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Sexta-Feira, 17 de Agosto de 2018
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Publicado em 15/01/18, às 08:51

‘Cachoeira da Contorno’

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A Internet é como um papel em branco: aceita qualquer coisa. A diferença é que no caso do papel, basta ir a um cartório para checar se o documento é verdadeiro. Na Internet, a coisa dá um pouco mais de trabalho. Contando com isso, os alarmistas de plantão inundaram as redes sociais com imagens do temporal que caiu em Volta Redonda, no fim de semana passado – principalmente no domingo, 7, à tarde – com várias imagens de enchentes por toda a cidade.

 

A chuva realmente assustou: foram 93 milímetros de água em 24 horas. Para se ter uma ideia, o suportado pelo solo para escoamento, no mesmo período, é de cerca de 20 mm. Ou seja, choveu quase cinco vezes mais que o normal.  E provocou alagamentos por diversas áreas da cidade, como na Avenida Amaral Peixoto, na Rodovia dos Metalúrgicos, nos bairros Casa de Pedra e Siderópolis. E foi nestes dois últimos que surgiu a mais nova teoria conspiratória de Volta Redonda: a Rodovia do Contorno estaria provocando os alagamentos nesses bairros.

 

Isso mesmo, caros leitores, depois de 23 anos de espera e R$ 104 milhões gastos (dinheiro público), a rodovia estaria causando alagamentos nos bairros por onde passa. Seria muito azar para uma obra só. As imagens são claras, a água do Córrego Cafuá invade o asfalto e as calçadas nas ruas principais do Siderópolis (Padre Ernesto Moreira Lamin e 650-A). Moradores desesperados, entre exclamações de espanto, afirmam que “em mais de 30 anos” nunca teria tido uma enchente assim. Em outro vídeo, um motorista pára na Rodovia do Contorno e filma uma imponente (para os padrões de Volta Redonda) cachoeira no alto de um morro ao lado da rodovia. É o caos!

 

Nos vídeos, alguns culparam, além da Rodovia do Contorno, a obra atrasada da construção de uma pequena ponte na Rua 719, que deveria ter sido entregue ainda no final do governo Neto, em dezembro de 2016. Não foi, e nem na data que o sucessor Samuca Silva havia marcado: dezembro de 2017.

 

Mas o que há de verdade e o que há de “lenda da Internet” nessa história? O aQui checou algumas informações, como, por exemplo, a cachoeira na Rodovia do Contorno. Na verdade, a ‘cachoeira’ sempre existiu naquele local, e fazia a festa dos mountain bikers (ciclistas de trilhas) que passavam por ali e se refrescavam no mísero fio de água que cai em tempos normais. Nada que lembre a “Catarata do Iguaçu” em que se transformou a cascatinha com o temporal de domingo à tarde. Tem mais: o próprio vídeo revela que a queda d’água fica em um ponto bem acima da rodovia, descartando qualquer influência da obra no fenômeno. Foi coisa de São Pedro mesmo. 

 

Sobre o alagamento nas ruas principais do Siderópolis, a história é um pouco mais complicada. A prefeitura alega que a obra atrasada já melhorou o escoamento do córrego Cafuá, quando trocou as antigas manilhas por tubulões (como previa o projeto original). Juntando isso com o grande volume de chuvas, houve a cheia do Cafuá no Siderópolis, coisa incomum, mas não rara. Basta lembrar que as margens do córrego naquela local viviam desmoronando, e volta e meia isso ocorre novamente. A prefeitura também descartou qualquer ligação da Rodovia do Contorno com as cheias do Cafuá. “Sobre a Rodovia do Contorno, a construção foi realizada há mais de 20 anos, não tendo ligação ao córrego que passa no local (Casa de Pedra e Siderópolis, grifo nosso)”, diz a resposta enviada ao aQui pela secretaria de Comunicação de Volta Redonda.

 

A boa notícia neste caso é que a prefeitura informou que a obra (muito) atrasada deve ser entregue até o dia 17 de janeiro. A má notícia é que esse prazo pode se estender. “A obra, que tem o prazo de entrega para o dia 17 de janeiro, poderá sofrer alteração devido às fortes chuvas que poderão ocorrer em Volta Redonda”.  

 

O aQui também questionou a prefeitura sobre os vídeos que mostram a entrada dos bairros Nova Primavera e Parque do Contorno, muito próximos à Rodovia do Contorno, onde foram registrados vários alagamentos. O governo municipal respondeu que há na parte de baixo desses bairros um terreno particular assoreado, o que prejudica a drenagem do local. “A prefeitura vai entrar em contato com os proprietários para solucionar o problema”, afirma a nota, ressaltando que os alagamentos nestes locais também foram agravados pelo enorme volume de chuvas daquele fatídico domingo de verão.

 

Então, quando você vir agora um vídeo decretando o fim do mundo, que fulano ou beltrano será o próximo presidente do Brasil, ou que a Rodovia do Contorno está alagando bairros de Volta Redonda, pare, pesquise e pense. Pode ser mentira, por mais que você queira acreditar no contrário.

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