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Terça-Feira, 12 de Dezembro de 2017
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Publicado em 10/04/17, às 11:03

Caldo verde

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No caldeirão em que seria cozinhada a cabeça do  ex-prefeito Neto, na Câmara de Volta Redonda, coube todo tipo de tempero: bate-boca, briga, traição, acusação, articulação… e até bandeira branca. A pimenta ficou por conta do prefeito Samuca Silva, que teria interesse em pôr lenha no fogão da Casa para que os parlamentares reprovassem, em definitivo, as contas de Neto relativas ao ano de 2011, que seriam analisadas na sessão de terça, 4. Só que, como um bom mestre-cuca, Neto tirou um coelho da cartola na tarde de segunda, 3, ao entrar com uma petição judicial pedindo o adiamento da votação, justificando que o artigo 24 da Lei Orgânica Municipal estaria sendo infringido.

 

A norma diz que as contas devem ficar à disposição da população por 60 dias antes de serem votadas. “A Mesa Diretora enviou a petição para que a Consultoria Jurídica analise e diga se os advogados do Neto têm ou não razão. Essa presidência não vai fazer nada que possa ser questionado na Justiça posteriormente”, justificou o presidente da Câmara, vereador Dinho, explicando que atenderia ao pedido de retirar de pauta a polêmica votação das contas de Neto.

 

Até aí, tudo bem. Alguns parlamentares, de oposição a Neto, até tentaram engrossar o caldo dizendo que Dinho poderia azedar a refeição. O quiproquó piorou no início da tarde de terça, 4, quando Granato, ex-secretário de Obras de Neto, começou a recolher assinaturas para um requerimento de Urgência e Preferência para que as contas de 2011 fossem votadas, conforme previsto. Para isso, teria que colher 14 assinaturas – dois terços dos vereadores.

 

Por volta das 14 horas, já com algumas assinaturas – como a de Edson Quinto –, Granato pediu ajuda a Samuca. Que o verde convocasse os aliados (sete vereadores) para assinar o requerimento contra Neto. “Eu fui chamado ao Palácio para uma reunião com o prefeito, mas não informaram o motivo. Quando chegamos, ficamos sabendo do requerimento do Granato e o Samuca pediu para a gente assinar”, destacou um parlamentar, pedindo para não ser identificado.

 

O engraçado é que até parlamentares que não são aliados a Samuca foram chamados. Entre eles, Tigrão, Conrado e Pastor Washington. “Eles não são da base e assim mesmo foram chamados. O Samuca foi claro: que assinassem o requerimento do Granato para julgar as contas do Neto naquela noite (terça, 4). O Mauriício Batista (ex-vereador) foi testemunha”, destacou a fonte.

 

O que Granato e Samuca não esperavam era que o ‘caldo verde’ fosse levado ao presidente da Câmara, Sidney Dinho, antes da sessão, às 18 horas. Até porque a estratégia palaciana era entregar o requerimento assim que a sessão fosse aberta, o que faria com que as contas fossem votadas logo a seguir. Dinho, ao saber que estavam mudando o tempero da iguaria, convocou uma reunião para às 16h30min com o ‘Grupo dos 14’, do qual Granato e Quinto fazem parte.

 

Na reunião, a água ferveu. Todos estavam como se tivessem mordido uma pimenta malagueta. E avaliaram a nova receita de Granato e Samuca como uma traição. “Temos um grupo de 14 vereadores, não há motivo para fazer isso (requerimento) sem conhecimento da Mesa Diretora. Se o requerimento passasse, daria a impressão que o Dinho é que quer postergar a votação das contas do Neto, o que não é verdade, e isso o deixaria exposto”, pontuou um dos vereadores. “Todos estavam muitos nervosos, principalmente o Dinho e o Neném”, comentou. 

 

Depois de muita discussão e palavrões, os vereadores do ‘Grupo dos 14’ que haviam assinado o requerimento voltaram atrás e retiraram suas assinaturas. “A gente chegou a colocar em xeque a própria existência do nosso grupo. Se for para agir por trás da gente, é melhor explodir o grupo e cada um agir sozinho agora”, disparou um dos cozinheiros. “Tudo ficou resolvido, pelo menos por enquanto. O Neto não vai conseguir os 14 votos para aprovar suas contas, então não há motivo de tanta traição no grupo”, avaliou.

Resquícios

Antes da sessão de terça, 4, os vereadores do ‘Grupo dos 14’ continuavam exaltados. Nos corredores, Fernando Martins, Jari, Neném, Granato e  Quinto falavam sobre as discussões, e alguns tentavam acalmar os ânimos. Não conseguiram.  É que ao entrar no plenário, os vereadores viram que a galeria estava cheia de gente – o que não é comum. Pior. Empresários ligados à Aciap e CDL, aliados de  Samuca, também estavam presentes; entre eles, Maurinho, ‘assessor especial do prefeito’. Eles comandavam uma claque de participantes de um ‘MasterChef’, formada por funcionários tanto da empresa de Maurinho quanto da Aciap. Até cartazes contra Neto eles seguravam nas mãos, como se uma sobremesa fosse. Isso irritou os vereadores.

 

“Isso é sacanagem. É óbvio que eles sabiam que os vereadores, a pedido do prefeito, iriam apresentar o requerimento de urgência para que as contas fossem votadas. E rejeitadas”, disparou um deles, ressaltando que Maurinho, por ser ‘assessor de Samuca’, teria informações privilegiadas. “Como é que o Maurinho sabia que as contas poderiam ser votadas? Tudo leva a crer que ele foi avisado pelo prefeito. A cidade sabia que a votação não iria acontecer hoje (terça) porque o Dinho já tinha avisado. Só eles sabiam disso e apareceram para pressionar os vereadores”, ironizou.

 

Com a Casa cheia à espera do banquete, Dinho explicou aos participantes do ‘MasterChef’ o motivo pelo qual as contas de 2011 não seriam votadas. “É lamentável que o prefeito tente interferir nos trabalhos do Legislativo. Não precisamos que o prefeito tente articular aqui dentro. Eu sei o que nós temos que fazer e o que temos que votar, tanto que pautei a votação das contas do ex-prefeito Neto para esta noite. Só não vamos votar porque seus advogados entraram com uma petição judicial e estamos esperando o parecer da Consultoria Jurídica sobre o caso”, disparou. “Não estamos aqui para agradar ao senhor Samuca Silva, mas sim para trabalhar pela população”, disparou.

 

“Covarde e infantil”

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A frustrada ‘caldeirada’ preparada por Samuca e Granato para que as contas do ex-prefeito Neto fossem rejeitadas rendeu muito durante a semana. E Dinho manteve-se indignado até a manhã de quinta, 6. Em entrevista ao programa Fato Popular, o presidente da Câmara chegou a afirmou que a atitude de Samuca era “infantil”. Radicalizou ao dizer que Samuca era um covarde e que deveria se preocupar em governar a cidade. “Nós não podemos fazer as coisas a toque de caixa para que alguém vá a Justiça depois e anule a votação. Isso seria uma vergonha para a Câmara”, pontuou Dinho, salientando que as polêmicas contas chegaram à Câmara em dezembro de 2012. “Quando assumi a presidência, eu disse que a gente votaria todas as contas atrasadas. O que já era para ter sido feito”, completou.

 

Dinho foi além. Revelou como ficou sabendo da estratégia do Palácio 17 de Julho para que as contas de Neto pudessem ser apreciadas em regime de urgência e preferência. “Um vereador esteve no Palácio e depois me contou que estavam preparando um requerimento de urgência e preferência, com 14 assinaturas, para que a matéria fosse apreciada na sessão”, disse. “Eu achei isso uma inconsequência. Se temos uma petição que indica uma nulidade, precisamos analisar direito e, por isso, o pedido está na Consultoria Jurídica para ser analisado”, justificou.

 

Não satisfeito, Dinho destacou que achou um desrespeito o requerimento de urgência ter nascido no Palácio 17 de Julho. “Nós não sabemos se as contas do Neto serão aprovadas ou não. Isso nem importa nesse momento. Eu não vou aceitar que venham colocar pressão na Câmara Municipal. Pressão serve para frouxo. Frouxo é que cede a pressões. E não venham fazer pressão na Câmara, porque ninguém vai ficar sendo chicoteado pelo Poder Executivo”, disparou, ressaltando que a Consultoria Jurídica da Casa deverá se posicionar sobre o caso já na segunda, 10, ou na terça, 11. “O parecer vai ser entregue até terça, 11. Se o jurídico nos disser que a petição não faz sentido, vou reunir a Mesa Diretora e marcar a data da votação das contas do ex-prefeito”, completou. Caso contrário, disse, os documentos ficarão à disposição da população, como Neto pediu.

 

Dinho foi além. Disse que Samuca teria dado entrevistas levantando suspeição sobre ele, já que fez parte da base do ex-prefeito na legislatura passada. Por isso estaria tentando postergar a votação das contas. “São 90 dias de governo, as ações respondem por si só. Quem gosta muito de cobrar tem que cumprir, tem que cumprir a Lei Orgânica, a Constituição. Ele (Samuca) tem que sentar com a assessoria dele e conversar. Enquanto eu estiver na presidência, vou cobrar”, acrescentou, para disparar: “Não gostei da atitude dele, achei covarde e infantil que ele, junto de alguns vereadores, tenha tentado pautar uma matéria pelas minhas costas”, bradou.

Acuado, Samuca foi à rádio e, em entrevista a Dário de Paula, chegou a pedir desculpas a Dinho. “Não quero polemizar. A sociedade não precisa disso. Tem muito fogo para pouca lenha. O Dinho é um grande amigo, se mostrou um grande parceiro da cidade. Não quero entrar em bola dividida”, comentou, jogando a culpa do ‘rango ter estragado’ na imprensa. “Com todo respeito, a imprensa tem dado uma importância grande para um assunto que a sociedade não quer saber. A sociedade quer saber como está a Saúde, quando o Samuca vai tampar um buraco… isso que a cidade quer”, crê Samuca. “Nunca vou interferir nas questões da Câmara”, jurou o aprendiz de mestre-cuca.

 

Samuca aproveitou para lembrar que sua base de cozinheiros (vereadores) é composta só por 7 especialistas. E seriam necessários temperos de 14. “A sociedade sabe que minha base é de sete vereadores. Seria uma tolice eu elaborar um requerimento para perder”, pontuou, tentando mostrar que a receita do caldo verde não teria partido dele. Aborrecido com o resultado, Samuca disparou contra Dinho, que o chamou de infantil. “Infantil é ir para a rádio e falar coisa que não aconteceu”, bradou.

 

Logo a seguir, Samuca tentou usar panos quentes para mexer na panela. “O que temos que fazer é dialogar. Requerimento não nasce dentro do Palácio 17 de Julho. Mas coloquei, sim, os meus vereadores, os 7, para assinar. Porque é uma vergonha termos R$ 1 bilhão em dívidas, termos tido déficits financeiros por anos seguidos. É um desrespeito com a população que paga em dia suas dívidas. É isso que está em discussão”, disse, mostrando estar disposto a fazer um cozido especial para servir aos verdes.

 

“Me coloco no lugar do Dinho. Acho que ele tem direito de ficar chateado. Mas até ele soube antes. A forma que foi, tudo bem… eu peço desculpa. A ansiedade da população é muito grande. A posição do governo é técnica. Pegamos um município quebrado. É isso que a sociedade tem que entender”, afirmou, voltando a pedir desculpas a Dinho. “Eu peço que quando acontecer isso ele me procure. Ele vai entender um dia que o prefeito não quis interferir no Legislativo”, concluiu.

 

Para evitar que o caldo verde fizesse mais estragos, Samuca decidiu se deslocar, na tarde de quinta, 6, do Palácio 17 de Julho até a sede da Câmara de Volta Redonda para um ‘tête-à-tête’ com Dinho. Mas, precavido, levou como testemunha o ex-vereador Maurício Batista, que de homem-bomba, como era conhecido, virou homem-bombeiro. 

 

O encontro quase virou público, pois Edson Quinto, Granato e José Augusto também viram Samuca levantar a bandeira branca de paz, aceita por Dinho. Só não revelaram se deixaram marcado um novo encontro, a sós, para dividir um caldo verde ou de traíra, o que preferirem.

 

Neto deve ir à Justiça; esquema do TCE envolveria 70 prefeituras

No centro da polêmica, Neto ainda não se manifestou sobre o prato que tentaram fazer com sua cabeça. Nos bastidores, entretanto, estaria criando uma receita especial se suas contas forem rejeitadas. “Contestar judicialmente a decisão do TCE ao emitir  parecer contrário às suas contas. Motivo: a prisão de cinco conselheiros do órgão, que são acusados de corrupção”. Segundo um vereador, que prefere não se identificar, o ex-prefeito deve arguir que só teve as contas rejeitadas por não ter cedido aos pedidos de favorecimento que teriam sido feitos por integrantes do TCE.  “Eu te pergunto: qual a credibilidade do TCE agora com essas prisões?”, questiona. “Quase todos os conselheiros estão presos. Então, mesmo que a gente não vença aqui na Câmara, vamos à Justiça”, completou, lembrando que Neto sempre colocou em xeque a idoneidade da Corte de Contas.

 

Até os vereadores de oposição a Neto já esperam que o caso seja judicializado. Edson Quinto é um deles. “O ex-prefeito vai à Justiça dizendo que o TCE não tem credibilidade, que os conselheiros estão presos, colocando suspeição sobre a rejeição das suas contas”, prevê Quinto, defendendo, entretanto, que a matéria seja apreciada o quanto antes. “Não podemos postergar mais essa votação”, completou.

 

Outro fato que pode ser usado por Neto é que Jonas Lopes, ex-presidente do TCE, confessou, em delação premiada, que os conselheiros do órgão teriam recebido mesadas de 70 das 91 prefeituras fluminenses. Três municípios, inclusive, já apareceram nas delações, um do Norte Fluminense e dois da Região Metropolitana. E, como se sabe, Neto sempre destacou que suas contas eram reprovadas no TCE porque os conselheiros tinham má vontade com ele. “Uma vez me falaram que os conselheiros não gostam de mim porque sou honesto”, dizia Neto. No mínimo, agora, o ex-prefeito ganhou munição para ir à Justiça.

 

Cronograma do quiproquó

Segunda, 10

12 horas – O vereador Granato começa a recolher assinaturas para um requerimento de urgência e preferência para que as contas de 2011 do ex-prefeito Neto (PMDB) fossem votadas.

 

14 horas – Granato leva o requerimento para as mãos do prefeito Samuca Silva, que começa a chamar vereadores aliados para assinar o documento no Palácio 17 de Julho.

 

16 horas – Um dos parlamentares, que esteve na prefeitura, revela a estratégia ao presidente da Câmara, Sidney Dinho.

 

16h30min – Dinho reúne os vereadores do ‘Grupo dos 14’, inclusive Granato, para tratar do assunto. Depois de muita briga e discussão, os parlamentares que tinham assinado o documento resolveram retirar o apoio ao requerimento, evitando que as contas fossem votadas no mesmo dia.

 

18 horas – Começa a sessão Legislativa, que foi acompanhada por empresários ligados ao prefeito Samuca, inclusive Maurinho, seu ‘assessor especial’.

 

19 horas – Dinho avisa que vai esperar pelo parecer da Consultoria Jurídica para decidir sobre o pedido de Neto de adiar por 60 dias a votação de suas contas de 2011. E acusa Samuca de estar tentando interferir na Casa de Leis.

 

Terça, 4 – Dinho dá entrevistas e chama Samuca de ‘covarde e infantil’

 

Quarta, 5 – Samuca retruca e diz que Dinho é que é infantil  

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Quinta, 6 – Samuca procura Dinho e os dois fazem as pazes… Aguardem novos capítulos!!!

 

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