Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 13 de Novembro de 2018
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Publicado em 06/11/18, às 09:58

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Vinicius de Oliveira

Volta Redonda, historicamente conhecida por abrigar em suas terras um povo que não teme à luta nem foge à morte, continua fazendo história na política. Desde a eleição de 2016, quando elegeu o ‘nanico’ Samuca Silva como forma de protesto contra a chamada ‘velha política’, voltou a demonstrar esse desejo nas urnas, mas, desta vez, para o governo do Estado. Quase 70% dos voltarredondenses, ou seja, 96.965 pessoas, ajudaram a eleger o azarão Wilson Witzel como sucessor de Luiz Fernando Pezão.

 

Durante a campanha, o juiz, até então um ilustre desconhecido, esteve em Volta Redonda apenas duas vezes: no dia 24 de março, quando se reuniu com políticos na sede do Clube dos Funcionários. E no dia 16 de setembro voltou para conversar com lideranças religiosas evangélicas. Desde então, não pisou mais nas terras do aço e nem em qualquer outro município do Sul Fluminense. Mesmo assim, venceu em todas as cidades da região.

 

Mesmo quando ainda só tinha 1% das intenções de votos, o juiz Wilson Witzel fez questão de responder a todas as perguntas enviadas pelo jornal aQui (único veículo para o qual o governador eleito tratou, com exclusividade, de detalhes sobre o interior do estado, grifo nosso). O magistrado tratou dos temas mais relevantes para os voltarredondenses e moradores de cidades vizinhas, como Saúde, Educação, geração de Emprego e Renda e Segurança Pública. Falou também da maior indústria siderúrgica do Brasil, a CSN.

 

Em todos os temas, Witzel manteve o tom de que adotaria em seu governo uma política austera, baseada nos valores morais, que passaria pelos cortes de gastos e reformulação estrutural do modo de se governar, afetando diretamente o interior. Na série de entrevistas formulada pelo aQui que durou toda a campanha, quando questionado sobre o aumento da criminalidade no Sul no Fluminense, o juiz não falou que colocaria armas nas mãos dos Guardas Municipais e usaria o legado, segundo ele, deixado pela intervenção federal. “Criaremos um gabinete de segurança que implantará a “Operação Lava Jato da Segurança” baseada na investigação, que vai desmontar o crime organizado em todo o estado. Faremos também o reforço das Guardas Municipais, que serão treinadas e armadas em razão da impossibilidade de contratação de novos policiais, devido ao regime de recuperação fiscal”, disse.

 

Sobre a Educação, o juiz voltou a falar de reformulação. Comentou sobre o fechamento de escolas e a falta de investimento na formação e no salário de professores. “Vamos estabelecer o ensino integral para reforço escolar e realizar a recuperação operacional das escolas, criando parcerias com a sociedade para uso do espaço ocioso. Além disso, certamente, com a reestruturação da máquina pública e a reorganização administrativa do estado, teremos mais orçamento disponível para investimento em educação”, resumiu.      

Sobre a Saúde, mais especificamente sobre o Hospital Regional, Witzel falou de forma genérica, mas garantiu que vai desafogar as filas das unidades médicas, fazendo funcionar as Casas de Saúde. “Por meio de um plano de recuperação iremos restabelecer as casas de saúde em todo o Estado, reduzindo assim a demanda dos hospitais municipais. Vamos contratar 500 mil consultas/mês com especialistas, comprando o horário vago nas agendas de hospitais particulares pagando pelo preço da tabela SUS”, afirmou. Detalhe: somente agora, com Witzel já eleito, é que a grande imprensa passou a abordar a novidade anunciada pelo governador eleito ao aQui.

 

Sobre geração de emprego, Witzel disse que uma das soluções para inserir os mais de 12 milhões de desempregados seria a sua moral – que se manteve inabalada mesmo depois dos insistentes ataques de Eduardo Paes, no segundo turno, que tentou associá-lo a traficantes e até ao ex-governador Sérgio Cabral, preso por corrupção na Operação Lava Jato. “Um governo com integridade moral terá condições de atrair mais investimentos. Um dos nossos compromissos é com a desburocratização, assim facilitaremos os novos empreendimentos, gerando novos empregos. Criaremos o “Poupa tempo do empreendedor” e a Agerio (Agência Estadual de Fomento) também criará programas de financiamento para microempreendedores”, prometeu.

 

O juiz chegou a comentar a ‘onda’ de políticos gestores que se alastraram Brasil afora, justamente para fazer oposição à ‘velha política’. Para Wilson, governar um estado tão diverso quanto o Rio de Janeiro é uma tarefa que exige a união dos interesses do setor público e do empresário. “Administrar um estado tem algumas peculiaridades em relação às empresas privadas. Eu tenho 35 anos de serviço público e experiência de gestão na iniciativa privada para poder governar um estado complexo como o RJ”, crê.

 

No segundo turno, o tema abordado pelos candidatos foi a CSN e seus problemas ambientais e sociais. Witzel foi o único que defendeu abertamente a CSN, alegando que ela não infringe leis de proteção ambiental. “A atividade da CSN não é incompatível com a legislação ambiental estadual. É parte essencial da economia de Volta Redonda e sob meu comando ela não será vista como uma inimiga do meio ambiente, e sim como uma aliada”, comentou o juiz, salientando que em seu governo não poupará medidas para facilitar a vida de Steinbruch e a de outros empresários. “Nossa Secretaria de Meio Ambiente não medirá esforços para facilitar, seja por meios tributários, creditícios via AgeRio, ou institucionais, a reestruturação da empresa para que sejam utilizados os bens e capitais mais modernos e alinhados com a preservação do meio ambiente, sem perda da produtividade da empresa”, completou.

 

Em relação ao pó preto e à escória oriundas da CSN, Witzel fez uma relação com os milhares de empregos que a Usina Presidente Vargas gera como um dos bons motivos para conciliar os interesses. “Eventuais custos ambien-tais típicos da produção siderúrgica serão minimizados pelo emprego de técnicas e bens de capital alinhados com o que há de mais moderno em matéria ambiental, e o que ainda assim gerar prejuízo será ressarcido nos termos da legislação ambiental vigente”, resumiu.

 

No que diz respeito às interferências dos Ministérios Públicos Estadual e Federal, bem como da Igreja Católica nos negócios da CSN, Witzel disse ser importante o papel dos MPs para a manutenção da ordem. “O Ministério Público tem o papel constitucional de fiscal da lei, e a não ser que ele esteja se desviando dela, seu papel é sempre saudável. Além disso, a Igreja Católica é a mais importante entidade religiosa em âmbito de representatividade. Embora não possua o caráter técnico do MP, tem um papel social essencial. A CSN continuará com a sua produção e a geração de emprego e renda, compatibilizada com as mais modernas técnicas de preservação ambiental”, afirmou o governador eleito.

 

Por fim, o juiz tratou de outro tema polêmico: as terras ociosas da CSN, e prometeu ser um mediador entre a cidade do aço e a empresa. “No meu Governo o Estado será um facilitador para a construção de acordos com a sociedade civil de forma a valorizar o papel da empresa no desenvolvimento social da região onde está alocada. Basta que a sociedade civil apresente ao Governo esses projetos e essa negociação será feita o mais rapidamente possível”.

 

Já na reta final da campanha, Wilson Witzel respondeu perguntas diretas de eleitores ilustres mediadas pelo jornal aQui. Ao prefeito Samuca Silva, que quis saber como o juiz faria para resgatar a credibilidade do Estado e ainda voltar a fazer regularmente os repasses financeiros aos municípios, o governador eleito concordou que o Rio passa por um momento de descrença e garantiu que acabará com a corrupção, principal motivo, segundo ele, que colocou o estado nessa condição. “Eu sou o único candidato sem relação com empresas envolvidas em escândalos. Vou acabar com a corrupção e obras superfaturadas. Vamos recuperar a credibilidade e atrair investimentos”, prometeu.

 

A Dácio Antonio, administrador de Empresas, o juiz disse que vai combater todos os problemas de Saúde, Educação e Segurança de uma única vez. “Eu vou combater todos os problemas simultaneamente e não um de cada vez, principalmente porque essas áreas estão um caos e vou investir o que a Saúde tem que ter, que são os 12% do orçamento. Com a compra de uma grande quantidade de insumos para os hospitais, vamos baratear esses custos e terminar as obras paradas em unidades de saúde. Vai ser um esforço conjunto atuando em todas essas frentes”, aventou, determinado.

 

O juiz explicou, por último, uma de suas falas sobre a “engenharia’ para aumentar seu salário. “Tudo que eu falei está dentro da lei. Todos os auxílios a que magistrados têm direito estão previstos na Lei Orgânica da Magistratura (Loman). Eu defendo o envio da Loman para o Congresso Nacional, onde a Lei pode e, na minha opinião, deve ser discutida junto à sociedade para que a remuneração de juízes seja justa. Caso tivesse apego a privilégios, não teria deixado de ser juiz, uma função pública e com aposentadoria garantida que perdi ao pedir exoneração para ser candidato a governador e me colocar à disposição da população do Rio para solucionar os graves problemas que o estado enfrenta. Os técnicos vão analisar o que é legal e o que não é e cortar privilégios explicou.

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