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Quarta-Feira, 26 de Julho de 2017
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Publicado em 24/10/16, às 11:18

Crise na segurança

Não é de hoje que a crise financeira que assola o Rio de Janeiro está refletindo na segurança pública das 92 cidades fluminenses. Os cofres públicos estão vazios e o repasse de recursos para as forças de segurança – em especial as polícias Civil e Militar –, diminuíram. Consequentemente, fez com que a criminalidade crescesse de forma assustadora. Pior. Fez até com que o mais longínquo secretário de Segurança Pública do Estado, José Mariano Beltrame, antecipasse sua saída, dez anos após ser efetivado no cargo. Ele pediu exoneração depois de um grande tiroteio na favela Pavão-Pavãozinho, na zona sul carioca.

 

Para o lugar de Beltrame foi nomeado Roberto Sá. Ex-subsecretário de Planejamento e Integração Operacional na gestão de Beltrame, ele se reuniu na segunda, 17, com o governador em exercício, Francisco Dornelles, o governador licenciado Pezão e o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. E anunciou ações que vai implantar para privilegiar o combate à criminalidade e a valorização do profissional. “Na nossa gestão, todas as ações irão convergir para a preservação da vida. Temos que fazer todos os esforços para diminuir a letalidade violenta. Controlar a criminalidade, trabalhar com muita dignidade para o nosso profissional de segurança pública, valorizando-o sempre que possível através de seus recursos materiais. A grande missão que pretendo desenvolver é valorizar o seu conhecimento”, prometeu.

 

Como não poderia ser diferente, a crise da falta de segurança chegou ao Sul Fluminense, em especial à cidade do aço, maior município da região, onde os próprios policiais já justificam o aumento da criminalidade à falta de repasses financeiros. Para se ter uma ideia, de janeiro a agosto desse ano, 194 voltarredondenses foram assaltados nas ruas de Volta Redonda. O número foi levantado pelo aQui junto aos dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. E pode ser pior, já que não foram contabilizados os roubos de aparelhos celular, que ocorreram 37 vezes durante o período.

 

Tem mais. Só nos primeiros oito meses de 2016, 45 pessoas foram assassinadas na cidade do aço. O número é superior aos de homicídios cometidos no ano de 2015, quando ocorreram 39 assassinatos. E o número ainda é maior, já que não foram contabilizadas, por exemplo, as mortes de Camilla Jenmily Botelho, 34, e Victor Hugo Aparecido Silvério, 20, assassinados na madrugada de terça, 18, em um apartamento no Condomínio do Ingá II, no Santa Cruz. De acordo com a PM, pelo menos 17 tiros foram disparados contra o casal, que foi surpreendido na cama. Ainda de acordo com a polícia, a porta do apartamento foi arrombada, mas nenhum morador deu qualquer informação temendo represália.

Confira abaixo os dados da segurança pública de janeiro a agosto desse ano

Homicídio doloso 45
Tentativa de homicídio 51
Estupro 29
Roubo a comércio 64
Roubo de carga 9
Roubo a transeunte 194
Roubo de celular 37
Furto de veículos 155

 

Vereadores reclamam da política de segurança pública

Foi preso na manhã de terça, 18, na Cidade de Deus, no Rio, Carlos Henrique Estrela Aguiar, o Kiko, 33. Ele é suspeito de matar o PM André de Jesus Silva, 36, que era de Volta Redonda. Kiko estava em uma casa com um adolescente e um homem. No local foram apreendidos drogas e um rádio transmissor. O suspeito estava junto com Enzo Henrique Salgueiro Vieira dos Santos, conhecido como ‘Big Big’, 18, que continua foragido e também é suspeito de participar do assassinato do PM André. O crime aconteceu no início do mês, durante um confronto na comunidade.

 

André estava na Polícia Militar há dois anos e trabalhava na comunidade Cidade de Deus, na Unidade de Polícia Pacificadora. Ele era morador do Eucaliptal e deixou mulher e um filho de sete anos. No dia do seu enterro, houve um cortejo pelas ruas da cidade do aço com carros da PM, de diversos batalhões e Unidades de Polícia Pacificadora, de familiares e amigos do policial. Os giroflex dos veículos policiais foram acionados. Policiais que estavam trabalhando pararam as viaturas e ligaram os giros e sirenes para também prestar homenagem ao colega.

 

Na sessão de segunda, 10, da Câmara de Volta Redonda, os vereadores repercutiram a morte do PM André de Jesus. América Tereza (PMDB) apresentou uma Moção de Pesar à família do policial e questionou, é claro, a ida de policiais de Volta Redonda – que ingressaram recentemente na corporação – para as Unidades de Polícia Pacificadora em favelas do Rio de Janeiro. “Como um policial do interior vai para uma favela do Rio? Qual treinamento ele teve pra isso? O projeto UPP é válido. Mas os policiais que lá estiverem devem ter experiência. Não podem colocar um policial, menino novo, sem experiência, num lugar assim”, criticou a vereadora.

 

O presidente da Câmara, Edson Quinto (PR), foi além. Criticou veementemente o governo do Estado. “Não existe política de segurança pública no estado do Rio de Janeiro”, bradou, ressaltando que vários parlamentares fizeram requerimentos ao comando da PM solicitando a transferência de policiais de Volta Redonda, que estão trabalhando no Rio, para o 28º Batalhão da PM. “Imagina só o policial que tem que fazer plantão na UPP? Imagina depois do assassinato desse policial? Como estão as famílias? É um momento muito difícil. Uma tragédia anunciada. É uma covardia as pessoas chegarem a uma favela sem treinamento necessário”, comentou.

 

Outro parlamentar que fez críticas à política de segurança do Rio de Janeiro foi Sidney Dinho (PEN), que é policial militar de carreira. O parlamentar lembrou que sempre quando acontece a morte de um policial em confronto, a secretaria de Segurança Pública anuncia posteriormente que o policiamento será reforçado na localidade. “A secretaria de Segurança não sabia que poderia acontecer isso? Claro que sabia. É uma covardia, uma omissão sem tamanho. Se já tivesse morrido algum filho de milionário, de um político renomado, as forças de segurança já teriam ido a esse lugar e resolvido o problema. Tem que ter uma ação efetiva. Não dá para entender que política de segurança está sendo adotada”, afirmou.

 

Dinho ainda criticou o fato do comandante da Polícia Militar não ter comparecido em Volta Redonda ao enterro de André de Jesus. Tem mais. Ainda criticou as organizações de Direitos Humanos, que, segundo ele, nunca se posicionam a favor dos policiais. “Cadê o pessoal dos Direitos Humanos? O policial é um ser humano como outro qualquer, tem família, filhos. Quando um PM erra e atira errado, o mundo dele cai. Mas quando morre não aparece ninguém. Cadê os Freixos da vida?”, destacou, fazendo alusão ao deputado Marcelo Freixo (Psol), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj e candidato a prefeito do Rio de Janeiro.

 

Quem também se posicionou sobre a morte do policial foi Paulo Conrado (PRTB). Segundo ele, ninguém pode criticar a Câmara de Volta Redonda por omissão, já que os vereadores sempre cobraram a transferência dos PMs para a cidade do aço. “Nós estamos debatendo isso sempre. Precisamos juntar os parlamentares e exigir que os policiais retornem para suas casas. Falar, reclamar e fazer requerimento não está adiantando, infelizmente. Pelo que estou vendo, nossa Casa – que tem autoridade – precisa exigir a transferência dos policiais de Volta Redonda para nossa cidade, ou no mínimo para cidades vizinhas”, completou.

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