Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 26 de Março de 2019
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Publicado em 01/03/19, às 18:30

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Educação em Volta Redonda virou sinônimo de polêmica. Se por um lado o prefeito  Samuca Silva tem recebido – e com razão – os louros por ter se organizado e liberado os kits e os uniformes escolares logo no início do ano letivo, além de inaugurar na terça, 12, a primeira creche do município funcionando 100% em tempo integral, por outro os professores reclamam, nos bastidores, é claro, da contratação da Editora Moderna, que ficou responsável pela elaboração de uma cartilha que eles terão que seguir.  

 

Alguns professores contam que os representantes da editora informaram que os quartos e quintos anos do ensino fundamental, bem como os anos finais (sexto ao nono ano), terão de seguir essa cartilha criada por eles, o que não teria agradado a todos. “Pelo que foi explicado, vamos trabalhar com livros ou apostilas previamente prontas, com textos e exercícios”, explicou uma professora, salientando que a polêmica se deu, principalmente, quando souberam como funcionariam os métodos de avaliação. “Os alunos serão submetidos a uma espécie de simulado com conteúdo trabalhado nesse livro. A questão é que os professores terão que redigir no sistema a questão do teste e a resposta de cada aluno”, contou.  

 

Tão logo a notícia foi dada, alguns professores começaram a questionar a contratação da empresa, relacionando o fato à briga que os profissionais da Educação travam na Justiça pelo pagamento do Plano de Cargos Carreiras e Salários. “O prefeito ainda não nos paga nem o piso salarial e nem garantiu um terço da carga horária para planejamento, alegando falta de dinheiro para contratar mais profissionais. Porém, ele tem dinheiro para contratar uma editora, vinda não sei de onde, com  conteúdos descontextualizados e ainda burocratiza mais o trabalho docente”, reclamou, negando-se a acreditar nas informações do Palácio 17 de Julho de que a questão do PCCS está bem próxima de um final feliz.

 

A secretária de Educação, Rita de Cássia, durante a inauguração da Arena Esportiva que contou com a presença do governador Wilson Witzel, garantiu que a contratação da Editora Moderna foi totalmente legal. “É claro que teve licitação. E posso dizer que a vinda da Editora só vai ajudar aos professores”, afiançou.  

 

Escola Militar e o ‘sumiço’ dos alunos 

O governo do Estado vem tentando desatar um ‘senhor nó’: o fechamento de escolas estaduais. Não é para menos. Levantamento feito pelo deputado estadual Flávio Serafine, de 2017, mostra que cerca de 200 escolas foram fechadas entre 2010 e 2015 no Rio de Janeiro. Volta Redonda está entre as cidades que engrossam a triste estatística. Na época, Serafine, Gláucio José e Nelson Gonçalves se uniram para tentar impedir o fechamento das escolas em Volta Redonda, mas seus esforços não foram suficientes. Desde então já fecharam as portas as escolas Acre (no Siderópolis) e Maranhão (no Eucaliptal). Motivo: não existiam alunos suficientes matriculados nessas duas escolas e, por isso, não havia razão para mantê-las de portões abertos. Os poucos estudantes foram remanejados para outras unidades.  

 

Além dessas duas, o Ciep Maria de Lourdes Giovanetti, mais conhecido como Ciep 403, localizado no Açude, esteve na berlinda. Por muito pouco não fechou seus portões para sempre. Embora fosse a única escola nas redondezas que oferecia o Ensino Médio, poucos alunos estavam matriculados até o fim do ano passado – 26 ao todo. O ex-governador Luiz Fernando Pezão já havia sinalizado a intenção de fechá-la. Desesperados, pais e integrantes da associação de moradores do bairro chegaram a protestar na frente do Ciep e foram parar na Alerj. Não adiantou. Os alunos tiveram que procurar outra escola e, se não fosse a decisão do governador Wilson Witzel de passar para as mãos dos Bombeiros a responsabilidade pelo espaço e pelo ensino, o Ciep 403 teria virado lenda. Agora, entrará para a história como o primeiro colégio militar do Rio de Janeiro. 

 

Mas para onde estão indo os alunos? Enquanto professores da rede pública, que cuidam do ensino básico, reclamam da superlotação, os do Ensino Médio enfrentam salas vazias e pátio às moscas. Então, se não faltam alunos, por que tantas escolas estaduais estão sendo fechadas por falta de matriculados? Para tentar responder a essa pergunta, o aQui conversou com a historiadora Juliana Pereira de Carvalho. 

 

Segundo a professora, que é diretora de Assuntos Educacionais do Sindicato dos Professores de Volta Redonda (Sepe-VR), os alunos são forçados pelo próprio sistema de matrícula criado pelo governo do estado a procurarem escolas mais distantes de suas casas. “Eu entendo que o fechamento das escolas é uma política pública em vigência que está sendo fechado como um acordo entre os governos. Todo o processo de matrícula é pensado para que o estado se beneficie em fechar as escolas periféricas e centralizar as opções nas escolas centrais de forma que a população se sinta participante desse processo”, disparou. 

 

Juliana explicou que pais e alunos acessam o site do governo na intenção de encontrar uma vaga nas escolas periféricas, próximas às suas casas, mas não as encontram no sistema. Sem registro de matrícula, a escola fica à mercê do facão do Estado. “Os critérios para o fechamento até a participação de Flávio Serafine eram obscuros”, defendeu, alegando que esta é uma forma de economia pensada pelo governo. 

 

A historiadora disse que fechar essas escolas periféricas, como foi o caso do Acre, do Maranhão e do próprio Ciep 403, causa danos irreparáveis aos alunos. “A Seeduc se baseia na LDB (lei de Diretrizes e Base) de modo a priorizar o ensino médio, no entanto, não leva em consideração as especificidades das comunidades em que atuam. Muitos que procuram essa escola são jovens e adultos que não tiveram oportunidade de estudar na idade certa e se veem com problemas de irem para outras escolas devido à distância e gastos”, disse Juliana. 

 

Outra explicação para o fato de os alunos abandonarem determinadas escolas da periferia, segundo a professora, seria a falta de investimento no local por parte do próprio governo. “Ao longo dos anos, assistimos no Açude, por exemplo, a carência de profissionais de todas as áreas, o que gera o esvaziamento e consequente diminuição dos recursos para manutenção e merenda uma vez que estes chegam às escolas por renda per capita. Ou seja, a escola com maior número de alunos possui maior verba, o que no caso dos Cieps s se torna insustentável. Como manter uma estrutura tão colossal com recursos irrisórios? Por isso se tornou inviável a recuperação desses espaços”, lamentou. 

 

Nota da redação

A secretaria de Comunicação Social do governo Samuca foi procurada para falar do caso. Apesar da importância do assunto, mais de três semanas se passaram e ninguém da pasta respondeu ao questionário enviado pelo jornal.

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