Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Sábado, 25 de Novembro de 2017
0
Publicado em 13/11/17, às 09:54

Campo minado

IMG_9188_1
Israela Vargas
Imagina sair às ruas para resolver um problema e, literalmente, cair em uma armadilha. Um verdadeiro campo minado. É o que os voltarredondenses devem sentir ao andar pelas calçadas da cidade do aço. A maior parte está cheia de buracos de todos os tamanhos e formas. Isso quando a própria calçada existe ou não está tomada por entulhos. O engraçado é que para o Palácio 17 de Julho a culpa não cabe à prefeitura de Volta Redonda. É do próprio cidadão. “A reforma das calçadas é de responsabilidade dos proprietários (dos imóveis, grifo nosso), como está previsto em legislação”, declarou a secretaria de Comunicação da prefeitura ao ser procurada pelo aQui.

Há quem não concorde com a teoria. Lyvia Oliveira, 17, é uma delas. “Tenho uma avó cadeirante e toda vez que preciso levá-la ao mercado ou até mesmo para passear, eu passo um aperto. As calçadas estão horríveis, todas esburacadas e ainda tem um poste no meio para atrapalhar ainda mais (os cadeirantes). As calçadas são estreitas e fazem com que eu tenha que dividir espaço com os carros”, completou. “Isso é um descaso com a população”, disparou.

Além de provocar inúmeros transtornos e atrapalhar a vida de quem depende delas, as calçadas esburacadas criam um péssimo visual para os turistas, entre outros. Tem mais. Podem atrapalhar o sonho do prefeito Samuca de transformar, como disse em um programa de rádio, a cidade do aço em uma das melhores do país. “Nem todo pedestre tem carro ou pode andar de ônibus”, disse Patrícia Coutinho, lembrando que transformar Volta Redonda como deseja Samuca está bem longe da realidade. “A situação fica ainda pior quando chove. Os buracos viram poças, que ficam praticamente invisíveis”, diz, aproveitando para contar um caso que aconteceu com ela. “Eu já passei um grande mico. Estava caminhando com uma amiga e não vi o buraco, não dava pra ver porque estava cheio de água e eu achei que fosse um lugar firme, plano. Acabei torcendo o pé”, contou.

A questão é tão grave que já causou acidentes muito maiores, como ocorreu com a aposentada Sônia Otogalli. “Eu estava saindo da sede da Associação dos Aposentados, na Sessenta, próxima à Escola Técnica, e a calçada estava toda esburacada. Meu pé ficou preso em um buraco e eu caí. Fiquei 15 dias sem poder pisar no chão, por causa do pé engessado”, contou, aproveitando para criticar a omissão das autoridades. “Ao invés de inventarem faixa exclusiva para ônibus, eles (a prefeitura) tinham que se preocupar com as calçadas, praças e locais onde andamos que estão abandonados. Não conheço nenhum lugar em Volta Redonda que tenha calçadas boas, a não ser nos bairros residenciais, onde os próprios moradores cuidam das calçadas”, pontuou.

Assim como Sônia, a população também anda questionando as prioridades de Samuca, como a história do ‘ônibus tarifa comercial zero’, pelo fato do veículo não atender todos os bairros, como foi anunciado. E, óbvio, por não atender aqueles que andam a pé e que precisam enfrentar todos os dias os obstáculos das calçadas. Segundo Emanuel Silva, o que deve ser feito seria uma reforma em todas as calçadas dos bairros, como o governo Neto chegou a fazer, trocando ou colocando piso, com uma marca que lembrava a foice do PCdoB. “O único problema é a falta de planejamento (do governo); primeiro, as coisas mais importantes e depois ônibus elétrico”, comparou.

O jovem Matheus da Conceição concorda com Emanuel. E aproveita para fazer uma observação. “Se o ônibus elétrico passasse no meu bairro, eu deixaria de andar a pé e não precisaria utilizar as calçadas. Mas, como (o ônibus) não passa, a maior prioridade tem que ser o conserto das calçadas”, afirmou, completando que a equipe do prefeito Samuca deveria se basear na opinião da população para entender o que realmente é necessário.

A calçada da Rua 33, na Vila, onde o metro quadrado é o mais caro da cidade do aço, era feita toda em pedras portuguesas, importadas quando da construção da CSN. A rua está quase toda tomada por clínicas, farmácias e bons restaurantes. Ou seja, atrai gente de tudo que é lugar, principalmente das cidades próximas. E as calçadas já não embelezam mais o lugar. Muito pelo contrário. Gabriel da Silva, por exemplo, relatou um fato para a equipe do aQui. “Eu sempre passo pela Rua 33 para frequentar as rodas de rima que são feitas na ETPC e uma vez, quando eu estava caminhando por ela, caí e fiz um corte feio na minha mão”, relatou.

Maria José Gregório, turista de Mangaratiba, foi uma que se decepcionou com a cidade do aço. “É a primeira vez que eu frequento a cidade. Minha filha passou na prova do Enem e vai estudar em Volta Redonda. E eu confesso que não gostei. Fui caminhar pela Rua 33 e vi um senhor, de muleta, com uma tremenda dificuldade de andar por ela por causa dos buracos e das pedras (portuguesas) soltas”, avaliou. “Eu não voltaria aqui se não fosse pela minha filha”, disparou.

Ana Carolina Leite mora perto do Floresta da Vila – da família do vice-prefeito Maycon Abrantes – e enfrenta, segundo ela, um problema quase diário. O de levar as compras que faz para sua residência. “Uso o carrinho (do supermercado) porque as compras são pesadas para eu levar sozinha e não tenho carro. Quando eu levo, é uma dificuldade terrível”, desabafou. “Uma vez eu quase deixei tudo cair no chão porque o carrinho agarrou em um desnível da calçada. Foi um perrengue só para poder reerguê-lo”, completou.

Ela diz até que chegou a pensar em reclamar com as autoridades do município. Mas não o fez por não acreditar que elas solucionem o problema. O que ela não sabe é que existe uma nova opção: o ‘reclame aqui, serviços público’. O site: https://www.recla
meaqui.com.br/categoria/servicos-publicos/ foi criado pelas mesmas pessoas do ‘reclame aqui’, onde o consumidor pode relatar situações que passou com alguma empresa. O ‘reclame aqui serviços públicos’ tem a finalidade de coletar reclamações da população de todo o Brasil, encaminhando tudo para as prefeituras, governos e empresas públicas para que leiam e respondam as reivindicações. Para participar, basta entrar na página da internet citada acima, clicar em ‘reclamar’, fazer o cadastro etc.

Calçada cilada
Tentando melhorar a locomoção das pessoas a pé e, por tabela, tornando a cidade um lugar bom de caminhar, o grupo ‘Corrida Amiga’ foi criado para desenvolver políticas públicas voltadas para os pedestres. E começou, em 2014, de forma bizarra, utilizando 14 imagens de pessoas fazendo careta em calçadas esburacadas (como a da foto, feita no Jardim Normândia, em Volta Redonda). Hoje, a campanha está em sua quarta edição e os resultados de 2017 mostram que a situação é muito ruim. Com a divulgação do projeto, moradores da região passaram a reclamar. De Angra dos Reis, por exemplo, já existem cerca de 9 reclamações. De Volta Redonda, por enquanto, nenhuma. O que não quer dizer que temos uma das melhores cidades do Brasil, como apregoa Samuca Silva.

Os textos e as fotografias veiculadas nas páginas do aQui se encontram protegidos por direitos autorais, sendo vedada sua reprodução total ou parcial para finalidades comerciais, publicitárias ou qualquer outra, sem prévia e expressa autorização de Jornal Aqui Regional. Em hipótese alguma o usuário adquirirá quaisquer direitos sobre os mesmos. E no caso de utilização indevida, o usuário assumirá todas as responsabilidades de caráter civil e/ou criminal.