Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Sexta-Feira, 20 de Setembro de 2019
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Publicado em 27/05/19, às 09:15

Conhecendo o terreno

Por Vinicius de Oliveira

Quando o novo bispo da Diocese de Volta Redonda/Barra do Piraí, Luiz Henrique da Silva Brito, foi anunciado para liderar os católicos da região, os fiéis recuperaram a esperança por dias melhores. Antes, espalhados pelas cerca de 400 comunidades, se despediram de Dom Francisco, agora bispo emérito, com missas especiais e festas com bolo e guaraná. Em seu discurso final, o religioso bem que tentou explicar por que o rumo que seguiu era tão diferente do deixado por D. Waldyr, o que ninguém esquece. 

 

Francisco usou o óbvio. Disse que era apenas diferente do ‘bispo vermelho’ que liderou os católicos do Sul Fluminense por mais de três décadas. “É claro que cada um tem o seu estilo, eu não copiei nem de D. João, nem de D. Waldyr, apenas apreciei tudo aquilo que eles tinham feito. Sem dúvida quem vier depois é (será) diferente de mim, graças a Deus, e vai poder colocar os seus dons a serviço”, comentou, abrindo caminho para D. Luiz enquanto prepara sua mudança para a comunidade de Itapuca, em Resende, mais especificamente para a paróquia Sagrada Família.  

 

Antes mesmo de D. Francisco passar oficialmente o cajado; antes mesmo de anunciar o ‘amém’, os católicos se perguntavam como seria seu sucessor e, se finalmente, este teria como superar o mito que se transformou D. Waldyr, levando, mais uma vez, o povo de Deus para as ruas como antigamente. As expectativas foram diminuindo depois do último dia 11, quando D. Luiz tomou posse, mas ainda estão longe de acabar. 

 

Durante a missa solene na Igreja de Santa Cecília, na Vila, que o sagrou bispo titular, D. Luiz garantiu aos fiéis que tratará da espiritualidade do seu rebanho sem tirar os olhos das questões sociais. Embora tenha dito ao aQui, em entrevista exclusiva (veja a seguir) que precisa conhecer melhor os hábitos da CSN para poder se posicionar de forma contrária ou vigilante, o novo bispo se viu obrigado, poucos dias depois de sua posse, a se manifestar sobre a empresa. 

 

Para quem não se lembra, no dia 15, um acidente dentro da Usina Presidente Vargas levou 25 trabalhadores para o hospital após inalarem fumaça que saía de um acidente na aciaria. Em nota, a Cúria (o bispo) avisou que vai continuar de olho na CSN. “Permanecemos em oração para o pronto restabelecimento dos feridos e em apoio às famílias e vigilantes pela promoção da segurança e da dignidade do trabalhador que deve estar acima do lucro, como bem diz a Doutrina Social da Igreja”, afirma o documento, indo além. “É indispensável que, no interior da empresa, a legítima busca do lucro se harmonize com a irrenunciável tutela da dignidade das pessoas que atuam na mesma empresa”, conclui. 

Igreja dividida

A declaração e a promessa feita na homilia durante a missa da posse de que sua igreja vai cuidar do ser humano em toda a sua extensão deixaram os católicos tradicionais mais animados. Até então, eles estavam ansiosos pelo catolicismo de base menos agarrado às barras das batinas dos padres. Foi o que observou Evaldo Pontes da Silva, integrante do movimento ‘Fé e Política’, animador bíblico e voluntário na Comissão de Patrimônio Histórico Diocesano. “Me traz muita esperança ter ouvido o bispo falar que vai buscar muito o diálogo, vai procurar conhecer e ouvir tantas comunidades como os padres na defesa do Evangelho inserido na doutrina social da igreja. É muito importante ouvir dele isso. Vai buscar conhecer a realidade, ouvir para fortalecer a defesa do evangelho e a doutrina social da igreja”, pontua Evaldo. 

 

Ainda de acordo com o religioso, o principal desafio do novo bispo será unir uma igreja bastante dividida entre os católicos mais militantes, que desejam uma fé atuante em defesa dos menos favorecidos, e os que preferem se manter distantes da política, com os pés fincados nos templos. “O desafio para o novo bispo – e como não dizer para a própria igreja – é enorme. Diante da realidade política, econômica e religiosa que vivemos hoje em nosso país o desafio é ser no meio disso tudo, uma igreja de comunhão uma igreja profética e missionária ao mesmo tempo. Existe muita diversidade em nossa igreja diocesana. Alguns querem e trabalham para uma igreja voltada para dentro de si mesmo, sem um compromisso social, e outros querem uma igreja missionária, saída, com compromisso com o social”, explicou, frisando que deseja muita sabedoria para o novo bispo. 

 

“Se ele (D. Luiz), com apoio da comunidade e dos padres, assumir isso, vai ser uma maravilha. Que Deus nos ilumine e nos dê coragem e sabedoria para conduzir a diocese nesse espírito. A igreja precisa abraçar o novo bispo e ainda ajudá-lo, pois ele não faz nada sozinho. Isso tudo para que ele possa estar assumindo o papel verdadeiro do bispo”, completou Evaldo. 

 

Com exatas duas semanas à frente da Mitra Diocesana, D. Luiz ainda não disse muito e não é possível garantir se as expectativas de Evaldo serão atendidas, mas durante a entrevista concedida ao aQui, o novo bispo deu a entender que não cairá facilmente nas ‘armadilhas do inimigo’. Ao ser ‘tentado’ com assuntos mais polêmicos, como discussão de gênero no ambiente religioso e a junção de fé e política, D. Luiz foi quase profético para agradar a todos os lados. Até mesmo sobre a CSN, preferiu cautela na hora de falar. 

 

Em suas respostas, o religioso manteve um discurso moderado, sem acentos agudos da política. Uma de suas premissas, conforme garantiu ao jornal, é que manterá o diálogo com todas as instâncias. E, como não poderia deixar de ser, o novo bispo falou da atuação do seu antecessor e fez referências a D. Waldyr Calheiros. 

 

‘Evitando radicalismos’

aQui: A Diocese tem em seu histórico a participação ativa na política, sobretudo na época da Ditadura Militar. Contudo, nas décadas recentes, os fiéis católicos parecem ter desistido de unir fé e política. Qual é sua percepção sobre isso? Pretende resgatar esse antigo fervor ou acredita que esse tempo passou? 

Luiz Henrique: Naquele período do grande e corajoso bispo Dom Waldyr se pedia uma postura mais firme na defesa da democracia, hoje os tempos são outros. O comprometimento com as causas sociais será sempre incentivado, sem que com isso, nos deixemos manipular por qualquer tipo de viés ideológico, portanto, nos ateremos ao que a Igreja nos propõe, ou seja, defender sempre os valores e princípios do Evangelho contidos na Doutrina Social da Igreja. 

 

aQui: D. Francisco se notabilizou pela atuação intereligiosa. Além disso, introduziu na diocese diálogos sobre as questões de gênero, se mostrando solidário aos homossexuais católicos. O senhor pretende manter essa linha ideológica? Que novos rumos o senhor dará a essas questões? 

Luiz: Dom Francisco Biasin é um grande exemplo de diálogo ecumênico e interreligioso. Procurou contribuir na CNBB para que o pedido que Jesus fez antes de ser crucificado: “Pai, que todos sejam um!” nos levasse a uma postura de respeito e convivência pacífica entre aqueles que se dizem discípulos de Cristo, mas ainda não estão totalmente em comunhão. Todos os Papas recentes procuraram estar abertos ao diálogo com as variadas religiões, cujo intuito é chamar a atenção para o respeito entre os crentes e a liberdade religiosa. 

 

A segunda afirmação de que Dom Francisco defende agenda de ideologia de gênero não procede. A Igreja quer que todos os homens e mulheres sejam respeitados e, portanto, qualquer tipo de violência contra o ser humano deve ser condenado. Outra coisa, totalmente distinta, é a defesa de um modelo de família que não seja aquela proposta pelo Criador. A Igreja, por mandado divino, acolhe e defende o ser humano, mas sempre, de forma profética, anunciará a verdade de Cristo sobre a família. O Papa Francisco na ‘Amoris Laetitia’ recorda que “não existe fundamento algum para assimilar ou estabelecer analogias, sequer remotas, entre as uniões homossexuais e o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família”. 

 

aQui: Que questão o senhor enxerga como principal missão enquanto for bispo no Sul Flumi-nense?  

Luiz: Estou chegando agora. Quero visitar as comunidades, estar próximo do povo para conhecer suas necessidades espirituais e também ouvir os sacerdotes para que, junto com eles, possa servir bem esta Diocese que me acolheu com muito carinho.

 

aQui: Durante muitos anos, a Cúria se manifestou de forma contrária e veemente à CSN, principal força econômica de Volta Redonda. O senhor concorda com essas intervenções? Se preciso, conclamará os fiéis para protestarem contra a empresa? 

Luiz:Como já disse, preciso me inteirar da realidade socioeconômica da região. Para isso, estarei sempre disposto ao diálogo com todas as realidades sociais, de modo que possamos contribuir para o bem de nossa população, evitando radicalismos de qualquer espécie. Nossa radicalidade é a do Evangelho que prega o Amor e a misericórdia. 

aQui: O senhor vem de uma realidade castigada pela violência. Sentimos os reflexos dela em Angra dos Reis. Como forma de resposta ao poder paralelo, o governador Wilson Witzel embarca em helicópteros e acompanha de perto policiais metralhando a esmo comunidades. Como o senhor avalia esse tipo de política de segurança?  

Luiz:O problema da violência em nosso Estado é uma chaga antiga que não se resolve facilmente. Devemos refletir sobre essa vital questão e os motivos que nos levaram a essa situação tão grave para nossa população vulnerável que mais sofre. Várias frentes de atuação precisam ser implementadas para que o ciclo da violência seja superado e sem avanço social se torna muito difícil resolver estes problemas. Todo avanço social passa por educação de qualidade, trabalho, serviços básicos que dignificam a nossa população. Não existe uma receita simples e pronta, mas é preciso avançar em políticas públicas que a curto e longo prazos contribuam para superação da violência. 

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