Jornal Aqui - Volta Redonda - Barra Mansa

Terça-Feira, 18 de Dezembro de 2018
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Publicado em 01/10/18, às 08:34

‘Caixinha de surpresa’

Às vésperas das eleições para Presidente, Governador, Senador e deputados federais e estaduais, o Brasil vive a expectativa de confirmar ou não a renovação dos políticos. Os analistas, por exemplo, tentam descobrir se os fenômenos oriundos da Lava Jato vão ou não impactar nos resultados de 7 de outubro. Há quem entenda que sim, motivado, entre outros, pela onda que começou nas eleições municipais de 2016, quando muitos ‘não políticos’ foram eleitos. Mas também existem aqueles que acreditam que os escândalos de corrupção, que tiveram seu auge com a prisão de Lula, não vão mudar quase nada em Brasília.

 

Nas eleições de 2016, foram inúmeros os casos claros de que a população clamava por mudanças e acreditava no discurso bem convincente dos não políticos, dos ‘gestores’, como o prefeito eleito de Volta Redonda, Samuca Silva, e até o de Barra do Piraí, Mário Esteves, por exemplo. Eles conseguiram derrotar políticos tradicionais de peso e venceram não só as eleições, mas, também, todas as probabilidades que estavam contra eles.

 

Para o professor de história Raul Santos, que é de Volta Redonda, o apoio da opinião pública recebido por eles revelou, principalmente, a desilusão dos eleitores com a política em geral. “Esse não é um fenômeno exclusivo brasileiro. E não é tão novo assim. Desde o advento do neoliberalismo, que não deve ser encarado numa perspectiva puramente econômica, o bom governante é aquele que ‘administra melhor’ o Estado. Esse é um discurso totalmente pautado na ótica empresarial”, analisou o professor.

 

Raul diz que o pensamento comum de que todos os políticos seriam ‘farinha do mesmo saco’ também contribui para a adesão da população ao discurso ‘não político’ dos gestores. “Passamos por momento de profunda crise de representatividade. O discurso de que ‘são todos iguais’ ajuda a despolitizar e acaba minando a diversidade da arena em disputa. O resultado disso tudo é a aposta cega num sujeito político que nega a política, mas que defende sem escrúpulos o grupo político a qual é afiliado, geralmente banqueiros, grandes comerciantes, empreiteiros, o empresariado em geral, sem atuação firme no que diz respeito ao cuidado com a coisa pública”, deduz.

 

 Levando em consideração esse fenômeno, o aQui perguntou aos candidatos ao governo do Rio a opinião deles a esse respeito. Confira, abaixo, o que cada um disse sobre o assunto.

Pedro Fernandes:

Eu, como político, não abro mão do meu aprendizado e experiência na área de gestão. Ao mesmo tempo que precisamos controlar os gastos e alavancar as receitas do estado, não podemos deixar de priorizar os investimentos nas áreas relevantes para a mudança das condições de vida da população. O verdadeiro papel da ação política deve estar pautado no poder de agir, no agir consciente e sensível sobre os aspectos brutais que agem em reflexo das mazelas da desigualdade socioeconômica do nosso País e do nosso Estado, espalhados em todos os nossos municípios. Esse será o meu norte na adoção de medidas e implementação de políticas públicas em prol da população do Rio de Janeiro.

 

Tarcísio Mota:

Uma das minhas prioridades será otimizar o uso dos recursos públicos e garantir a integração dos órgãos estatais de forma que a execução das ações de governo nas diferentes regiões do estado seja mais eficaz, eficiente e efetiva. Mas eu não caio nessa onda de “político gestor”. Existe uma enorme diferença entre gerir uma empresa e administrar um governo. O objetivo central de toda e qualquer empresa é produzir lucro. Já o papel de um governo democrático deveria ser garantir direitos. O problema é quando a gente coloca o lucro acima da vida, quando o dinheiro se torna mais livre que as pessoas. Grande parte dos problemas que vivemos hoje deriva do fato de que o Estado é gerido como um balcão de negócios. Esse não é o modelo de governo que eu defendo. Pelo contrário, acredito que o papel do governador deva ser promover uma cultura de direitos e defender as liberdades de todas e todos.

 

Índio da Costa:

O Estado não é uma empresa. Quem pensa dessa forma não olha o estado da maneira correta. O estado não é para dar lucro, é para prestar serviço. Todo o recurso que o estado arrecada vem do trabalho das pessoas. Elas trabalham, lutam todos os dias, ganham seu dinheiro. Seja rico, pobre, empresário, trabalhador. Todos eles contribuem com uma parcela considerável do seu salário. Sendo que, na planta fiscal brasileira, o pobre contribui muito mais que o rico, porque se cobra com muito mais constância o imposto indireto, que são os impostos sobre a produção e o serviço. Então, a primeira coisa importante é que não se administra o Estado como se administra uma empresa, porque uma empresa tem a visão do lucro e o estado a qualidade dos serviços. 

 

Não vejo uma onda de políticos gestores. Agora, gestão pública, aí, sim, o estado precisa de gestão pública. O gestor público é um multiplicador dos impostos em serviços. Ele tem que ter a capacidade de gerenciar cada real e fazer que cada real se transforme num serviço com qualidade. Quando ele não faz isso, ele está roubando o contribuinte. O dinheiro não é dele, ele não administra o dinheiro dele, e, sim, o do povo. Essa é outra diferença grande da empresa privada, se eu sou dono da empresa estou administrando o meu dinheiro, o risco é por minha conta. Já na empresa pública não é assim. Estou administrando o dinheiro dos outros e o risco é dos outros. Veja o que está acontecendo agora no governo do estado, o governo não funciona, quebra e quem paga a conta é a população. O governador até agora não pagou a conta dele.

 

Dayse:

Os “políticos gestores” governam para a burguesia. Dão isenções para os empresários e arrocham o salário do funcionalismo. Os serviços públicos como saúde e educação são vistos como custos que devem ser cortados. Estão avançando com a terceirização e as privatizações no serviço público. A melhor forma de gerir os recursos públicos é reduzir o salário dos parlamentares e acabar com os privilégios. Os parlamentares deveriam ganhar igual a um professor ou operário. Nós pretendemos fazer um governo apoiado em conselhos populares que devem decidir sobre 100% do orçamento.

 

Ex-juiz Wilson:

Administrar um estado tem algumas peculiaridades em relação à empresas privadas. Eu tenho 35 aos de serviço público e experiência de gestão na iniciativa privada para poder governar um estado complexo como o RJ.

 

Marcelo Trindade

A crise revelou o intenso grau de ineficiência da gestão pública no estado do Rio de Janeiro. A escolha de gestores sem capacitação técnica está na raiz desses acontecimentos lamentáveis. No lugar da escolha técnica dos gestores públicos, muitos cargos de gestão são preenchidos por mera barganha política, sem qualquer preocupação com o conhecimento e a capacidade dos indicados.  A barganha começa a ser negociada antes mesmo do período de campanha eleitoral, em troca por tempo no horário gratuito em rádio e televisão e na repartição dos fundos públicos.

 

Tudo isso é muito distante do Partido Novo. Nossas ideias e práticas são outras. Nós defendemos a gestão, seja com instrumentos usados em bons governos seja readaptando métodos positivos da iniciativa privada. Não há nenhum motivo para termos preconceito contra uma boa gestão, a não ser para os políticos que fazem da demagogia o seu instrumento principal de persuasão e poder.

 

A eficiência do serviço público não depende apenas de gestores técnicos. É fundamental assegurar que tais gestores e todos os servidores públicos estejam sempre alinhados com o interesse público. E o público tem interesse em qualidade. Por isso é preciso engajar os gestores e servidores públicos em um Choque de Eficiência.

 

Nossa plano prevê a implantação de metas de redução de custos de funcionamento das unidades do governo e de melhoria da qualidade dos serviços à população. O atingimento das metas assegurará aos servidores envolvidos uma gratificação especial por eficiência.

 

Márcia Tiburi:

Entendemos o Estado como o agente central no projeto de desenvolvimento do Rio de Janeiro, legítimo coordenador, regulador, planejador e executor de intervenções econômicas e sociais. Nesse sentido, é preciso avançar na gestão de pessoas com uma política estadual integrada de recrutamento, seleção, capacitação e avaliação contínua dos servidores, gestão por competências e fomento à profissionalização do serviço público orientado para as necessidades dos cidadãos.

 

Temos preocupação com a qualidade da gestão pública e não vejo impedimento em aplicar metodologias oriundas da gestão privada, com as adaptações cabíveis. Em algumas áreas essa troca de conhecimentos e experiências é muito frequente, como no planejamento estratégico, na automação de processos, no uso das tecnologias de informação e comunicação. Isso não significa que governar um estado é o mesmo que gerenciar uma empresa.

 

Eduardo Paes:

Agora, todo mundo tem falado muito de gestão. A gestão é necessária e fundamental, mas também é preciso capacidade política para fazer as coisas, capacidade de articulação, capacidade de liderança, é preciso saber liderar processos. E ninguém tem dúvida que uma das duas tarefas básicas que precisamos cumprir é recuperar as finanças do estado – a outra é a questão da segurança. Precisamos rever benefícios e privilégios fiscais, rever a maneira como o estado é gerido, renegociar dívidas. Ao fazermos isso, vamos começar a devolver a capacidade econômica do nosso estado, a capacidade fiscal do nosso estado, e aos poucos, através de parcerias, de PPP’s, de concessões, devolver também a capacidade de investir.

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