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Sexta-Feira, 19 de Outubro de 2018
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Publicado em 24/09/18, às 10:45

‘Crimes de ocasião’

Por Vinícius de Oliveira

Foi tudo muito rápido. Era sábado à noite, dia 8, pouco mais de 23 horas quando um morador do bairro Morada da Colina, em Volta Redonda, chegou na sua casa. Às 23 horas e 15 minutos, ele abriu o portão da frente e entrou pensando que estava seguro e que poderia descansar. Ledo engano.  Dezessete segundos depois, quatro indivíduos, encapuzados e aparentemente armados, saltaram de um carro que parou próximo à sua residência e a invadiram. Toda a ação foi registrada por uma câmera de segurança de um vizinho. A filmagem não mostra o que aconteceu em seguida, mas retrata uma situação que muitos voltarredondenses têm vivido ultimamente.

 

E para os que pensam que os momentos de terror e insegurança acontecem apenas na calada da noite, se enganam. Cinco dias depois, um novo assalto a residência foi captado por câmeras particulares de segurança. Desta vez no bairro Laranjal, em plena luz do dia. Um bandido, que já teria sido identificado e preso, rendeu, agrediu e roubou um casal na porta de sua casa. O vídeo mostra nitidamente o homem entrando no local para, segundos depois, levar o carro das vítimas.

 

Não satisfeito, o ladrão, num gesto de crueldade inimaginável, atropelou a mulher, uma das vítimas que, ao que tudo indica, tentou reagir. Ela foi atirada a metros de distância após ser atingida pelo próprio carro, chamando a atenção de vários estudantes que passavam pelo rua. O casal foi levado para o Hospital Unimed e passa bem. Além das escoriações pelo corpo, os dois terão de lidar com as feridas causadas pelo medo e pela petulância do bandido.

 

O pior é que não são apenas cenas como essas que se repetem mês a mês. Silenciosamente, além dos roubos e furtos, os números de assassinatos aumentam paulatinamente, creditando a Volta Redonda um título desesperador. De acordo com o Atlas da Violência de 2017, apresentado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplica), que verifica índices de violência em municípios com população superior a 100 mil habitantes, a cidade do aço figura como a 66ª no ranking da violência.

 

Os estudos indicam o que a população já vem percebendo da pior maneira possível: que a violência no Brasil não está mais restrita aos grandes centros urbanos. Ela se alastrou pelo interior, deixando um rastro de destruição de vidas e de prejuízos econômicos. Estima-se que o país gaste em torno de 5% do Produto Interno Bruto (PIB) com a violência.

 

Embora muitos tendem a acreditar que a atuação dos militares no Rio de Janeiro por conta da intervenção federal decretada no início deste ano seja a causa dos aumentos de furtos, roubos e assassinatos pelo interior fluminense, a verdade é bem mais complexa. Pelo menos é o que garante o delegado da Polícia Civil, Marcello Russo. De acordo com o agente de segurança, que já atuou em Volta Redonda como delegado adjunto na 93ª Delegacia de Polícia, a política de segurança adotada no governo Sérgio Cabral é a principal responsável pela fuga dos bandidos da capital. “Eu fico com a opinião de que o aumento da violência seja por um processo natural e não pela intervenção federal. A migração aconteceu lá atrás, com as UPPs. Por mais que a intervenção esteja acontecendo, a responsável por todo esse problema é a política das UPPs”, afirmou.

 

Para Russo, a bandidagem vem, ao longo dos anos, seguindo a rota do interior. Ele pode ter razão. Em 2012 os estudos já mostravam que os polos da violência se deslocavam das grandes cidades em direção aos municípios menores. Uma pesquisa realizada naquele ano pelo Instituto Sangari chegou a mostrar que os índices de homicídio, se continuassem aumentando, em menos de uma década, as taxas do interior poderiam ultrapassar as das capitais e regiões metropolitanas. Não deu outra. Em 1995, as metrópoles tinham uma taxa de 40,1 homicídios em 100 mil quando no interior era de 11,7 – quase quatro vezes menor. Já em 2010, o índice das capitais e regiões metropolitanas caiu para 33,6 e o do interior aumentou para 22,1.

 

Em junho deste ano, cidades como Queimados e Angra dos Reis apareciam no ranking da violência na frente do Rio de Janeiro. O delegado Marcello Russo acredita que esse fenômeno vem se intensificando graças ao retrocesso econômico que atravancou não só o estado, mas todo o Brasil. “Os casos violentos aumentam em decorrência de um processo natural, advindo de um longo período recessivo na economia. Na crise, aumenta o consumo de droga, aumenta o crime contra patrimônio e outros”, avaliou Russo, salientando que até os bandidos sofrem com a crise. “A recessão está para todo mundo, inclusive para o traficante, que é um comerciante também. Ele sofre os reflexos da recessão. Fica difícil para ele pagar a mercadoria, comprar os insumos para manter seu negócio, como armas, por exemplo, que garantem a segurança da ‘boca”. Aí, como dizem na sua gíria, ‘descem pra pista’ para correr atrás do prejuízo”, completou.

 

 Ainda de acordo com Marcelo Russo, aumentam os crimes como os citados no início da reportagem, pois faltam emprego e fonte de renda. “É o que chamamos de furto de ocasião. Estes aumentam e se somam aos outros crimes que já vêm acontecendo. Tudo isso em virtude da própria situação dificultosa para encontrar emprego. Houve uma fuga de muitas empresas do Rio e do Brasil como um todo. Tudo isso colabora por uma busca de bens materiais”, avalia.

 

Questionado sobre como resolver essa ferida que não para de jorrar sangue, Marcello Russo explicou que o governo deveria concentrar suas energias em uma série de medidas que poderão surtir efeito a longo prazo. “Para resolver o problema, não é uma medida. É um conjunto de medidas. A primeira é fazer o Brasil voltar a andar para frente. Precisamos debater e encarar as reformas necessárias no país que gerarão emprego, garantirão investimentos e obras. É preciso, também voltar a garantir acesso ao crédito para o micro e pequeno empresário”, defendeu o delegado, se referindo às reformas trabalhista, previdenciária e tributária. “Com a intervenção, tudo isso está paralisado e, desta forma, o Brasil também está paralisado. E as coisas só vão mudar quando as reformas acontecerem”.

 

Por fim, Marcello lembrou que a crise afetou em cheio as forças de segurança. Sem investimento por parte do Estado, as polícias ficaram à míngua, incapazes de fazer seu trabalho com qualidade. E, ao longo da última década, com o sistema encarquilhado, os agentes se viraram como podiam, enxugando gelo e tapando buracos. “Todo esse desarranjo reflete no aparato policial. O governo não tem atendido às necessidades dos policiais como insumos, salários e outras que são importantes para o bom desempenho da função”, finalizou.

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