no equipamento. “(…) a operação está suspensa para reparos. A previsão é que tudo seja solucionado em questão de horas e a operação seja retomada normalmente”, informou a empresa. De fato, na manhã do dia seguinte o AF-3 já tinha voltado a funcionar e, de acordo com a CSN, a produção não foi afetada.

Outro acidente

Com apenas 20 dias de diferença, a CSN registrou outro acidente na usina. Foi no dia 27 de março, na Aciaria. Uma reação química teria provocado uma explosão e uma grande nuvem de fumaça assustou os trabalhadores da área. Moradores que passavam do lado de fora da usina no momento da explosão também ficaram assustados devido aos rolos de fumaça que tomaram conta do céu. Na ocasião, a CSN garantiu que não houve feridos, mas três funcionários da Aciaria foram levados ao hospital sem gravidade. Em nota, a empresa disse que apenas um funcionário teria sido socorrido, com queda de pressão.

 

Ao aQui, metalúrgicos da área da Aciaria contaram que uma tampa gigante do conversor chegou a se desprender com o impacto da explosão e que ainda teria ocorrido queda de energia na UPV. “Foi uma correria aqui dentro, porque a área ficou escura e a gente só conseguia ver fumaça. Ninguém sabia ao certo o que tinha acontecido e se tinha feridos no meio da fumaça. Foi um grande susto”, contou um metalúrgico da Aciaria, que pediu que seu nome não fosse divulgado. Na época, a CSN informou ter ocorrido “forte reação durante o carregamento de sucata do Conversor C da Aciaria de Aços Planos, o que provocou impacto sonoro e fuga de particulados pelo lanternim”.

 

O histórico de acidentes na Usina Presidente Vargas é preocupante. Principalmente quando envolve áreas vitais da empresa. O Alto Forno, por exemplo, já foi palco de outros acidentes graves, como o que ocorreu em 2006, quando o sistema coletor de pó do AF-3 ficou sobrecarregado e caiu. Uma parte foi ejetada para o alto e outra ficou pendurada, sob o risco de cair sobre os trabalhadores que estavam na área. Dez anos depois, em 2016, o AF-3 registrou um novo acidente, desta vez quando estava sendo religado. Um vazamento de gás teria provocado uma explosão e um trabalhador foi socorrido no Hospital Vita por ter inalado uma grande quantidade de fumaça. Em nota, a CSN falou dos problemas na retomada das operações do AF e admitiu vazamento de gás e fumaça do equipamento. Ela não informou, na época, que os dejetos do forno eram tóxicos.

 

Segundo o aQui apurou, o último semestre de 2015 e os primeiros seis meses de 2016 foram considerados os piores em termos de acidentes na UPV pós-privatização. Foram mais de sete ocorrências, com registro de mortes e feridos. O mais sério ocorreu na noite de 24 de março de 2016, com um incêndio de grandes proporções na linha de zincagem I. Cinco trabalhadores sofreram queimaduras graves e, mesmo socorridos no Vita e encaminhados para hospitais especializa-dos em queimaduras, no Rio, acabaram morrendo.

 

Até hoje não se sabe se as investigações deste acidente foram concluídas. Na época, o presidente do Sindicato, Silvio Campos, falou várias vezes que seria necessário aguardar a recuperação dos metalúr-gicos feridos para que os depoimentos fossem coletados. Infelizmente, isso nunca ocorreu. O que se sabe é que a tubulação de gás do setor de zin-cagem I explodiu, provocando o incêndio. As vítimas chegaram a ficar internadas 20, 30, 45 dias, mas não resistiram.  

Naquele ano, o Ministério Público do Trabalho já havia notificado a CSN, através de uma ação judicial com pedido de liminar, exigindo a adoção de medidas de segurança e saúde na Usina Presidente Vargas. A ação foi motivada justamente por conta dos acidentes com mortes ocorridos em 2015 e 2016. A liminar, pasmem, foi negada pela 1ª Vara do Trabalho, que mais tarde determinou que a CSN não fosse penalizada pelos acidentes ocorridos no interior da usina.

 

Sobre o acidente ocorrido na segunda, 16, o aQui tentou conversar com o diretor do Sindicato, José Eli que, segundo a assessoria de imprensa do órgão, é quem acompanha os acidentes ocorridos na CSN. Porém, ele não atendeu a ligação do repórter, nem respondeu às demandas enviadas para seu WhatsApp. Silvio Campos  também foi procurado, mas não atendeu ao telefonema do jornalista.

Tragédia

Na década de 1970, um grande acidente manchou a história da CSN por ter vitimado dezenas de metalúrgicos. O número de mortos só pôde ser contabilizado dias depois, com a comparação do ponto de trabalho e a reclamação das viúvas, que não viram seus maridos voltarem para casa. A tragédia ocorreu na antiga Aciaria. A panela de ferro gusa aquecido a mil graus virou sobre os operários que trabalhavam no setor. O piso estava molhado e o contato do gusa escaldante com as poças d’água provocaram uma explosão sem precedentes.

 

“Tudo foi pelos ares, inclusive o próprio teto da Aciaria. Não me lembro do total de vítimas, mas suponho que tenham sido mais de 40. Alguns corpos calcinados ficaram encrustados no ferro. Outros foram feridos por “gotas” de gusa projetadas na explosão”, contou o médico Rônel Mascarenhas, que na época era estudante de medicina e fazia residência no antigo Hospital da CSN – para onde os feridos foram levados.

 

Os muitos acidentes registrados na CSN – de 1953 pra cá – tiveram suas vítimas atendidas no antigo Hospital Siderúrgica, que depois passou para as mãos da Fugemss e hoje está entregue ao Vita de São Paulo, com ordem de despejo. As equipes médicas que (desde sempre) atuam no hospital cresceram com a própria unidade e – depois de tantos atendimentos mais complexos – formaram um patrimônio científico e uma expertise peculiar, que não existe na região. “O hospital é retaguarda para o acidente de trabalho na Usina Presidente Vargas, inclusive com experiência histórica em grandes sinistros”, destacou Rônel, diretor médico do Vita Volta Redonda.

 

Segundo ele, “a vantagem do Hospital da CSN em relação aos outros hospitais, no que diz respeito à assistência a acidentes de trabalho, é a cultura” que se construiu nos últimos 65 anos. “Há uma preocupação permanente em manter recursos de assistência prontos e à mão para qualquer eventualidade, como reserva estratégica de salas cirúrgicas, de leitos de UTI e mobilização de equipes médicas adicionais em curto espaço de tempo. Isto não se faz em pouco tempo. Leva tempo”, disse, explicando que toda a estrutura do hospital foi construída ao longo dos anos.

 

Sobre a desmobilização do Vita, Rônel Mascarenhas disse que o processo está difícil, e que “as partes envolvidas no caso já perceberam, claramente, o caos que se instalará com o fechamento do Hospital”. “Todos estamos em busca de uma saída. Esta deve existir”, acredita.

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