Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Sábado, 25 de Novembro de 2017
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Publicado em 30/10/17, às 08:25

De mão beijada, não!

Silvio Campos - P. Dimas (1)

Pollyanna Xavier

A reunião entre a CSN e o Sindicato dos Metalúrgicos para negociar a volta do turno de oito horas na Usina Presidente Vargas teve status de campanha salarial. O encontro foi na manhã de quinta, 26, no antigo Escritório Central, na Vila, e, embora o interesse da empresa na volta do turno seja iminente, a proposta não convenceu. “Recusamos”, resumiu Silvio, visivelmente decepcionado. “Não teve como esconder o estado de decepção dos nossos diretores. Todos nós tínhamos outra expectativa. Foi indecente”, definiu o líder sindical, que aguarda um novo convite da direção da CSN para voltar à mesa de negociação.

 

A proposta que a CSN ofereceu aos trabalhadores, de fato, não foi das melhores. Inicialmente, falou-se num abono de R$ 4 mil como compensação pela volta da jornada de oito horas. Mas o que a empresa propôs foi o pagamento de um abono de R$ 2.500,00, retalhado em três parcelas, sendo a primeira de R$ 1.000,00 a ser paga em até cinco dias úteis após a aprovação do acordo; a segunda de R$ 500,00 junto com o salário de maio de 2018; e a terceira e última parcela, no valor de R$ 1.000,00, no pagamento de novembro de 2018. Ou seja, daqui a um ano.

 

Junto à proposta do abono, a CSN prometeu conceder um descanso diário de uma hora, para intervalo de almoço, e garantiu que a alteração da jornada não vai acarretar demissões na empresa. “Isto é boato”, disse um dos representantes da CSN presentes à reunião. Segundo Silvio, uma das condicionantes para a continuidade das negociações é justamente a empregabilidade na UPV. “O Sindicato colocou isto na mesa e reafirmamos que para as negociações continuarem será preciso ter a garantia da empregabilidade do turno. Não aceitamos demissões nem durante e nem depois”, pontuou Silvio Campos.

 

Ainda sobre a proposta da CSN, além do pagamento do abono, a empresa prometeu que os operários do turno poderiam escolher a escala que desejam trabalhar – claro, dentro do que foi estabelecido por ela. Neste caso, eles poderiam optar pela escalas 4×1 – 4×1 – 4×2 – com folga de 80 horas. E os horários a serem cumpridos ficariam da seguinte maneira: 21h45min às 6 horas; 5h45min às 14 horas; 13h45min às 22 horas – todos com uma hora de intervalo para refeições. Se fosse aceito, o acordo do turno teria validade por dois anos.

 

Para Silvio, o valor do abono está muito aquém.  “É uma miséria”, avaliou, esperando que a CSN apresente um valor que compense a mudança de turno e que deixe o trabalhador  definir as escalas e os horários da nova jornada. “Para que as negociações continuem, será preciso ter a garantia de empregabilidade, a participação efetiva dos trabalhadores na escolha das escalas e horários e uma compensação financeira digna por parte da CSN, não essa miséria que estão oferecendo”, criticou.

 

Outra reivindicação é que a CSN melhore a alimentação servida aos trabalhadores e abra novos refeitórios na UPV. Segundo o aQui apurou, os refeitórios dentro da usina são distantes de algumas áreas, o que obriga o metalúrgico a fazer longas caminhadas para almoçar e, em seguida, retornar para seu setor de trabalho. “Não dá nem para descansar”, avaliou um deles, garantindo que, na maioria das vezes, uma hora de intervalo acaba sendo insuficiente para que se percorra o trajeto. “O refeitório perto da área vai permitir um melhor aproveitamento do intervalo para refeição”, analisou Silvio.

 

Sobre a nova proposta por parte da CSN, o aQui apurou que a empresa está avaliando a questão e deverá chamar o Sindicato para uma nova conversa, com uma oferta financeira melhor. A conferir.

O que diz a empresa?

Em nota à imprensa na quinta, 26, a CSN lamentou o fato de o Sindicato recusar a proposta na mesa de negociação. Lembrou a atual crise financeira e garante que a proposta está alinhada com a realidade do mercado. E que  a CSN é a única siderúrgica brasileira com a jornada de turno de seis horas. “Na verdade, todas as grandes empresas do Sul Fluminense trabalham em turno de 8 horas. Todas as empresas do ramo da siderurgia no Brasil trabalham em turno de 8 horas, sendo que algumas em turno de 12 horas. A própria CSN, em alguns setores, já trabalha em turno de 8 horas e todas as suas terceirizadas trabalham em turno de 8 horas”, comentou uma fonte.

 

Em entrevista ao aQui, a fonte diz que a CSN tem mantido diálogo com o Sindicato dos Metalúrgicos e que a volta do turno de 8 horas vai manter a competitividade da siderúrgica frente às concorrentes. “A empresa tem se baseado no cenário econômico nacional e da siderurgia no mundo. Para melhoria da produtividade, a implantação do turno de 8 horas é crucial para que a empresa mantenha a competitividade frente às suas concorrentes, que, em sua totalidade, adotam turnos de trabalho de 8 ou 12 horas”, explicou a fonte.

 

Ela entende que o turno de 8 horas “melhora a segurança do trabalho e reduz acidentes de trajeto nas trocas de turno”. Além disto, “aumenta o número de folgas, uma vez que a escala 4×1, 4×1, 4×2 (possível somente no turno de oito horas), permite folgar a cada 4 dias de trabalho. “Isso reduz a frequência de idas à empresa, possibilitando, inclusive, mais tempo para os estudos”, acredita a fonte.

 

Que é contestada. “Os horários propostos pela CSN não beneficiam, em nada, o trabalhador que estuda no período noturno. Pelo contrário. Se fosse no horário antigo, das 8 às 16 horas, das 16 às 0 horas e das 0 às 8 horas, aí sim dava pra estudar, porque perderia aula apenas em um horário, o que seria mais fácil repor”, crê. 

 

A fonte lamenta a postura do operário e lembra que o turno de 8 horas aumenta a produtividade da empresa e que “um dos grandes fatores de improdutividade é a diminuição da produção que ocorre durante as trocas de turno”. Para a fonte, a jornada estendida melhora ainda a gestão da empresa, “pois os encontros dos colaboradores com os gestores passam a ser mais frequentes, aumentando, assim as condições de treinamento”. “O que a empresa está propondo aos trabalhadores é a negociação, através do Sindicato de Classe, do turno de revezamento, no qual há o rodízio de horários, não havendo sobrecarga para nenhum trabalhador”, complementa a fonte.

Demissões

Sobre o temor do Sindicato de que a mudança do turno vai acarretar em demissões – de uma letra inteira, inclusive – a fonte diz que tudo não passa de especulação. “Não haverá demissões”, disparou. “Como a CSN tem um turn over natural, a ideia é aproveitar a parcela de trabalhadores que, porventura, não for utilizada após a implantação do turno de 8 horas, ao invés de contratar novos trabalhadores. É muito mais interessante a utilização desta mão de obra já qualificada do que ir buscar trabalhadores no mercado, os quais ainda terão que ser qualificados”, explicou.

 

Ela lembrou que, no passado, a CSN já praticava a jornada de 8 horas diárias e que o retorno do turno vai acarretar “apenas” uma hora a mais para o trabalhador, já que a outra hora refere-se ao intervalo da refeição. “De 2000 a 2008 a CSN trabalhou com o turno de 8 horas, o que se deu através de negociações com o Sindicato de Classe. Na mudança do turno de 6 para 8 horas, haverá o aumento de apenas uma hora de trabalho, uma vez que a outra hora de ‘acréscimo’ será destinada à descanso e alimentação”, avaliou.

Bispo

Com relação à tentativa de interferência de parte da Igreja Católica e do seu líder, o bispo Dom Francisco Biasin, nos assuntos relacionados à CSN, a fonte é objetiva. “A empresa há muito o considera (o bispo) como parte adversa e prefere não comentar seus movimentos.

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